Sinais dos tempos

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O Brasil elegeu democraticamente o seu novo líder, Jair Bolsonaro.
O resultado das eleições foi o que todos já esperavam, mas não deixa de ser extraordinário pensar que há 1 ano atrás ninguém sonharia que tal viesse a acontecer. Aliás, há 1 ano Bolsonaro nem era filiado no partido (de reduzida expressão), que agora ganhou as eleições e só oficializou a sua candidatura há 3 meses.
Um candidato supostamente anti-sistema, mas que é político profissional há 28 anos em 9 partidos diferentes, que agregou toda a onda de medo, raiva e descontentamento da sociedade brasileira, temperado com o nacionalismo militar, o liberalismo económico do partido moleta e o ultraconservadorismo da religião evangélica.
Não vou aqui adjetivar o candidato nem citar as suas polémicas afirmações, pois creio que o leitor está minimamente elucidado acerca disso. Apenas indicar 5 tópicos que me parecem que foram fundamentais para o resultado destas eleições:
Medo/insegurança; corrupção; atentado sofrido; ódio/divisão, Fake News (notícias falsas) e redes sociais.
Acrescento o facto do candidato se ter recusado a discutir ideias em debate com os outros candidatos (com o argumento do atentado), utilizando monólogos pelas redes sociais para difundir as suas ideias.
Há quem defenda que o que se passa no Brasil ou em outras partes do Mundo é lá com eles e não nos devemos preocupar. Esquecem-se é que vivemos num mundo global e que os sinais do que acontece “lá fora” já começam a demonstrar-se “cá dentro”.
O crescimento e o impacto das Fake News e dos grupos de apoio nas redes sociais, financiado até por grupos económicos, foi evidente no Brasil e também contribuiu para o desfecho. E o curioso foi verificar que a maioria era controlado do exterior do País, inclusive de Portugal.
Curioso também foi o trabalho de investigação do Diário de Notícias, das Fake News sobre a política portuguesa. Desmantelando vários grupos nas redes sociais, com milhares de membros que divulgam informação (consciente e inconscientemente) destinada a enganar a opinião pública.
Ficamos a saber de sites de Fake News portuguesas, sediados no Canadá, que partilham todos o mesmo IP e se dedicam a disseminar imagens e notícias que atacam determinados grupos políticos.
Vários desses sites estavam ligados a uma empresa do norte do país, especializada em criação e manutenção de sites e divulgação em redes sociais.
Um dos mais conhecidos, geridos pela empresa, chama-se “Direita Política”, que tem no seu palmarés a proliferação de imagens e notícias falsas, umas elaboradas, misturadas com informação atual e credível, outras totalmente absurdas. Mesmo na informação que não é falsa é visível um denominador comum, ódio, desprezo e um tom ofensivo para quem tem ideologia diferente.
Ao contactarem o dono da empresa, foi sem surpresas que li que era apoiante “desde o primeiro momento” de Trump e Bolsonaro.
Já tinha identificado estes sites há algum tempo atrás. Mas o que mais me chocava era ver conhecidos que partilhavam informação falsa. Percebia claramente que nuns casos tratava-se de partilhas de pessoas pouco esclarecidas ou os novos infoexcluídos, noutros casos apenas “cegas” nas suas crenças e induzidos pela aversão a quem defende ideias diferentes das suas. Mas quando vejo pessoas esclarecidas, com relevo ou cargos políticos na nossa comunidade, a fazer tais partilhas ou fazendo “Gosto”, percebe-se que isto é um fenómeno sem fim à vista e com o qual ainda não sabemos lidar.
No filme baseado no massacre do terrorista de extrema-direita na Noruega, houve uma frase que fixei, no diálogo entre um advogado e um indivíduo que, criticando o ato, tinha a mesma ideologia do terrorista: “Há muito medo e ódio lá fora….e é por isso que o amanhã nos irá pertencer.”

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