60 anos da CISA – “No Colégio passei os melhores anos da minha vida”, afirmou Fernanda Ângelo

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Tribuna das Ilhas, dando continuidade à parceria iniciada, em fevereiro com a Casa de Infância de Santo António (CISA), no âmbito dos 160 anos da Instituição, foi ao encontro a ex-professora Fernanda Ângelo.
Natural da freguesia da Fazenda, Concelho das Lajes das Flores, Fernanda Ângelo ingressou na CISA com apenas 20 anos, após ter concluído o Curso de professora na Escola do Magistério Primário na Horta.
Na instituição lecionou durante 26 anos onde diz ter passado os “melhores anos da sua vida”.

Maria Fernanda Câmara de Freitas Silva Ângelo, tem 60 anos, reside na Horta e atualmente encontra-se aposentada. Veio das Flores para o Faial, no ano de 1974 para frequentar o Curso de Professora na Escola do Magistério Primário.
De 1978 a 2004 foi docente na CISA. A ex-professora revelou ao Tribuna das Ilhas, que iniciou a sua profissão no Colégio porque interessava-lhe ficar a trabalhar no Faial.
Mal terminou o curso na Escola do Magistério Primário teve conhecimento que o colégio precisava de uma professora. “Contactei a Instituição, fui a uma entrevista e aceitaram-me”, avançou.
Na altura, Fernanda Ângelo entrou no colégio com o entusiasmo próprio de uma jovem de 20 anos em início de carreira. Carregava consigo “muitos sonhos para realizar” e o ambiente que encontrou “foi propício à sua concretização” e ao seu “crescimento profissional e pessoal”, confessou.
Além disso, trabalhar na CISA permitiu-lhe ainda realizar um dos seus desejos de criança. “Ser professora do primeiro ciclo foi tudo o que sempre quis ser desde menina”, disse, considerando que “as crianças são tudo o que há de melhor, mais belo e mais puro no mundo” e ter a possibilidade de trabalhar com elas durante a sua vida foi “uma grande felicidade” e a sua “completa realização profissional”, afirmou com nostalgia.
Apesar de já se terem passado alguns anos, Fernanda Ângelo, recorda-se como se fosse hoje, do primeiro dia em que assumiu funções na CISA referindo que “todos os que lá trabalhavam fizeram com que me sentisse em casa”, disse.
“Deram-me uma turma de segundo ano com 34 alunos, situação hoje impensável, mas que, para mim, naquela altura, não teve nada de transcendente”. “Ainda estou a vê-los todos sentados e o lugar de cada um. Eram lindos! Crianças maravilhosas, vivas, educadas, aplicadas e muito carinhosas. Fiquei encantada!!!”, reviveu com saudade, salientando que era “um grupo muito unido” que ainda hoje, alguns têm possibilidade, se encontrar com alguma frequência e com quem tem a “alegria” de conviver sempre que lhe é possível.
Depois deste grupo, que acompanhou até ao quarto ano, a docente seguiu, “muitos outros igualmente encantadores”, garantindo que recorda cada um dos seus alunos, “as suas particularidades, as suas características muito próprias, todos muito diferentes, o que fez com que cada um fosse especial e único”, dos quais diz guardar “uma grata recordação”.
Mas não é só as crianças que a docente preserva nas suas memórias. Fernanda Ângela, lembra-se também da compressão demonstrada pelos encarregados de educação que muito a acarinhavam.
“Os Encarregados e Educação daquele tempo, apesar de bem mais velhos do que eu, respeitavam e apoiavam as minhas decisões em relação aos meus métodos de ensino e à educação dos seus filhos como se tudo se tratassem de verdades absolutas”, salientou.
“Recebíamos os pais no último sábado de cada mês entre as 15:00h e as 17:00h e muitas foram as vezes que saí do colégio pelas 19:00h para conseguir atender a todos. Eram muito empenhados na aprendizagem dos seus filhos, mas não menos na sua educação que era para eles uma prioridade”, reforçou.
A professora, não hesita em afirmar que as suas “melhores recordações estão claramente ligadas” aos seus alunos e às pessoas com quem conviveu nos anos em que trabalhou na CISA.
Neste contexto, Fernanda Ângelo destacou algumas das pessoas com quem teve o prazer de conviver. “Gostaria de referir a minha colega, Noélia Pinheiro. Fomos companheiras de curso e entrámos e saímos do colégio no mesmo dia. Mantivemos sempre uma excelente relação pessoal e profissional”.
