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Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez.

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Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela,  nasceu em Benguela, Angola, a 29 de Outubro de 1941. 

Sociólogo de formação Pepetela é um escritor angolano, com raízes portuguesas, cuja obra reflecte com profundidade sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Há uns anos atrás, ainda decorria a guerra em Angola, tive a oportunidade de participar num retiro organizado pela Oikos nos arredores de Luanda para reflectir sobre identidade cultural angolana.

O tema interessava-me particularmente em virtude de eu próprio me encontrar nessa encruzilhada de identidades diversas que constituem a nação angolana. Um dos participantes era Pepetela e tive ai a oportunidade de com ele passar uns dias conversando e trocando ideias, fiz-lhe na altura uma entrevista gravada sobre o tema, publicada depois no boletim informativo da organização não governamental angolana ADRA (Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente) de que eu era na altura Oficial de Informação e Editor. Partilho hoje aqui convosco um pouco dessa entrevista:

 

João Stattmiller – De que falamos quando falamos de Identidade Cultural Angolana ?

Pepetela – De que identidade falamos, parece que há várias. Eu penso que há grandes divisões ou grandes diferenças conforme as regiões, os próprios percursos históricos, creio que há dois grandes grupos de culturas de que podemos falar, o urbano e o rural, com diferenças entre elas e no interior delas. Mas apesar disso se vai criando o chamado projecto de cultura angolana ligádo  à Nação Angolana, à formação da nação, esse é um projecto que tem resistido, com altos e baixos, a estes problemas de guerra e tentativas de divisões. Já é um projecto bastante avançado e que talvez forme aí uma cultura que se possa vir a chamar a cultura angolana do futuro, uma espécie de matriz para as outras todas. Penso que é um projecto que  está em desenvolvimento, com todas as dificuldades que isso provoca e todas as rupturas e sofrimento que provoca. É um processe.

 

JS – Qual é a responsabilidade da sociedade civil neste processo ?

P – Este processo é produto da sociedade civil mas também criador da sociedade civil, é quase como a galinha e o ovo, quando se fala de sociedade civil estamos a falar de pessoas. O que não é sociedade civil no fundo ?

Eu fico um bocado baralhado com essa questão, para mim vai-se criando criando. O criador é criado. É a serpente que engole a própria cauda.

 

JS – Que elementos concorrem para a formação dessa Identidade Cultural da Nação Angolana ?

P – Há duas grandes ordens de elementos, um é o que se pode chamar culturas culturas tradicionais, as sociedades africanas, e a outra é a matriz europeia, a influência europeia. No fundo a própria noção de Angola tem uma forte componente exterior. Se não houvesse, por exemplo, a colonização portuguesa haveria outra coisa aqui, mas não era Angola, não sei o que seria mas seria outra coisa qualquer não esta. A própria noção deste país como tal tem uma interferência externa forte, portanto é forçosamente uma das bases dessa cultura, a outra é exactamente a das culturas da tradição africana. O que acontece é que talvez não haja  um equilibrio consoante as regiões e o factor urbano e não-urbano, o que leva a que em alguns sectores sociais uma vertente seja muito mais poderosa que a outra e acabe por quase monipolizar. Falo particularmente do caso da influência europeia que é cada vez mais vísivel, hoje em dia não é bem europeia talvez seja melhor dizer ocidental, que é absolutamente vísivél em toda a vida deste país, e cada vez com maior força. Eu penso que estes são os dois principais vectores.

 

JS – Numa das suas intervenções falou da necessidade de relativizarmos o próprio conceito de “tradição”. Pode dar alguns exemplos práticos de como podemos fazer isso.

P – A tradição não é qualquer coisa de imutável e eterno que nasceu como as estrelas no tempo das estrelas. A tradição também se vai fazendo e um exemplo é o caso da alimentação, toda a gente diz que comida angolana tradicional, comida típica, quase que se diria comida tribal, é a mandioca. Ora a mandioca nem sequer é originária de áfrica, veio da américa. Hoje tornou-se tradição, sem dúvida, mas há quatro séculos atrás não era, não existia sequer aqui. Eu acho que é sempre preciso relativizar, a tradição é qualquer coisa que vem de trás mas atrás de uma tradição há outras, há sempre outras, podemos escavar na arqueologia e vamos encontrar sempre tradições que foram desaparecendo. A nossa tradição no fundo é aquilo que a nossa memória nos consegue legar, hoje em dia essa memória pode ser mais longa porque há instrumentos de gravação mais fáceis, mas aqui há uns tempos atrás era só a memória oral, era a tradição oral que funcionava. Ë sempre possível recuar para outras tradições que foram desaparecendo, por isso é preciso relativizar um pouco em nome dos absolutismos que existem (culturais, religiosos), podem haver fenómenos associados de xenófobia, de exclusão e até de fundamentalismo que são perigosos.

 

JS – Já foi vice-ministro da educação, o que lhe parece que está a ser feito para lidar com esta questão ?

P – Bem, geralmente os organismos que tratam dessas questões ocupam-se

mais dos aspectos “superficiais” da cultura, digamos das expressões culturais e não tanto dos aspectos de raiz, dos aspectos estruturais. 

Que eu saiba tem havido muito pouco debate, pouca discussão e poucos estudos sobre essas questões de fundo, talvez pelo facto de não existir sequer um instituto de investigação que lidasse com essas questões, começa por aí. Por outro lado, na falta de um instituto de investigação, a própria universidade poderia ocupar-se não só em cursos de pós-graduação mas mesmo nos próprios cursos de graduação, com investigações. Não existe, a universidade hoje em dia é uma espécie de escola onde se dão aulas de ensino superior, mas não é uma universidade, tem-se feito muito pouco. Fora destas instituições as necessidades já são outras, mais prementes, não se tem trabalhado nesse sentido, realmente há muito pouco, o que não quer dizer que não haja, há o esforço individual de pessoas, tem havido estudiosos a trabalhar estes temas mas é muito pouco, sente-se uma falta enorme.

Também acho que tem havido pouca abertura para discussões aprofundadas, tranquilas e pacificas sobre estes assuntos, talvez pelo próprio clima do país quando se toca em alguns assuntos imediatamente são quase que razão de conflito, então não se aprofundam os estudos nem os debates.

 

JS – Que lhe parecem iniciativas como esta da OIKOS ?

P – São iniciativas deste tipo que têm de ser expalhadas, aprofundadas e repetidas muitas vezes. Sobretudo deveriam ser mais publicitadas embora aí há sempre o aspecto de que quando uma coisa é muito publicitada perde a sua razão de ser. É como os monges faziam, ficavam nos mosteiros tranquilos, fechados, a comer e a beber bem mas a conversarem e a estudarem, por isso estavam fechados. Se entram as televisões e as rádios estraga tudo.

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