São 32 agricultores certificados e 141 hectares de produção biológica no Faial

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Mais de centena e meia, de seis ilhas, compõem a Trybio – Associação de Produtores e Consumidores de Agricultura Biológica. Desde 2017 a associação sedeada no Faial promove o MPB, vegetal e animal, o seu consumo e a sustentabilidade ecológica. Falámos com Margarida Costa, vice-presidente da Trybio, para conhecer o panorama e os desafios que se põem.
Mais biológico precisa-se para garantir a sustentabilidade da região, boa qualidade de produtos e capacidade de abastecer o mercado regional, sem recorrer à exportação massificada da maioria dos produtos que consumimos.
Neste primeiro Dia Europeu da Agricultura Biológica fazemos um Estado da Arte do setor no Faial.

 

Tribuna das Ilhas (TI) – Que produtos hortícolas e frutícolas melhor se adaptam aos nossos solos e clima?
Margarida Costa (MC) – Os Açores tem diferentes tipos de solos e de climas que possibilitam a produção de uma grande variedade de produtos vegetais e pecuários, em terra e no mar, para alimentação humana e animal.
Atualmente já estão certificadas explorações em modo de produção biológico para produtos tradicionais como o chá, o ananás, as pastagens, os bovinos de carne e o leite biológico, o mel e produtos hortícolas.
Porém, vários produtores estão a apostar em variedades, sobretudo para saladas e sumos, pouco conhecidas e que são valorizadas pelo consumidor e pela restauração.
Assim, aconselha-se os produtores a ajustarem a produção às caraterísticas de cada local bem como às preferências de quem compra e às necessidades da indústria transformadora.

TI – Para que uma produção seja certificada como agrobio deve cumprir uma série de requisitos. Há alguns que considerem desadequados ou demasiado exigentes? Quantas produções agrobio biológicas existem no Faial atualmente?
MC – Na União Europeia, o modo de produção biológico e a rotulagem dos respetivos produtos são alvo de regulamentação específica. O cumprimento destes requisitos em cada exploração é verificado anualmente por uma entidade acreditada.
Este modo de produção é substancialmente diferente da agricultura convencional nos objetivos, princípios e regras. O mais exigente poderá ser aprender a fazer diferente, daí a existência de um período de conversão.
Existem 32 produtores no Faial, sendo a área certificada e em fase de conversão de 141 ha. As produções mais expressivas são as pastagens, os bovinos de carne, o mel, os produtos hortícolas e frutícolas.
Gostaríamos que no Faial, e também nas outras ilhas, ao longo do ano houvesse um cabaz com variedade e quantidade que satisfizessem as expetativas.

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Myrica Faial são dos maiores produtores a nível local

TI – Se alguém quiser iniciar uma produção biológica com que apoio contam da vossa parte?
MC – Na área da produção, a Trybio desenvolve atividades quer de acompanhamento técnico no processo de produção quer de capacitação através da organização de ações de formação, workshops, visitas técnicas, palestras, seminários, entre outras.
A Trybio apoia os seus sócios produtores e operadores no processo da Certificação, através do planeamento e da organização da vinda da entidade certificadora.

TI – Desde a formação da associação até hoje, o que mais mudou no contexto local?
MC – A Trybio celebra este ano o seu 5.º aniversário, tendo iniciado o desenvolvimento das suas ações a partir da ilha do Faial para as outras ilhas do Triângulo e chegando em 2021 a todas as ilhas.
Assim, no contexto local, observa-se que existem mais produtores e produtos certificados e mais pessoas e entidades sensibilizadas.
A nível regional, desde o ano passado tem sido possível concretizar ações de promoção e capacitação em todas as ilhas graças a parcerias desenvolvidas com diversas entidades, ao empenho dos produtores e à adesão dos consumidores.

TI – Acreditam dever existir apoios diferenciados à instalação de uma produção agrícola biológica quando comparada com a convencional?
MC – É essencial existirem esses apoios, sobretudo na fase inicial para assegurar a conversão do modo convencional, baseado em fatores externos, para o modo biológico, baseado em sistemas ecológicos, uma vez que são tão diferentes.
Esses apoios podem ser financeiros, para evitar a eventual perda de rendimentos para os produtores. Mas é fundamental o apoio técnico nos processos de instalação das explorações, de produção, de comercialização, de transformação e também de certificação.

TI – Que futuro para o Faial e os Açores neste sector?
MC – A aposta na autonomia, sustentabilidade e inovação do setor de produção agropecuário é essencial numa região arquipelágica e ultraperiférica. Isto tornou-se ainda mais evidente com a vivência da situação pandémica, da guerra e dos efeitos das alterações climáticas. Estes fatores trazem insegurança à produção e distribuição dos alimentos e têm um impacto negativo nos preços.
O modo de produção biológico visa não só a produção de alimentos seguros e saudáveis, mas também contribuir para a proteção do ambiente e do clima, manter a fertilidade e saúde dos solos e contribuir para a biodiversidade, para um ambiente não tóxico e para o bem-estar dos animais.
Em março de 2021, a Comissão Europeia apresentou o Plano de Ação para o desenvolvimento da Produção Biológica. O objetivo geral é estimular a produção e o consumo a fim de que, até 2030, 25 % dos terrenos agrícolas sejam consagrados à agricultura biológica. Nos Açores e para o ano 2022 este valor é cerca de 2%.
O modo de produção biológico é essencial para o desenvolvimento sustentável dos Açores estimulando o mercado interno de produtos ecológicos de qualidade, reduzindo a dependência da Região em relação ao exterior e trazendo à agricultura mais riqueza e maior valor acrescentado, no respeito pelos sistemas e ciclos da natureza, na utilização responsável da energia e dos recursos naturais e pela melhoria da qualidade do ambiente e dos serviços ecológicos.