A ex-professora recorda igualmente as colegas Ana Guedes, Ana Paula Jorge, Filomena Fragoso e Maria Antónia Peixoto, afirmando que “com estas colegas vivi momentos inesquecíveis”, frisou.
Para além das colegas de trabalho, a docente realçou também a presença das Irmãs Franciscanas que na altura faziam parte da instituição. “Recordo as Irmãs Maria Alice Goulart, Fernanda Armas, Carminda Soares, Amália Cardoso e Hermínia Teixeira. Estas foram as minhas colegas de escola com quem mantive sempre ótima relação de partilha e amizade, mas muitas outras passaram pelo colégio deixando boas recordações”, considerou.
Fernanda Ângelo, deixou também “uma palavra muito especial” para duas Irmãs que foram Madres Superioras na CISA e que lá se mantiveram por mais tempo. Referindo-se às Irmãs Lúcia Fernandes e Fátima Sanches, salientou que foram “duas pessoas muito especiais, muito serenas, com uma capacidade de coordenação e de doação invulgares”, reconhecendo que foram “muito suas amigas” e que com elas aprendeu “valores para toda a vida”.
Durante os anos que lecionou no Colégio a ex-professora lidou também com diversas direções que Fernanda Ângelo recorda “pela sua amizade, disponibilidade e capacidade de doação a esta instituição”. No entanto, a que mais a marcou foi a liderada por Tomas Rocha, uma vez que era ele que presidia a Instituição nos 10 anos em que teve a seu cargo a Coordenação da escola. No entender da ex-docente, “Tomás Rocha mostrou-se sempre muito disponível para apoiar e cooperar com os meus projetos”, referiu.
De uma forma geral, a ex-docente recorda, “com saudade todos os funcionários” com quem trabalhou na CISA, considerando que “havia uma grande união entre todos sem exceção. A CISA era uma família. Ainda hoje sinto grande alegria quando me cruzo com algum deles”, revelou.
Fernanda Ângelo recorda-se também muito bem da rotina da CISA. “Nos primeiros anos trabalhávamos muitas horas para além das aulas”, disse, lembrando que “alternadamente recolhíamos os meninos nas carrinhas, tomávamos conta deles no refeitório, nos intervalos, no recreio do almoço e ao fim do dia, até todos regressarem a casa”. “Conhecíamos muito bem os nossos alunos pois passávamos o dia todo com eles e tínhamos muito tempo para conversar”, confessou.
Segundo a ex-docente “o intervalo do almoço era longo” e quase todos almoçavam no colégio. “Nos primeiros anos levavam de casa o almoço e o lanche cuidadosamente preparado pelos seus pais”. Mais tarde os almoços eram confecionados na instituição. Fernanda Ângelo, confessa que ainda hoje recorda “alguns sabores”, como o arroz de tomate, que nunca conseguiu fazer igual.
Recorda também que “as crianças ao chegar ao refeitório permaneciam em pé até que todos chegassem ao seu lugar para que, em conjunto, fosse feita uma oração de agradecimento pela refeição e para que todos comessem em conjunto. Quando a refeição terminava ninguém se levantava sem pedir autorização”, contou.
A professora, diz ainda que quando tinha livre o intervalo do almoço deslocava-se até ao Jardim de Infância. Lá havia uma sala onde se juntavam “as educadoras e as auxiliares de educação na sua hora de descanso”. Ali passavam “momentos muito agradáveis”. “Fazia-se tricot, crochet, bordados, adiantavam-se trabalhos para as crianças e conversava-se muito”, revelou.
Para Fernanda Ângelo “foram momentos únicos de diálogos intermináveis sem internet e sem telemóveis”, avançando que “com alguma frequência levávamos alternadamente um docinho para partilhar como sobremesa do almoço”.
A ex-docente tem ainda na memória as quintas feiras que antecediam o Carnaval em que faziam “autênticos banquetes!” e o mês de maio que era “intensamente” vivido na CISA. “Em cada sala de aula era feito um altarzinho a Nossa Senhora de Fátima e as crianças levavam flores que colocavam numa jarra que estava junto à sua imagem para esse efeito”. Ainda que nesse mês “uma vez por semana todas as crianças da escola iam à capela rezar uma dezena do terço e entoar cânticos a nossa Senhora”, recorda, acrescentando que “havia no colégio vários livros com a história dos pastorinhos que íamos lendo às crianças, aos poucos, cada dia, e que elas ouviam com muita atenção e curiosidade”, continuou.
