Saudades do Futuro… Horta. Mar com oportunidades

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“Não há saudades mais dolorosas 

do que as das coisas que nunca foram!”

Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 Há mais ou menos uma semana recebi um telefonema a pedir um pequeno depoimento profissional sobre o contributo da marina e da náutica de recreio para a economia da Horta e do Faial. 

Comecei por hesitar. Em primeiro lugar, pela disponibilidade de tempo para incluir mais esta tarefa, antes de mergulhar na Praia do Almoxarife. Em segundo, pela minha situação de faialense que me leva a duvidar se terei o distanciamento suficiente para assumir simplesmente o lado técnico da questão ou se, por outro lado, a condição de a exercer apenas no mês de Agosto não me dá uma visão parcial e deturpada. 

No outro prato da balança pesava, no entanto, o facto de demonstrar quase sempre disponibilidade para este tipo de solicitações e agora que estava em causa a minha terra preparava-me para negar o pedido de colaboração.

Pesados os argumentos, decidi avançar mas com uma atitude prudente, cautelosa e de preferência sempre protegido pelo rigor e frieza dos números. 

A pesquisa de informação que consegui realizar e os contactos que estabeleci não me permitiram encontrar em tempo útil elementos sistematizados que pudessem servir de suporte a uma análise detalhada da influência da marina na vida económica do Faial. Lembrei-me, durante este processo dos registos diários, no jornal “O Telegráfo”, do estilo, “Quasar, de nacionalidade inglesa, com 4 tripulantes, vem da Bermuda em 14 dias de viagens e destina-se a Portsmouth, Inglaterra” e do direito a destaque especial no primeiro ano em que foi alcançado o registo da centésima entrada.

Restava-me portanto avançar com recurso às metodologias puras e duras da economia, muito técnicas, indirectas e com várias hipóteses simplificadoras: “O PIB dos Açores é 3,7 mil milhões de euros, a produtividade, 30,5 milhares de euros, a população residente no Faial são 15038 habitantes, logo admitindo uma taxa de actividade (…) e, a hipótese da relação VAB/VBP ser constante…” 

Caramba! A minha ilha não é um número! A actividade náutica, a nossa baía e a avenida marginal, o antigo espaço do “meu parque infantil” não podem ser reduzidos a uma qualquer percentagem do PIB. Os próximos tempos são demasiado decisivos para ficar a assistir na bancada. 

Assumo por isso, a partir deste ponto, a minha condição de faialense, na situação de “profeta de Agosto” e deixo, espero que para início e agitação das águas, duas reflexões e uma proposta sobre a Horta, a actividade náutica, a marina e a nossa baía.

Reflexão 1 – Salão nobre com varanda e vista panorâmica

Lembro-me bem do arranque em falso da marina. A construção, nunca acabada, do pontal que saía de trás da Estalagem e que apenas serviu para nos dificultar os mergulhos no cais de Santa Cruz e aboliu esse grande teste de coragem que era passar, com a maré cheia, do Largo do Infante para o Cais Velho sem nos molharmos. Depois, o pontal inacabado viria a ser demolido para dar origem à obra da primeira fase da marina. 

Esta recordação serve apenas para ilustrar a necessidade de sabermos com segurança o que queremos. A nossa baía e a nossa marina têm características singulares, são um prolongamento natural da cidade e a marginal, os cais e a doca devem funcionar como passeio público da cidade e local privilegiado na disponibilização de serviços aos utentes da marina, aos visitantes e aos residentes.    

A marina e a baía são o nosso salão nobre, o espaço das grandes recepções aos que nos visitam, com o privilégio acrescido de conter uma enorme varanda panorâmica com uma vista deslumbrante e sempre surpreendente e um serviço meteorológico permanente (apenas disponível ao final de 10 anos de observação diária).  

Não tem por isso sentido fazer intervenções num canto do salão sem pensar no todo. Nos salões nobres não se criam divisões, nem portas. O nosso salão não tem portas. Temos sim um magnífico conjunto de majestosas entradas, permanentemente abertas, e de canais que nos conduzem desde a entrada Norte (Ponta da Ribeirinha com a ponta dos Rosais de São Jorge – ou será mesmo, na Graciosa?) ou da entrada Sul (Ponta de São Mateus com o Morro de Castelo Branco), ou da entrada Este (Ponta da Piedade com a Ponta do Topo de São Jorge).

