“A investigação e a escrita são um passatempo, não me trazem proveitos materiais, mas sim o gosto em aprender e em divulgar” revela Fernando Faria

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TI/SG

Fernando Faria Ribeiro nasceu em 1944, na freguesia de Castelo Branco. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, já depois de ter obtido o diploma de professor primário.

Professor, político e jornalista, é com a História e a investigação que preenche grande parte dos seus dias.

A sua paixão pela escrita, sobretudo sobre a História contemporânea, começou muito cedo. No entanto, a História dos Açores, principalmente do Faial e Pico, nos séculos XIX e XX, é aquela que mais interesse lhe desperta e com que se identifica enquanto escritor.

Com várias obras publicadas, o investigador lançou este mês mais um livro, desta feita dedicado à aviação no Faial.

Tribuna das Ilhas foi ao encontro do historiador naquela que é a sua “segunda casa”: a Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Horta.

 

Desde muito novo que Fernando Faria descobriu o gosto pela escrita. O interesse pela história e pelo passado, levou o professor primário a licenciar-se em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Motivado pela sua profissão, ao longo das últimas décadas, o professor tem dedicado grande parte do seu tempo à história contemporânea, nomeadamente das ilhas do Faial/Pico, entre os séculos XIX e XX, deixando registada a sua investigação, nos jornais locais e em várias obras que já publicou.

O escritor revela à nossa reportagem que “o curso proporcionou-me este gosto pelo passado, pela investigação e pela divulgação daquilo que investigava”. “Sempre gostei muito de história e a investigação veio por acréscimo”, afirma.

As “circunstâncias provocadas pelo 25 de Abril”, levou-o até à política. Durante muitos anos esteve a “tempo inteiro” dedicado a esta atividade, por isso, só depois de deixar a política é que se entregou “mais à investigação”, avança.

Fernando Faria confessa que também a condição de aposentado lhe permite dedicar-se mais a esta sua paixão. “Agora tenho mais disponibilidade, pelo menos mais do que a que tinha antes”, por isso tem “investigado imenso sobre estas duas ilhas e sobre a história de Portugal”, adianta.

A este respeito o escritor revela que também o tempo em que esteve ligado aos jornais, como diretor e colaborador, reforçou o seu gosto pela investigação e permitiu trazer até ao público o seu trabalho. No entanto sustenta que a divulgação dos seus estudos é o que de momento mais lhe custa.

“Da publicação de artigos nos jornais sobre a História do Faial, no Correio da Horta, foram dois anos diariamente, mais 10 no Tribuna das Ilhas, portanto 12 anos. Já é muito tempo”. “Passados tantos anos a mim já me cansa e se calhar já cansa os leitores”, frisa.

Quanto ao facto de escolher a história e nomeadamente a história destas duas ilhas, o investigador salienta que quando tirou o curso “não se estudava quase nada de história contemporânea devido ao regime da época e à censura”. Esta condição levou-o a interessar-se pela “história açoriana principalmente a mais ligada às ilhas do Canal Faial e Pico”.

“Quando comecei, o passado da nossa terra era pouco conhecido e esse passado muitas vezes dá-nos lições para o presente e perspetiva-nos o futuro”, pelo que considera que “o gosto que tenho e o interesse que algumas pessoas manifestam pelo que eu divulgo, levou-me a continuar esta atividade”, afirma.

O professor vê esta sua paixão como um “passatempo”, que não lhe “traz proveitos materiais”, mas sim “o gosto em aprender”, porque “quando investigamos estamos a aprender e a divulgar alguma coisa daquilo que vamos conhecendo”, considera.

O escritor confessa que este hobby o mantém muito ocupado. Entre a família, os netos e a atividade de professor na Universidade Sénior que exerceu, pouco ou nenhum tempo lhe resta.

O autor tem saudades do tempo em que dava aulas na UniSénior e acredita que o facto de abordar temas da história local tornava as suas lições mais apelativas aos alunos. “Como esta atividade é à tarde já não tenho possibilidades, mas gostava muito e penso que as pessoas – os seniores que lá iam – também gostavam porque estas diziam-lhes respeito. As aulas estavam relacionadas com muitas coisas da ilha do Faial, do Pico, dos Açores e de Portugal que eles não conheciam”, sustenta.