Para além do mês de maio, a ex-docente avançou que o “Natal era também uma época muito vivida por todos”. Nessa altura, revelou: “construíamos presépios e altares ao Menino Jesus. Fazíamos uma representação no palco do ginásio que consistia sempre de umas peças muito bem ensaiadas e de um Auto de Natal, muitas canções e poemas onde todos participavam com a alegria de mostrar aos seus pais”.
Para Fernanda Ângelo “a hora dos ensaios era sempre muito divertida e, para as crianças, a forma de poder sair um pouco da sala de aula, onde havia muito trabalho para realizar. No final da atuação era servido um lanche aos alunos e encarregados de educação, confecionado com muito carinho e cuidado, com a colaboração dos mesmos”, contou.
“No dia do Pai, Dia da Mãe e dia de Santo António eram celebradas Eucaristias cuidadosamente organizadas. As leituras, cânticos e ofertórios estavam a cargo das crianças e eram preparadas ao pormenor. Mais tarde foi introduzida a festa do Espírito Santo e a festa de Santo António que, inicialmente se resumia à celebração da eucaristia, tomou mais tarde outra dimensão, que ainda hoje se mantém”, referiu a professora.
A ex-docente aponta a falta de recursos pedagógicos como os principais constrangimentos sentidos pela sua geração. “Nessa altura não havia computadores e a internet era uma coisa impensável. Todos os professores tinham na sala de aula um bom dicionário, todos procuravam investir numa boa enciclopédia que se consultava quando surgiam dúvidas e trocavam-se impressões com as colegas”, salientou.
A este respeito a professora aposentada lembrou que “não havia impressoras nem fotocopiadoras”. As fichas eram feitas à mão ou nas máquinas de escrever com papel químico, cerca de três de cada vez, que posteriormente eram duplicados nos copiógrafos a álcool ou nos gelatinógrafos. Segundo Fernanda Ângela este era “um processo considerado na época já muito avançado”.
A ex-professora adiantou que “no colégio havia algum material didático, mas muito era construído por nós. Tínhamos moldes de letras com diversos feitios que eram contornadas para a construção dos cartazes que fazíamos nas salas”.
“Apesar de todas essas limitações, que eram comuns a todos os professores daquela época, o colégio era um local onde acho que todos se sentiam felizes”, considerou.
No entender de Fernanda Ângelo, na altura e ainda hoje a CISA apresenta-se “como um porto seguro” a quem os pais confiam os filhos durante o dia enquanto vão trabalhar. “Era também muito importante para as pessoas que trabalhavam na ilha, mas não eram de cá, e não tinham familiares a quem confiar os filhos na hora do almoço e ao fim do dia”.
Para além destas condições, na CISA “as crianças podiam também ter a catequese, piano, outras atividades extracurriculares e estudo acompanhado, uma vez que para maioria dos pais era importante a formação religiosa e cívica”, divulgou.
Outra vantagem apontada por Fernanda Ângela para que os pais preferissem o Colégio, prendia-se com o transporte. “Muitos pais não dispunham de viatura própria e o colégio dispunha de uma carrinha com acompanhante para os ir buscar e levar a casa”, salientou.
Quanto aos principais valores, que adquiriu no seu percurso pela CISA e que ainda hoje preserva a ex-docente, não hesitou em afirmar que a solidariedade, tolerância, partilha, amizade, disponibilidade, responsabilidade e a humildade “foram sem dúvida” os princípios que adquiriu e que preserva até hoje.
Para Fernanda Ângelo falar da CISA, significa “recordar os belos tempos” em que lá trabalhou. “É falar de Amizade, Alegria, Juventude, Partilha…”, sustentou ao Tribuna das Ilhas.
Hoje a ex-docente considera-se “uma pessoa privilegiada” por ter tido a possibilidade de trabalhar na CISA naquela época da sua vida. “Agradeço a todos, aos meus alunos, aos seus pais e a todos os colegas o facto de me terem ajudado a ser lá tão feliz”, frisou.
A finalizar a nossa reportagem Fernanda Ângelo agradeceu também ao Tribuna das Ilhas o convite para esta entrevista, especialmente por esta lhe ter permitido “recordar intensamente estes bons anos passados na Casa de Infância de Santo António”, concluiu.

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