Um novo ano Lectivo

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1. A vida da nossa comunidade como que se renova e desperta, neste início de Setembro, quando se inicia mais um ano lectivo. São as famílias com filhos em idade escolar  às voltas com os gastos e com a preparação do material para os seus filhos; são os profissionais que nas escolas ultimam o arranque de um novo ano lectivo; são as nossas crianças e jovens, umas vivendo a nervosa magia da primeira entrada na escola, outros renovando as expectativas anuais de novos reencontros ou de novos desafios; e é o nosso pequeno burgo que se agita (já foi mais visível, antes da saída da escola Manuel de Arriaga para as suas novas instalações) e ganha um novo bulício com o início das actividades escolares.

2. Um novo ano lectivo que no Faial mantém o signo da perda consistente de alunos que frequentam as escolas, fruto, sobretudo, da queda demográfica que silenciosamente envelhece muitas das nossas freguesias e as vai esvaziando de instituições de referência do seu imaginário colectivo como o são as escolas. Os nossos responsáveis políticos tardam em despertar para este problema. Como tardam as medidas (que não podem ser só de distribuir subsídios) que promovam uma natalidade consciente e solidária. E como tardam as medidas que incentivem a fixação de casais jovens em muitas das nossas freguesias mais envelhecidas e demograficamente debilitadas.

3. Um estudo europeu, realizado em 19 países, divulgado em Junho passado, revelou que as classes profissionais em que os portugueses mais confiavam eram os bombeiros (com 93%), seguidos a curta distância pelos professores e carteiros.

Embora advogue em causa própria, e apesar das campanhas orquestradas para denegrir a imagem da profissão docente, é um enorme conforto ver que os portugueses confiam esmagadoramente nos professores dos seus filhos. Mesmo sabendo que há professores mais competentes que outros. Mesmo sabendo que há professores intelectualmente mais dotados que outros. Mesmo sabendo que há professores com personalidade mais adaptada à sua profissão que outros. E mesmo sabendo da incompreensão de quem carrega a vida inteira os fantasmas que não soube enfrentar e resolver enquanto foi aluno!

4. O Governo da República quer acabar com o Ensino Recorrente e deu já orientações às escolas para encaminharem os alunos para os cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA) ou para o programa Novas Oportunidades. Qual a diferença entre estas modalidades de ensino? Muito simples: um aluno do ensino recorrente demora três anos para concluir o ensino secundário. Um aluno dos EFA demora um ano e meio. Um aluno do Novas Oportunidades demora entre 6 meses e um ano.

Para além disso, nos cursos EFA, como escreve o Prof. Ramiro Marques, os alunos "em vez de Matemática têm uma coisa chamada Sociedade, Tecnologia e Ciência. História? Língua Portuguesa? Nem pensar! Química? Biologia? Física? Qual quê? São disciplinas demasiado marcadas pela selecção social para terem lugar no currículo socialista.
No currículo socialista ensinam-se estas 3 preciosidades: Sociedade, Tecnologia e Ciência; Cultura, Língua e Comunicação; Cidadania e Profissionalidade."

Não há dúvida que estamos no bom caminho: quando Sócrates deixar o Governo vai seguramente deixar,  como uma das suas maiores heranças, uma multidão de ignorantes diplomados e um país com a educação na bancarrota da competência e da qualidade.

Esperemos que na Região prevaleça, ao menos nisto, o bom-senso!

5. Há ocasiões em que, quando assisto aos telejornais, dou comigo a ver em  José Sócrates uma espécie de Dom Quixote de la Mancha dos tempos modernos. Ao invés do alucinado fidalgo castelhano, o nosso jovial e contemporâneo Primeiro-Ministro não investe contra moinhos. A sua cruzada é mais a de um ilusionista: procurar no palheiro da governação nacional a agulha que nos faça acreditar que estamos no melhor dos países e que temos o melhor dos governos. E nesta insana tarefa em que se lançou, indiscutivelmente partilha com Dom Quixote a obstinação e o afastamento da realidade. Em vez de falar verdade, Sócrates especializou-se em negar, iludir ou apresentar os factos pela perspectiva que lhe permita concluir que temos o melhor dos governos.

Exemplo desta postura foi a leitura (repetida acriticamente por muitos órgãos de comunicação social)  que o Primeiro-Ministro e Governo fizeram do último Relatório da OCDE sobre Educação (Education at a Glance 2010: OECD Indicators, 07.09.2010): "Portugal em franco progresso na Educação", escrevia-se no Portal do Governo; "Foi um feito Portugal ter ultrapassado a média dos países da OCDE na taxa de cobertura do ensino pré-escolar", afirmou José Sócrates.

Mas, como escreve Paulo Guinote, "há mais coisas interessantes no relatório da OCDE para além dos dois únicos indicadores que o Governo decidiu servir à comunicação social para consumo geral (aumento do valor médio gasto por aluno e alargamento da rede escolar)."

Na verdade, nem o Governo, nem o Primeiro-Ministro pronunciaram uma palavra sobre o facto do mesmo relatório revelar que Portugal é o único país da OCDE em que o investimento (em relação à riqueza produzida e usando preços constantes) na Educação não-superior recuou, de um índice 100 para 97. 

Por outro lado, depois da campanha insidiosa e condenável que o anterior governo de José Sócrates lançou contra os professores insinuando, entre outras coisas, que trabalhavam pouco tempo nas escolas, este estudo prova agora que os professores portugueses, desde o 1.º Ciclo do Ensino Básico até ao Ensino Universitário, todos eles afinal têm uma carga de trabalho (horas em sala de aula) 10 a 25% superior à dos professores da OCDE. Também sobre estes dados, nem uma palavra.

Na política como na vida, acredito que a verdade é sempre um bem supremo. Sem a verdade ilude-se as pessoas. Sem a verdade não se mobilizam as energias nacionais para a necessária recuperação nacional.

O grande problema é que este Primeiro-Ministro de tanto iludir, já acredita que é verdadeira e real a ilusão em que vive.

13.09.2010

 

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