De tempos a tempos

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O drama humano que há muito se vive no Mediterrâneo é projectado, de tempos a tempos, para as primeiras notícias de todos os órgãos de comunicação social. Foi o que aconteceu mais uma vez com o último naufrágio de uma embarcação precária sobrelotada de imigrantes do norte de África que buscavam a paz e o bem-estar na Europa. Foi mais um naufrágio de uma longa série que se eterniza há décadas. As circunstâncias próximas concretas que ditam o desespero de quem paga uma pequena fortuna para arriscar a vida, alimentando a esperança de uma vida melhor, vão mudando ao longo dos tempos, mas a realidade que se desenrola à nossa porta é a mesma e apenas se tem vindo a agravar. Assistimos agora a mais um record no número de vidas perdidas num único naufrágio… Calcula-se que tenham morrido cerca de 850 adultos e também crianças com idades compreendidas entre os 10 e os 12 anos, desacompanhadas da família, provenientes da Gâmbia, Costa do Marfim, Serra Leoa, Bangladesh e Síria. Em 2014 já haviam morrido 3.279 pessoas; e nos primeiros meses de 2015, já morreram 1.750, o que corresponde a um valor 30 vezes superior ao registado em igual período no ano de 2014.

Por isso, esta semana não é possível deixar de destacar esta tragédia, não é possível deixar de reflectir sobre ela. Afinal, ninguém lhe terá ficado indiferente e os vinte e oito Estados membros reuniram-se para apreciar a situação e projectar acções no sentido de a irem debelando. E todavia, devo-me reconhecer bastante céptica perante a comoção e mobilização generalizadas.

Não duvido da sinceridade daqueles, muitos, que se afirmam chocados e condoídos perante esta tragédia humana, sejam eles o cidadão comum que se manifesta em família, aos amigos ou colegas, ou os muitos especialistas que têm vindo a palco nos últimos dias. Também me parece que sentimos todos a necessidade de desabafar o horror que a descrição dos factos nos causou e causa e que estamos todos genuinamente empenhados em que esta situação não se repita. Porém, tenho dificuldade em compreender o simplismo da opinião pública ao colocar todo o ónus da culpa e toda a responsabilidade da resolução na União Europeia. Tenho ainda mais dificuldade em compreender a ingenuidade dos ditos especialistas ao reclamarem o acolhimento, o cuidado e o não repatriamento de todos os imigrantes ilegais que pretendem chegar à Europa por via do Mediterrânio (e se tentarem entrar por outra fronteira…? terão as mesmas condições de acolhimento…?).

Que a situação é de emergência e que a resposta deve ser proporcional ninguém tem dúvidas. Mas, por isso mesmo, não nos podemos contentar com reacções emotivas, que apenas descansam consciências (mesmo as dos que acusam os outros de hipocrisia), ou seccionadas, que se disfarçam de solução mas atiram o problema para a frente porque não lhe tentam responder globalmente.

Culpabilizar e responsabilizar exclusivamente a Europa é esquecer em absoluto as causas do problema e, por isso, votar ao fracasso qualquer solução construída nesta base. Abrir totalmente as portas à imigração implica ter meios de plena integração das pessoas acolhidas, isto é, casa, saúde, trabalho, rendimento, etc., etc., e não atirá-los para os já demasiados (porque um já é demasiado!) guetos nas periferias das cidades. A União Europeia tem hoje cerca de 130 milhões de pobres, mais de um quinto da sua população total…

As quatro linhas de actuação anunciadas esta semana pelo Conselho Europeu parecem-me dar um passo na direcção certa, intervindo ao nível das causas e das consequências, acolhendo sem abdicar de limitar. São elas: reforçar a presença no mar, triplicando o orçamento, o que deverá minimizar o número de acidentes; combater o tráfico de pessoas na sua origem, através da identificação e destruição das suas embarcações, o que deverá reduzir o tráfico; controlar fronteiras e reforçar a cooperação com os países de origem dos imigrantes ilegais, o que deverá limitar o número de imigrantes; reforçar a solidariedade europeia, distribuindo os imigrantes ilegais por todos as Estados membros.

Mas há ainda muito caminho a fazer, mesmo que apenas seguindo estas quatro vias, pelo que receio, receamos certamente todos, que novas as tragédias humanas ocorram, de tempos a tempos, para o que permanentemente devemos ficar mobilizados.

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