Um aprendiz de feiticeiro chamado José Medeiros

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José Medeiros é o talento e a audácia de um “songwriter” (escritor de canções) que tem a versatilidade cénica da commedia dell´arte. Por isso cantar é, nele, uma forma de ser autor e actor. E o seu último trabalho discográfico, Aprendiz de Feiticeiro, imagens e canções (disco, DVD e booklet apresentam-se com grande qualidade técnica e irrepreensível apresentação gráfica, tendo esta a assinatura de Fernando Resendes) é disso um bom exemplo. A produção é de Tiago Rosas e a direcção musical e arranjos estão a cargo de Jorge A. Silva e José Medeiros. O disco constitui, a meu ver, uma das mais porfiadas experiências musicais dos últimos anos em solo pátrio. 

Cantando as “atlântidas mitologias” da ilha (a real e a mitificada), José Medeiros continua a ser o trovador, o menestrel e o jogral dos tempos modernos. A “acting voice” deste cantautor dá-nos a conhecer as suas personagens e as suas “teatrices musicais”: ele é o saltimbanco, o arlequim, o palhaço e o pantomineiro que põe e tira a máscara existencial e que, vivendo a quixotesca utopia, renuncia às novas mitologias do quotidiano, e denuncia as preocupações e as inquietações da nossa pardacenta vivência. Sem nunca perder de vista uma expressão lírica e uma intenção telúrica.

 José Medeiros assume o ofício de “aprendiz de feiticeiro” (canção lindíssima) e, quando quer, sabe ser irónico e zombeteiro (“fanfarra dissonante”).

Aprumo conceptual, variedade de registos e estilos musicais: a balada (“balada do varandim”), a bossa nova (“lua d´agosto no rio de janeiro”), o fado (“fado da brasileira”), o chorinho (“chorinho pinguço”), a valsa (“valsinha de separar as mágoas”), a trova (“dulcineia”), a canção intimista (“adeus meu velho amigo”), a toada criativa (“comboio fantasma”), havendo esse monumental hino/homenagem à sétima arte que é “o outro lado do espelho, (revisitação)”. São canções viageiras que, partindo dos Açores, embarcam para o Brasil, para a América do Norte e para outros espaços universais. 

Com boas sonoridades, bem conseguidos arranjos, excelentes gravações, participação de músicos de primeiríssima água, vozes femininas bem calibradas (Filipa Pais, Pilar Silvestre, Marta Rocha Pereira, Vânia Dilac e Sílvia Moreira), Aprendiz de Feiticeiro é um disco de apreciável encanto e inegável qualidade. E a merecer, por isso mesmo, a nossa melhor audição.

 

 

 

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