Algumas curiosidades sobre a vegetação açoriana

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A diversidade da paisagem no arquipélago açoriano inclui a vegetação endémica mas também a vegetação que desde o seu povoamento tem vindo a chegar às ilhas. A base alimentar dos primeiros povoadores era o trigo, a cevada e o centeio. No entanto, com a descoberta de outras culturas agrícolas no Novo Mundo estas foram gradualmente introduzidas na Europa mas também, e muitas vezes experimentalmente, nos arquipélagos da Macaronésia. Assim, já na década de 1580, Gaspar Frutuoso refere o cultivo de algumas culturas trazidas do continente americano como a batata, o inhame e o milho. Estas foram algumas culturas agrícolas inovadoras incorporadas na alimentação dos açorianos, outras foram a batata-doce e as frutas de árvores como as bananeiras (Musa acuminata), as anoneiras (Annona squamosa), os araçaleiros (Psidium litoralle), as goiabeiras (Psidium guajava) e os maracujás (Passiflora edulis).
A apetência destas ilhas para a cultura de plantas que aos olhos europeus se afiguravam como tropicais em detrimento de outras culturas agrícolas mais europeias conduziu à necessidade de abandonar determinados padrões, alimentares e por conseguinte culturais, e induziu a uma determinada visão “tropical” das ilhas dos Açores. Adicionalmente às culturas agrícolas inovadoras que já desde o século XVI transformavam aos olhos de todos a paisagem açoriana, alia-se no século XVIII e XIX o gosto pelo colecionismo e pela vegetação ornamental.
O colecionismo botânico foi iniciado nos Açores do século XVIII nas primeiras quintas da laranja, onde se demarcavam zonas destinadas a espécies ornamentais, cameleiras e palmeiras. As propriedades ajardinadas encontravam-se nas ilhas maiores e mais povoadas, e se de início se caracterizavam como quintas de produção com uma vocação adicional para o recreio e uma estética tardo-medieval, no século XIX começam a surgir vastos jardins e parques dedicados ao recreio.
O vale das Furnas tornou-se o primeiro destino de recreio dos Açores ainda no século XVIII seguindo-se a Lagoa das Sete Cidades. As Furnas foram amplamente transformadas durante o século XIX por diversos proprietários e uma vasta composição de paisagem romântica toma forma no vale. Este romantismo açoriano revela-se não tanto na concretização de elaborados programas simbólicos como aconteceu no continente português, especialmente na Serra de Sintra, mas sim na procura de um ideal de beleza onde a vegetação exótica pretende assumir-se como natural, integrando de modo complementar a flora endémica. Foi também durante o ciclo da laranja que se introduziram algumas espécies de plantas que se tornaram marcantes na paisagem até aos nossos dias, como o incenso (Pittosporum undulatum), e a criptoméria (Cryptomeria japonica), o primeiro para conformar abrigos para as laranjeiras e a segunda como modo de obtenção de madeira para as caixas para exportação.
Também nas plantas ornamentais de menor porte se assiste a esta tropicalização da paisagem e dos jardins a par de uma certa orientalização da paisagem que se deverá por certo às afinidades climáticas e paisagísticas dos Açores com certas zonas do Oriente, como o Japão. No século XXI os temas de reflexão dizem respeito à conciliação deste fundo cultural onde impera a diversidade de vegetação exótica com a preservação da vegetação natural e dos ecossistemas endémicos, conduzindo a uma paisagem em equilíbrio.

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