A Escola mata o ser poético?

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“Às vezes, cansado de tantas oscilações, busco refúgio numa palavra que começo a amar por ela mesma.

Repousar no coração das palavras, enxergar claro na célula de uma palavra, sentir que a palavra é um germe de vida, uma aurora crescente…”

Bachelard, A poética do devaneio.

 

“Poeticamente habita o homem a terra”, escreveu o poeta alemão Holderlin. É sendo aí, habitando o mundo, que cada ser humano concreto constrói a realidade, o conhecimento, uma visão do que é e do que deseja vir-a-ser. É sendo aí, num determinado tempo histórico e num determinado espaço geográfico e cultural, que formamos as nossas ideias, delineamos os sonhos, ampliamos o pensamento, sentimos e agimos, recorrendo à linguagem, à arte transfiguradora, à tecnologia, à ciência.
Efetivamente, o conhecimento e o exercício da racionalidade crítica permitiram-nos romper com a ordem dos acontecimentos e a previsibilidade do quotidiano; projetam-nos para um horizonte de futuro. A Educação, enquanto processo de condução do ser para a expansão de si próprio, é caminho de plenitude e de liberdade. O que acontece, porém, é que o conhecimento é-nos transmitido sem o deslumbramento e a imaginação poética, no seu sentido mais profundo. Sem sabor. E, no entanto, o étimo da palavra saber, “sapere” é sabor, aroma… é algo apetecível. Mas no ambiente ressequido de sonho e de poesia do atual espaço educativo – não só na escola, mas na família e na sociedade – , o conhecimento essencial é como a semente lançada em terra ressequida; dificilmente germinará.
A escola, enquanto espaço educativo, há muito se confronta com o tecnicismo reprodutor e a morte poética dos educadores e dos educandos. Há muito que os modelos reprodutores veem docentes e discentes como peças de uma engrenagem paradoxal, que aparentemente lhes dá ferramentas de crítica, de liberdade e de autonomia criativa, mas que, na realidade, escraviza, aliena, desumaniza. No sentido em que não promove a plenitude das faculdades humanas – a cognição profunda do ser que se é, a sensibilidade estética, as emoções, a imaginação. Mas também a consciência antiquíssima do ser aí, singular, enquanto membro de uma espécie biológica que vingou num planeta (neste momento ameaçado) e num sistema planetário. Esta consciência de que somos todos partículas de poeira cósmica. Potencial-mente, tudo. E nada.
A sociedade contemporânea está a ficar cega e surda pelo excesso de estímulos visuais e pelo ruído produzido pelos media e redes sociais, consequentemente está a perder não só a visão poética do mundo e a deixar de escutar as vozes dos que sofrem e dos oprimidos, mas o sentido do habitar, em diálogo com todas as outras formas de vida, assumindo a tolerância, a solidariedade e a responsabilidade face a si mesmo e aos outros como um imperativo ético. É por essa razão, que este tempo reclama políticas educativas e educadores capazes de percorrer caminhos de abertura ao sonho, à “imaginação murmurante”, de propor práticas que vão infinitamente além da reprodução de matérias curriculares, porque alicerçam numa visão poética e profunda do ser em evolução permanente.
“Conhecer o humano não é separá-lo do Universo, mas situá-lo nele”, afirma o filósofo Edgar Morin. Conhecer, em geral, não é divorciar o humano da Natureza, a que pertence. É situá-lo um horizonte de futuro viável. É dar-lhe ferramentas para erigir sentidos, através da arte – a literatura, a poesia, o cinema – da filosofia. É promover contextos de autodescoberta. É aprofundar sentidos. É agir com base numa ética da compreensão, assente em princípios e em valores de compromisso com a dignidade humana, neste tempo de incompreensão e de intolerância generalizadas.

 

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