40 anos depois assistimos ao fim do modelo autonómico para a Europa

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Indignados, estonteados, perplexos e incrédulos estão todos os faialenses. Os que aqui vivem, os que adotaram este pedaço de terra no meio do Atlântico, os que residem no continente português, neste caso particular os nossos estudantes, e os nossos emigrantes espalhados pelos quatro cantos do mundo, com o anúncio, na véspera da mais importante feira de turismo do país, de que a TAP deixa de voar para a Horta no próximo dia 29 de março. 

Tudo isto era previsível! Quem é que tinha dúvidas? Todos os indicadores fabricados apontavam para este desfecho.

Primeiro veio o anúncio de que o nosso aeroporto passou a Internacional com direito a placa e tudo. Depois, o dito por não dito. De seguida um pedido de desculpas do Presidente do Governo, Carlos César, em plena campanha eleitoral, pela promessa não cumprida de ampliar a pista. Depois outra promessa: “se o Governo da República não fizer, o Governo Regional faz”. Depois o investimento de 50 milhões no aeroporto do Pico. Depois a retirada da obrigação de ampliação da pista do aeroporto da Horta das obrigações de privatização da ANA. Depois a saída do Diretor do Aeroporto sem nenhuma explicação e a nomeação de um novo diretor que não reside nesta ilha e que ninguém sabe quem é. Penso que por aqui sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, também nos iam levar a TAP. 

Agora, o cenário é este: o Governo Regional não sabia de nada, a culpa é apenas do Governo da República. Os voos vão para a Terceira, a TAP deixa uma rota lucrativa, o Faial fica com a SATA e ninguém, por mais que rebole, altera nada. 

É lamentável que não nos tratem como um povo pacífico, trabalhador, honesto e com um legado para respeitar, mas que nos tratem com desrespeito, julgando que umas conversas, umas conferências de imprensa, uns comunicados chegam e que os Faialenses engolem tudo e que não saberão distinguir nos próximos atos eleitorais, a verdade da mentira. 

Temos medo de assumir a diferença entre a TAP e a SATA. Claro que não. A SATA Air Azores tem prestado a todas as ilhas um serviço público de excelência. A SATA Internacional tem prestado um mau serviço ao Faial. É verdade! Atrasos, cancelamentos frequentes, falta de informação e por isso deixa-nos legítimas e fundadas dúvidas sobre a sua operação futura, que o tempo se vai encarregar de demonstrar se estamos enganados ou não.

Esta ilha perdeu nos últimos anos mais de 1000 postos de trabalho diretor e indiretos, em apenas três coisas: COFACO, 120 postos de trabalho; Estação Rádio Naval da Horta, 350 militares; Quartel do Carmo, 300 militares, com o esvaziamento do Tribunal da Horta, com a redução do efetivo da PSP, da GNR, com a centralização das Finanças e tantas outras coisas, com a saída do Magistério Primário, com consequências duras para esta terra e com o progressivo e atual esvaziamento das Secretarias Regionais e empresas públicas do Faial. 

Quarenta anos depois, temos um regime centralista que deliberadamente coloca em causa o modelo autonómico, a coesão territorial e andamos a apregoar ao Governo da República e ao Governo Americano uma coisa, e a praticar outra nos Açores. Se assim não fosse não se afrontavam os autonomistas e em particular os faialenses com a construção de uma espécie de museu da autonomia em São Miguel, por 3 milhões de euros. Uma Vergonha!

O Faial pediu o Politécnico para substituir o Magistério Primário e teve como recompensa o anúncio da realização do Curso de Ciências do Mar em São Miguel. 

Os Faialenses queriam o aumento da pista por razões de segurança, que teve um pedido de desculpa em campanha, mas viram o investimento de 50 milhões de euros ser feito em outra ilha, deixando o Aeroporto da Horta ao abandono e à mercê da privatização, não protegida pelos nossos Governantes. 

Esta terra não queria alterar o modelo de transportes marítimos, manifestou-se mas na surdina. Uma encomenda hoje leva dois meses a chegar do Faial às Flores e mais de três meses se vem das Américas. Afinal as plataformas logísticas já funcionam e em pleno. 

Este pedaço de gente trabalhadora viu o Tribunal da Comarca da Horta, anos após ano, perder as suas competências e importância, sendo hoje necessário ir à ilha Terceira para julgar algumas causas, revelador do fim da tripolaridade e que se estende a todos os serviços do estado de uma forma ou de outra, colocando ou afundando a fundação do sistema autonómico que tão bons resultados tem dado para o equilíbrio da Região Autónoma dos Açores. 

Reconhecida mundialmente para estação baleeira no Atlântico, para sede dos cabos submarinos, entre a Europa e os EUA, para ser a primeira ilha a ter travessias regulares por companhias de aviação internacionais, como ponto obrigatório de escalas de navios de mercadorias e de passageiros que atravessavam o Atlântico, para ser capital do iatismo, o Faial perde ano após ano, o melhor Departamento de Investigação Marinha da Europa e não se criam as condições para a fundação de um pólo tecnológico de excelência, com condições adequadas para apoiar a exploração do mar profundo. Estão a criá-los em outras paragens preparando o futuro e se nada for feito a tempo deixaremos de ser a cidade mar para ser a cidade de lamentações e das causas perdidas. 

Acorde senhor Presidente da Câmara!

A TAP não volta, o nosso Hospital esvazia-se de dia para dia, o Departamento de Oceanografia e Pescas está a perder os melhores investigadores, abrem-se pólos em São Miguel e Terceira para estudar  o mar e fazem-se pólos tecnológicos, as nossas melhores empresas estão a falir, não existem obras públicas no Faial, injecta-se dinheiro no sistema produtivo nas outras ilhas, como é o caso da vinha do Pico, onde são gastos quase 3 milhões de euros anualmente mas no Faial onde está o apoio ao sistema produtivo e que impulsione as empresas. A TAP na Horta era uma esperança, pois uma vez privatizada poderia trazer mais valias, concorrência no mercado interno, com o produto do Triângulo, resta-nos a SATA Internacional e o que a História nos diz é que sempre pagamos mais que os micaelenses para nela viajar, fomos discriminados pelo peso da bagagem e sempre vimos apoiar de forma principesca foram eventos em São Miguel como é bom exemplo o SATA Rally Azores.  

A nossa autonomia e coesão territorial estão sem raízes, com propósito, onde o lema da governação é dividir para reinar, mas como não há mal que sempre perdure, resta aos faialenses a paciência de lutar e nos adaptarmos porque sempre o fizemos e com êxito. 

 

 

 

 

 

 

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