Fernando Faria reconhece que nos últimos tempos já se tem escrito mais sobre este período da história, mas quando começou não havia muita investigação sobre este tema. “Ultimamente é que se tem escrito bastante sobre este período, até já há teses de mestrado e doutoramento sobre estas ilhas. Quando comecei pouco mais existia do que os Anais do Município da Horta e a História das Quatro Ilhas, que normalmente estão esgotados, e pouco se sabia da nossa vida, da nossa gente e do nosso passado”, refere.

De acordo com o faialense esta sua investigação pode servir de registo para as gerações futuras. “Gosto de investigar o passado, ligá-lo ao presente e, claro, deixá-lo publicado”.

Neste sentido, considera que deixa “alguma coisa que alguém no futuro poderá utilizar, como eu hoje utilizo os documentos que estão no arquivo da Horta e nos jornais e outros meios impressos aos quais recorro, e que muito nos ajudam a perceber como foi a nossa vida antigamente”, avança.

Quanto a obras, diz que para além dos artigos que já publicou, tem editados três livros. “Só no Tribuna das Ilhas são mais de 250 artigos”, refere, acrescentando que, “dei colaboração em três ou quatro boletins do Núcleo Cultural da Horta (NCH)” e  coordenei, com o Dr. Jorge Costa Pereira, duas brochuras editadas pela Junta de Freguesia da Matriz, uma, em 2007 “quando esta fez homenagem ao Duque d‘Ávila e instituiu o Dia da Freguesia” e outra, em 2010, intitulada “No Centenário da República: recordar o faialense Manuel de Arriaga”.

Em 2007 e por iniciativa do Núcleo Cultural da Horta publicou a obra em “Em Dias Passados” que reúne as crónicas que diariamente e durante um ano saíram no “Correio da Horta”; em 2012 editou um livro sobre o centenário da filarmónica da sua freguesia natal intitulado “Nos cem anos da Filarmónica Euterpe da Freguesia de Castelo Branco” e agora o último trabalho, que também é composto por artigos publicados no “Tribuna das Ilhas”, “para assinalar os 75 anos da Pan American nos Açores e que depois alguns amigos, entusiastas da aviação e amantes da nossa terra, acharam que, depois de devidamente enriquecido com excelentes e raras fotografias teria interesse em ser publicado. E foi isso que aconteceu”, adianta.

Quanto ao tema desta sua última obra “O Faial e a Aviação – dos primórdios até à chegada da TAP em 1985”, o autor afirma que “melhor do que falar a Nota Introdutória do livro explica o motivo”.

De acordo com Fernando Faria “os artigos nasceram e foram publicados em 2014, para assinalar os 75 anos da passagem dos aviões da Pan American pela baía da Horta, por aquele que, afinal, o foi o nosso primeiro aeroporto e igualmente o primeiro dos Açores.

O escritor esclarece que a obra começa “exactamente com a passagem do avião que amarou na Horta em 1919 e depois a partir daí todos aqueles factos mais importantes que se relacionavam com o Aeroporto da Horta”.

O investigador revela que 1919, sendo início da aviação nas nossas ilhas, é um ano depois do fim da I Guerra Mundial, a qual a par das muitas tragédias que provocou permitiu um franco desenvolvimento da aeronáutica”.

Neste livro o autor faz ainda questão de registar a importância que o Faial teve na aviação por isso documentou todos os acontecimentos até à inauguração do Aeroporto da Horta.

A este respeito o autor sustenta que “sempre foi uma aspiração dos faialenses e das autoridades, comprovada pelos documentos do Governo Civil do Distrito da Horta, em construir aqui um Aeroporto terrestre”. O investigador dá a conhecer que na altura “houve promessas várias que nunca foram cumpridas até que na década de 50/60 o governador Dr. Freitas Pimentel que durante 20 anos aqui exerceu funções e que foi uma pessoa importante no desenvolvimento desta terra se interessou por este assunto e como tinha boas relações com o ministro das Obras Públicas, finalmente em 1971 foi inaugurado o Aeroporto que existe atualmente”.

Fernando Faria assistiu a esse momento era ainda “um jovem” e regista que os jornais da época “referem que estiveram lá entre 8 a 10 mil pessoas, não sei bem quantas, mas estiveram lá milhares; lembro-me perfeitamente disso”.

O escritor, recorda ainda que, enquanto político e diretor do “Correio da Horta”, quando a TAP, em 1983, comprou um novo tipo de avião de médio curso “convidou todos os diretores dos meios de comunicação da Madeira e dos Açores e alguns elementos da TAP para irem à Boeing , na cidade de Seatle, nos Estados Unidos”.