Há quase 90 anos, Raul Brandão, na sua viagem de dois meses pelos Açores relatada no seu livro, Ilhas Desconhecidas (talvez uma das primeiras grandes acções de marketing em favor dos Açores), alertou-nos para esta interdependência e necessidade de visão de conjunto. “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”.

Reflexão 2 – A amarração do iatismo 

Recordo também o tempo das polémicas em torno da construção das marinas nas outras ilhas e de pensar-se que esse processo iria a prazo retirar o iatismo do Faial. 

Hoje, apesar dos erros na concepção e dimensão de algumas marinas (por exemplo, o sub-dimensionamento da marina das Velas), é claro que as novas marinas acrescentaram valor à marina da Horta e que a Horta gera trafego para as várias marinas dos Açores. Pois é, Raul Brandão e a expressão “… e as completa” ou, em termos mais técnicos, há “jogos de soma positiva”, todos os jogadores ganham!

Mas será que a procura do Porto da Horta irá manter-se? A festa e o “merci Armandô” com que terminam os eventos das regatas internacionais que escalam a nossa marina (como será merecido e justo ouvir um dia destes esta expressão em português com sotaque faialense) permitem concluir que neste segmento da procura temos também, no momento presente, vantagem, conhecimento e tecnologia. 

Depois, nos outros segmentos do iatismo, há que manter os nossos grandes ícones, o PETER, o “mistério” das pinturas… 

Afinal são múltiplas gerações, desde o tempo das baleeiras do século XVIII, a trabalhar com paixão para este fim. Há um saber-fazer acumulado e um capital relacional dificilmente quantificáveis, mas que pode ser aproximado por indicadores simples como as listas de contactos dos telemóveis e pelos “amigos” nas redes sociais de alguns dos protagonistas actuais deste processo. 

A amarração do iatismo à Horta requer, no entanto, uma atenção permanente e a capacidade de leitura e antecipação das tendências de evolução do mercado. Assim, por exemplo, ao pensarmos no plano global para o nosso Salão Nobre, não podemos esquecer um espaço generoso para actividade de invernagem de iates. Trata-se de um serviço com crescente procura em termos internacionais e que permite o alargamento da fileira das actividades da náutica de recreio e o renovar do enraizamento e dos laços que a amarram à cidade da Horta.

Desejo que nesta matéria não acabemos a reivindicar o espaço por que outros decidiram avançar ou já o têm. Assumamos a liderança e avancemos. 

 

Uma proposta – A Horta, o Canal e o Triângulo no tempo dos nossos filhos e netos 

O tempo que aí vem para os Açores é diferente. A fase das políticas uniformes para as 9 ilhas, pensadas a partir de estratégias organizadas fundamentalmente por sectores de actividade, deve abrir espaço para soluções que permitam a expressão das diferentes vocações das ilhas e de grupos de ilhas. Esta é a forma, por mais paradoxal que possa parecer, que permitirá reforçar a coesão inter-ilhas e permitir a continuação do desenvolvimento da região e o fortalecimento da identidade açoriana.

É tempo por isso de nos juntarmos, faialenses naturais e residentes, reflectirmos sobre os desafios e oportunidades que temos pela frente e construirmos, com informação, conhecimento e paixão o futuro que desejamos. Assumamos apenas, como hipótese de partida, que serão tanto maiores as probabilidades de êxito quanto mais respeitarmos e nos apoiarmos no nosso passado (“eu vim de longe e vou para longe”). 

Estamos no início de novos ciclos, Outubro de 2012 as eleições regionais, Outubro de 2013 as eleições autárquicas. Utilizemos este tempo para dinamizarmos o processo e no final assinemos um compromisso com o futuro, uma carta estratégica com poucas páginas sobre o que queremos e também o que não queremos para o tempo dos nossos filhos e netos. 

Depois, entreguemos a condução àqueles que escolhermos como os nossos homens do leme mas não esquecendo que sabemos para onde queremos ir e que todos fazemos parte da tripulação e vamos ser necessários pois superfícies frontais e baixas pressões surgirão sempre no mar dos desafios e das oportunidades.

Ah! Já me esquecia. No dia em que assinarmos a carta estratégica façamos uma festa e um brinde com o melhor verdelho do Pico. No meu caso brindarei, aí sim, com uma imensa e doce saudade, em memória de duas pessoas do nosso canal Pico-Faial. Uma que não pôde participar nos últimos 30 anos nesta caminhada, a outra que o fez de forma intensa e empenhada até há 3 meses atrás. Eles sabem! 

Até logo!

TP1843, Lisboa-Horta, 30 de Julho