Sobre capacidade de carga

0
6
TI

Muito se tem falado sobre a capacidade de carga humana sobre os sistemas naturais e culturais da paisagem. No entanto, este conceito pode não ser claro para todas as pessoas. Então, o que é capacidade de carga? A capacidade de carga foi definida como o número máximo de pessoas que, em conjunto, podem visitar um determinado lugar sem causar danos físicos, ambientais, socioculturais ou económicos. O conforto físico e psicológico dos visitantes quando da visita é também tido em conta.
E o que não é a capacidade de carga? Não é um número mágico, que possa ser aplicado a lugares diversificados nem em todas as circunstâncias. Isto porque a capacidade de carga depende da sensibilidade dos sistemas ecológicos que ocorrem nos locais. Mesmo dentro de uma área protegida a capacidade de carga pode ser diferente, em lugares diferenciados: zonas de turfeira e onde ocorram raras espécies endémicas herbáceas deverão ter uma carga humana quase nula; enquanto áreas mais pobres em termos ecológicos poderão ser facilmente percorridas por visitantes por meio de trilhos sem que a qualidade da experiência seja diminuída, devido ao interesse inerente à própria paisagem, num sentido global.
A carga humana que os ecossistemas podem suportar varia ao longo do ano e das suas estações. É fácil de compreender que, numa área protegida onde ocorra a nidificação de aves, por exemplo, a carga humana suportável seja naturalmente menor na época de nidificação. Sendo assim, ficamos a entender que não há números mágicos, e que a gestão deverá ser adaptativa em função dos limites dos ecossistemas e dos sistemas culturais, devendo-se para tal fazer uma monitorização cuidada do número de visitantes presentes nas áreas mais sensíveis e uma observação dos impactos que essas visitas têm nos referidos sistemas.
Nos anos 80 do século passado este conceito evoluiu, quando os gestores de áreas protegidas e os investigadores da temática começaram a perceber que deveriam integrar também nos seus estudos o comportamento dos visitantes e as suas expetativas em relação à visita. Um grupo de botânicos ou uma turma de uma escola secundária poderão ter um comportamento diferente na visitação de uma área protegida, gerando impactos diferentes, e tendo expetativas diferenciadas em relação a essa visita. Assim, não é só o número de visitantes mas quem nos visita que também interessa ter em conta.
Ainda no século passado surgiram outras metodologias para estudar este tema, das quais destaco o método LAC (Limits of Acceptable Change). Este método coloca ênfase no limite máximo aceitável de alteração dos ecossistemas. Focando a atenção na manutenção da qualidade dos sistemas naturais e culturais e não no número de visitantes pode-se mais facilmente proceder às ações de gestão necessárias para alcançar as condições desejáveis. Assim se, por exemplo, uma determinada área protegida que admita um determinado número de visitantes diários pré-estabelecido, ainda assim mantiver impactos dessa visitação que não sejam considerados aceitáveis para a preservação da qualidade dos ecossistemas, esse número pode ser reduzido até que as ações de gestão em curso deem frutos. Por outro lado, áreas protegidas que numa determinada época do ano tenham menos interesse para a conservação da natureza podem admitir mais visitantes nessa época. A gestão adaptativa e a monitorização cuidada são, para este efeito, essenciais. Áreas protegidas bem geridas e monitorizadas conduzem a visitantes e populações satisfeitos. Todos temos a ganhar com isso.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO