Velhos votos para novo Ano

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No início de um novo ano é comum fazer-se um balanço em relação ao que termina e projectar o que importa ser feito no ano que se inicia, em intervenções temperadas pela esperança de que um novo ciclo temporal seja aliado da mudança que todos queremos para melhor.

É neste espírito também que, em jeito de balanço do ano que findou, selecciono um tema que destaco pela negativa e na esperança de que o novo ano crie condições para alterar esta realidade dramática. Refiro-me à violência doméstica. 

Não, não é um tema novo – dir-me-ão; e sim, é um tema de que muito se fala e em que até se têm também registado progressos no estabelecimento de condições favoráveis ao seu combate e ao apoio à vítima – acrescento convosco. Porém, continuamos a não nos poder alhear desta realidade que atinge o reduto mais íntimo e supostamente mais resguardado e seguro da vida humana, o espaço confortante dos afetos, o refúgio protector de todas as agressões da vida. A pessoa que perde este abrigo de sentimentos, o qual se vai deteriorando pela violência quotidiana, é projectada não só para um abismo de emoções mas também para um vazio de condições de vida para poder vir a recuperar a sua.  

A violência doméstica tem um retrato sombrio em Portugal e o ano de 2014 tornou-o ainda mais negro pelo aumento do escandaloso número de mulheres assassinadas vítimas de violência doméstica. Se esta tragédia pessoal e familiar tivesse ocorrido uma única vez seria já um número excessivo mas, no nosso país, em 2014, multiplicou-se por quarenta vezes. É assim também uma vergonha nacional que a todos nos interpela e de alguma forma responsabiliza cada um de nós por sermos uma sociedade em que a mentalidade da posse sobre outros, da agressividade em relação aos outros se perpetua, uma sociedade que não consegue identificar os agressores e travá-los atempadamente, que não consegue libertar as vítimas dos seus agressores e disponibilizar suficientes e satisfatórias alternativas, que ainda não encontrou estratégias para inverter estes números até os suprimir totalmente. 

Muito se exige, pois, neste domínio: desde a educação dos jovens para o respeito pelos outros, sobretudo tendo em atenção que a violência entre namorados está a aumentar e que já então alguns jovens não estranham a violência na relação; ao nível de oferta de segurança e de condições de vida que apoiem efetivamente a decisão da vítima se afastar do agressor; não esquecendo uma assistência e acompanhamento mais eficazes das situações de violência familiar que vão sendo denunciadas às autoridades; e persistindo também no esforço de recuperação dos agressores. É verdade – repito – que muito tem sido feito a este nível mas os números falam por si na urgência de que muito mais e melhor se faça ainda.

O desafio para 2015 é enorme. Que nos votos de um feliz ano de 2015 se inclua a determinação de cada um para ajudarmos a vencê-lo.

Professora Universitária

Maria Patrão Neves

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