Por: Martim Quadrado
Marçano nasceu 35 anos antes da Revolução de Abril. Aos dez anos era já um exímio conhecedor das ruas de Lisboa. Não se sabe bem como, mas era também o dono de uma bola de couro. Teria sido uma oferta de um jogador de futebol do Benfica. Para o grupo de miúdos que se divertia diariamente a jogar futebol num descampado, isso pouco importava. A bola era do Marçano. A alcunha ganhou-a por fazer aquilo que fazia quase diariamente. A mãe tinha vindo da Beira Alta para servir em casa de uma família abastada. Morreu quando ele tinha oito anos. Farto de ser maltratado pelos “padrinhos”, Marçano fugiu de casa e da escola. Aos 9 anos arranjou trabalho. Acomodadas numa caixa de madeira, que apoiava num dos ombros, levava as compras a casa das clientes das mercearias para quem trabalhava. Os patrões e as freguesas sustentavam-lhe a vida com gorjetas. Ao anoitecer, sabia qual o melhor local para dormir sem ser perturbado pela polícia. Marçano era livre. Como ele havia outros com quem partilhava a sorte e a comida que arranjava. À noite, eram menos. Ficavam apenas os que não tinham casa para morar nem família para procurar. Ninguém pensava nisso. Talvez os mais pequenos. A família, agora, era aquela. As noites frias eram passadas à espera de que o dia nascesse para partilharem, no descampado, a alegria do jogo e da camaradagem.
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