Ser, Ter ou Parecer

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TI

“Não basta ser. É necessário parecer”

Um pouco de história para iniciar. A frase “À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta” é atribuída ao imperador de Roma Júlio César que a teria proferido quando decidiu se divorciar de sua esposa, Pompéia. Segundo Plutarco (historiador) Pompéia realizou uma comemoração, em casa, apenas para mulheres (homens eram proibidos). Um jovem chamado Clódio entrou disfarçado de mulher, na casa, teoricamente, para seduzir Pompéia, mas foi descoberto, por sua voz, e levado a julgamento. Clódio foi inocentado, por falta de provas, mas Júlio César se divorciou da mulher, proferindo a famosa frase. Apesar de não existirem provas, os romanos já tinham uma opinião formada e se César mantivesse o casamento poderia se enfraquecer, perante o povo.
O que acontece é que vivemos em sociedade e somos frutos de um contexto. Ninguém nasceu sozinho, ninguém se educou sozinho, ninguém cresceu sozinho. Vivemos numa dependência mútua e, neste sentido, cada comportamento nosso tem uma consequência social. Ignorar que as nossas palavras, ações e decisões afetam quem nos rodeia revelaa ingenuidade. O ditado fala de coerência entre discurso e ação. O que o ditado valoriza é que aquilo que dizemos ser e defender (Ser) tem que se refletir em conformidade com as nossas ações (Parecer/Exteriorizar).
A aparência é a exteriorização de algo que não reflete, necessariamente, o Ser. Muitas vezes, fala de um papel desempenhado, dentro de um contexto. É preciso, por isso, encontrar uma forma de equilibrar o que somos e o que parecemos, sem nos vendermos pelo meio. Desejo que, cada um de nós, esteja atento de forma a agir de acordo com o que diz ou defende. Penso que a grande questão de todos nós, é essa falta de coerência entre o que dizemos e o que fazemos. Bom, mas termos consciência disso já é meio caminho andado, para melhorarmos esse nosso aspeto. Ou pelo menos deveria ser.
A grande diferença entre o “Ser” e o “Ter” é uma sociedade estar centrada nas pessoas ou estar centrada nas coisas.
O “Ter” é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, indiferença, intolerância, enfermidade, solidão. O “Ter” não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais “Ter”.
“Ser” é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, tolerância, aceitação e preocupação do outro… Este é o meu pensamento, a minha opção tentar “Ser”.
A nossa imagem constrói-se, a todo o momento, desde o banco da escola ou da universidade até ao cargo ou função mais elevados que possamos ocupar. Acredito, plenamente, que o “Ser” tem que se sobrepor ao “Ter”. Sei que não é o sentimento dominante, nesta sociedade, preocupada com uma globalização, essencialmente, financeira e especulativa, pelo vírus da ganância alojado na mente, de certos “yuppis” e de certas “empresas”, por uma tecnologia que parece tudo explicar e dominar e por uma visão maniqueísta das relações humanas que pretende conduzir-nos para perigosos desvios, assim como para um choque de civilizações e religiões obsoleto, retrógrado, sem cabimento e sem esperança, causador de tanto sofrimento.
Afinal, é preciso ser e parecer…e ser de confiança passa, necessariamente, por demonstrar que se quer exercer o poder para executar uma política diferente, que consideramos fundamental. Quando se diz que se é de confiança, não basta afirmá-lo, é preciso sê-lo.
Triste Sociedade onde ter e parecer são mais importantes que ser.

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