Tomás Saldanha, antigo cabografista: “Temos condições para criar uma exposição dinâmica e interativa”

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Tomás Saldanha nasceu na comunidade cabografista inglesa e americana, na Horta. Desde menino que a sua vida está ligada ao cabo submarino, tendo sido técnico da Cable & Wireless no Faial até perto do seu encerramento. Hoje é um dos Amigos da Horta do Cabo Submarino e trabalha para que o Faial possa ter um museu que preserve e dê a conhecer a época áurea em que o Faial era o centro do mundo das comunicações. A trabalhar na recuperação do espólio do Cabo Submarino, Tomás não duvida de que há condições para criar uma exposição dinâmica e interativa. Ciente de que o Museu do Cabo Submarino não é um sonho, mas uma realidade em construção, o antigo cabografista entende que é preciso envolver a comunidade e alerta para a importância não apenas do espólio físico disponível mas também do património cultural da Horta do Cabo Submarino.

Tomás Statmiller Saldanha é, como ele próprio afirma, “cabografista de nascença”. Nascido e criado na comunidade das “companhias”, os seus parceiros de brincadeira eram os filhos dos cabografistas ingleses e, como eles, era apelidado de “bife”, como então se chamava aos ingleses que andavam pela Horta. “Lembro-me das brincadeiras de rapazes, em que não passava da segurança das ‘colónias’, das corridas de bicicleta, das tardes de ténis, dos passeios a pé, da fugida ao Café do Henrique Janeiro, que depois passou a ser Café Sport, das compras na ‘Famous Shop’ e ‘Casa do Povo’. Lembro-me dos banhos de sol, das ‘garden parties’ nos relvados, do jogo das ‘musical chairs’ nas festas de anos… Era um modo de vida completamente diferente. O conceito de sociedade que hoje em dia existe, como algo alargado e democrático, não existia. A sociedade era elitista”, recorda.
Do Faial rumou à Terceira para acabar o liceu, altura em que decidiu responder a um anúncio da companhia inglesa Cable & Wireless. Depois da inspeção militar foi admitido e partiu para Inglaterra onde iniciou os treinos para técnico do cabo. Voltou ao Faial como técnico da companhia e por aqui se manteve até 1967, altura em que se aproximava o fecho das estações e decidiu partir com a família para o Canadá para aí continuar a sua atividade de técnico. “Portugal vivia a Guerra de África. Tinha filhos homens a crescer e não os queria ver envolvidos no conflito”, recorda.
Agora, várias décadas após a Horta áurea dos cabos submarinos, Tomás é um dos antigos cabografias que levam a cabo a tarefa de garantir que as recordações desse tempo não se perdem. Os Amigos da Horta do Cabo Submarino devem a possibilidade de trabalhar neste objetivo a um homem que Tomás nunca se esquece de homenagear. Falamos de Monsenhor Júlio da Rosa, que o antigo cabografista descreve como um “homem de um gabarito intelectual fulgurante”, que comprou a sucateiros todo o espólio do Cabo Submarino de que atualmente se dispõe. O espólio estava condenado e Tomás não duvida de que só graças à visão do Monsenhor se pode, hoje, falar na criação de Museu do Cabo Submarino no Faial.
Para Tomás, esta tarefa é uma batalha que caminha para a vitória, travada pelos antigos cabografistas e também por aqueles que, “mesmo que nunca tenham visto um cabo submarino”, se associaram a esta causa, como é o caso de Henrique Barreiros, da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, que tomou sob a sua alçada este projeto, ou do arquiteto Martins Naia. 
Tomás Saldanha lamenta que a inércia que caracteriza a sociedade faialense tenha levado a que este espólio se tenha praticamente perdido. No entanto, tristezas não pagam dívidas e agora os antigos cabografistas trabalham afincadamente para recuperá-lo e exibi-lo ao público. Nesta tarefa participam uma mão cheia de antigos técnicos e operadores do cabo, que não esquecem os colegas já falecidos. Tomás lamenta que estes não possam partilhar da vitória nesta batalha, mas não se esquece nunca de os homenagear.

 
Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 01.03.2013 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário


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