
A espiritualidade franciscana acompanhou, desde o descobrimento das ilhas açorianas, a vida religiosa e cultural dos primeiros povoadores. A sua notável influência – que sofreu um rude e definitivo abalo com a extinção das ordens religiosas em 1834 – manifestou-se não só na evangelização (oratória e confissão), mas também no ensino e, para o que aqui nos interessa, na edificação de conventos e igrejas. No decurso do século XVI a Ordem de S. Francisco instalou-se em quatro ilhas, nelas construindo sete conventos: um em Santa Maria, três em S. Miguel, dois na Terceira e um no Faial. Mais tarde alargaria a sua acção missionária a todas as ilhas, edificando conventos em todas elas, excepto no Corvo.
Os primeiros membros daquela congregação religiosa vieram para o Faial nos começos do século XVI e, até à construção definitiva da actual igreja e do convento que lhe ficava anexo, estabeleceram-se em outros edifícios – na “Lomba dos Frades” (Praia do Almoxarife), na “Cova dos Frades” (Angústias) e na “Pedra dos Frades” (Matriz) – todos destruídos por tempestades ou pela fúria incendiária dos corsários ingleses.
A última das vicissitudes porque passaram os franciscanos foi a provocada pelo temporal de 1669, obrigando a nova edificação começada em 1696 e terminada em 1700. Precisamente a 12 de Novembro desse ano procedeu-se à consagração do templo hoje existente e do convento anexo. Estes imóveis estiveram ao serviço da congregação franciscana e da comunidade faialense, até que por haverem sido extintas as ordens religiosas em 1834, passaram a propriedade do Estado que, no ano seguinte, os cedeu à Santa Casa da Misericórdia da Horta que ali estabeleceu o Hospital e o Asilo da Mendicidade. Um enorme incêndio destruiu por completo o convento no dia 4 de Maio de 1899, deixando sem tecto aquelas duas instituições de saúde e de beneficência. Por sorte e pelo denodado esforço dos homens que combateram o incêndio, a igreja escapou à fúria das chamas devastadoras.
Classificada como “Imóvel de Interesse Público” pelo decreto-lei nº 42007 de 6 de Dezembro de 1958, este belo templo constitui, conjuntamente com as igrejas do Carmo e da Matriz, o mais notável e rico património religioso do Faial.
Consagrado a Nossa Senhora do Rosário, é um edifício de apreciáveis proporções, com três naves separadas por robustas colunas 1. O seu interior é surpreendente, com os altares em talha dourada, madeiras exóticas, telas e azulejos. “As naves estão separadas por arcos de volta perfeita apoiados em pilares de secção quadrangular. Há três altares em cada parede lateral. Existe um coro alto por cima da porta de entrada (…) A capela-mor é ladeada por capelas colaterais, de menor dimensão, com arcos de volta perfeita a separá-las das naves (…) Todas as capelas da cabeceira são revestidas interiormente com painéis de azulejos figurativos da primeira metade do século XVIII. As superfícies remanescentes e os retábulos são em talha dourada. A parte superior da parede da capela-mor e as abóbodas da capela-mor e da colateral da epístola são revestidas por telas emolduradas pela talha. No interior da capela do lado do evangelho existe uma porta de comunicação para a sacristia, que constitui um corpo paralelo ao corpo da capela-mor. No interior da capela do lado da epístola existe uma comunicação com a capela de São Francisco em cuja cabeceira se encontra um retábulo de talha dourada que simula uma pequena capela-mor ladeada por dois nichos” 2.
Esta bonita e valiosa igreja, cedida a título precário em 4 de Julho de 1977 ao Governo Regional dos Açores pela sua proprietária, a Santa Casa da Misericórdia da Horta, “sem alienação de qualquer parcela de bens patrimoniais”, está encerrada e a aguardar que o executivo açoriano cumpra aquilo a que se obrigou, ou seja, “a conservação, reintegração e restauro do referido templo” 3. Fechada ao público e em contínua degradação, está a perder-se uma riqueza artística de incalculável valor. É que o património arquitectónico faialense – e também açoriano! – está desde há anos, bastante amputado, já que se encontram mais ou menos abandonados dois dos seus edifícios mais valiosos: as igrejas do Carmo e de São Francisco.
1 Vd. Barreira, César Gabriel – “Um Olhar sobre a cidade da Horta” , NCH, 1995, pp. 120-122
2 Ficha nº 176 Horta Faial do “Inventário do património Imóvel dos Açores”, Angra 2003, pp. 277-278
3 Na edição nº371, de 3 Julho 2009, p.12, publiquei na íntegra o mencionado “Auto de cedência a título precário”
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)












