A Baía da Horta é o conjunto formado pelo porto e a cidade!

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Se a nossa baía ainda é um conjunto bonito, repare-se como o seu panorama se tem adulterado com o surgir de horrorosas edificações. Construções que a vão transformando numa amálgama de estilos e tamanhos como numa manta de retalhos, assim perdendo as características acolhedoras que lhe davam uma identidade única e agradável.   

Há muitos anos cheguei à Horta, salvo erro, no “Angra do Heroísmo” que então, na vinda de Lisboa, parava na Horta antes de ir para Ponta Delgada. Vários passageiros que assim não iam desembarcar ali, permaneciam na coberta olhando a cidade, para muitos pela primeira vez. E ouvi alguns dizerem: “Realmente é um conjunto muito bonito”. Gostei. 

Anos depois veio em visita à Horta, o meu antigo professor alemão na Escola Alemã da Horta, e que tinha sido deportado em 1943 aquando da cedência do porto aos Aliados. Vinha rever o Faial de que tinha saudades. Mas quando nos voltamos a encontrar, sacudiu a cabeça com tristeza e até sugerindo: “Porque é que a Câmara não propõe a entrega de um prémio a quem puser uma bomba debaixo daquela casa agora construída na esquina da avenida com a Rua do Mercado? Aquilo é um horror no meio das construções de frente tradicional no resto da avenida!” Pois era, mas se ninguém ali pôs uma bomba, também ninguém fez pressão para que, pelo menos a fachada e a altura fossem alteradas. Com quatro ou cinco  andares, janelas juntinhas com estores e gradeamentos, era uma verruga na “frente mar” tradicional! Mas esta construção tinha obviamente sido autorizada, e se era feia assim continua, e parece até que deu o mote para outra construção disparatada e feia na mesma avenida – um prédio com varandas longas sobrepostas “enfeitadas” com ripas como amuradas de navio. Fora também autorizada portanto, num desprezo pela estética tradicional dos edifícios da avenida. 

Nessa altura manifestei o desagrado, meu e de outros, numa carta ao Sr. Presidente da Câmara de então, e ele teve a amabilidade de responder com algumas conjeturas iniciais mas afirmando depois, que a partir do início do seu mandato, mantinha a determinação de não “colaborar com a deterioração da imagem suave e de certo modo única da cidade da Horta”. Apenas uma intenção? É que “palavras lava-as o vento” e a realidade é que as permissões de mau gosto continuam.  

Hoje a Horta apresenta um panorama confuso e sem sintonia estética, tendo até surgido quatro gigantescos “caixotes” trepando ao lado da histórica igreja do Carmo! E compare-se esta indiferença das autoridades, com o que se passou na Terceira depois do terramoto: A reconstrução fez da cidade um património histórico lindo reconhecido pela UNESCO. Mas na Horta parece nem haver a preocupação de conservar o traço tradicional nas casas novas ou reconstruidas dentro do espaço do seu panorama antigo. Porquê? Onde está a coerência e lógica de quem deve analisar as construções respeitando cuidadosamente a sua localização no CONJUNTO da cidade? Prefere-se colaborar na destruição do panorama da Horta num desprezo evidente da manutenção de uma visão agradável do mesmo? Ou será que só vale a avaliação técnica individualizada da construção e não o impacto no conjunto onde ficam inseridas? Não há critérios para não autorizar construções que contaminem a beleza suave e tradicional da cidade que se desdobra a partir do mar? A BAÍA?   

E o que se espera ou mesmo se teme ainda? É que existem na Avenida, algumas fachadas ou construções que esperam recuperação. Como serão? Será que predomina a lógica do que já se fez? É que já se vislumbra ‘escondidas´ ou não atrás de algumas árvores na Avenida, mais “originalidades” de vidro, placas de metal e de PVC! São funcionais? Modernas? Mais económicas? Etc.? Com qualquer critério e desculpas vai-se continuar a destruir o panorama tradicional da Horta?

Em passeio pelo novo molhe, fui por acaso, conversando com um visitante do Continente que manifestou apreciar a visão da avenida especialmente a zona das casas mais próximas do Terminal: tinha uma sequência de habitações simples, tons suaves, alçados diferentes mas baixos. Era uma imagem tradicional que não se encontrava em mais nenhuma das cidades dos Açores e davam um ar de serenidade, harmonia estética e de bom gosto!Infelizmente parece que os gestores das construções e reconstruções na Horta não pensam assim e que só quem visita o Faial parece ter…. o gosto pelo que é bonito e tradicional numa das BAÍAS que era e devia permanecer UMA DAS MAIS BONITAS.   

 

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