Nessa altura a TAP adquiriu sete aviões, “os Boeings 737-200 Adv. E quando os recebeu, era eu um dos portugueses que estava lá”. Na ocasião, avança “o diretor do projeto explicou que as potencialidades dos aviões permitiam aterrar em pistas de 1400 metros”. Esta revelação despertou a atenção de Fernando Faria que “em jeito de brincadeira”, afirmou: “já arranjei mais um aeroporto para a TAP utilizar”.

Fernando Faria, adianta que “na altura nós não tínhamos ligações a não ser com a SATA interilhas”. Então, após o regresso, falou sobre isso com várias entidades, nomeadamente com o Secretário Regional dos Transportes e Turismo, Alberto Madruga da Costa. “Fomos desenvolvendo essa possibilidade. Depois a comunicação social, as forças vivas da ilha e todos os políticos, independentemente de partidos, se interessaram pela questão. Aconteceu que poucos meses depois o presidente da TAP veio cá de visita com os seus técnicos e foi-lhe posta a questão”, tendo ele afiançado que, se tecnicamente fosse viável, a TAP viria à Horta. O processo foi avançando e, ultrapassada toda a “barreira logística, dois anos depois esta transportadora aérea começou a viajar para a Horta”, revela. Foi a 4 de Julho de 1985.

O Aeroporto da Horta, tem estado na ordem do dia da vida dos faialenses e é com tristeza que o autor observa que anos depois o Aeroporto da Horta esteja a perder a sua importância e “se debata com o aumento da pista e com todos os problemas que nos últimos tempos sobre ele recaem”.

“Na nota introdutória refiro mesmo qual o motivo de fazer este livro. Há um desejo uma necessidade premente de se resolver este problema”, reforça Fernando Faria, lembrando que “esta zona foi a primeira e durante muitas anos a única a ter ligações com o exterior”.

O autor considera que “já se fez o Aeroporto, fizeram esse investimento, agora não se pode perder, ainda mais numa altura em que se vive para melhor responder às necessidades da nossa gente e do crescimento turístico”.

A partir desta obra Fernando Faria quis “associar-se a esse bom combate dos faialenses, que só acabará quando as acessibilidades aeroportuárias estiverem resolvidas”, sustenta.

Entretitulo – Mais de doze anos dedicados à investigação da história do Canal

Escrever sobre história requer muita investigação, muito tempo e dedicação, por isso o escritor divide o seu tempo entre a família e aquilo que mais gosta de fazer.

Neste sentido confessa que primeiro dedica-se à sua vida familiar, ajuda as suas filhas, com os netos e só depois aquilo que mais gosta de fazer. “Vou gerindo o meu tempo, como não tenho obrigações nenhumas quanto a publicações, estas surgem se surgirem. Só tenho a obrigação quinzenal com o “Tribuna das Ilhas”, mas isso um dia terminará”, frisa.

Questionado se tivesse que traduzir as horas que passa a fazer investigação em anos, quantos anos seriam, Fernando Faria, não consegue quantificar.

“Não faço ideia. São muitos anos”, afirma, sustentando que “nós não contabilizamos aquilo que fazemos com gosto. Mas pelo menos uns doze”, revela com ironia!

Sobre qual a obra que lhe deu mais prazer escrever refere que “todos elas me deram prazer e também exigiram algum sacrifício e algum trabalho”.

Fernando Faria defende que “escrever uma opinião sobre um assunto é fácil, mas para ser preciso ou correcto a dar informação sobre acontecimentos passados é preciso ter os elementos e isso dá trabalho”. O autor avança também, que quando publica uma obra não gosta logo de a ler, mas mais tarde quando vai consultar sente “algum gosto” nalgumas coisas que escreveu.

No que se refere aos temas, esclarece que na altura do “Correio da Horta” se propôs a fazer uma secção “Em Dias Passados”, que depois deu origem ao livro com o mesmo nome que consistia “numa espécie de breviário que, em todos os dias do ano, desde o 1 de janeiro a 31 de dezembro, assinalasse um acontecimento, falasse sobre uma pessoa importante ou historiasse uma instituição”. “Portanto, só não saíram 365 edições, saíram 250 porque o Correio da Horta aos sábados, domingos e feriados não se publicava. Mas a ideia era ter sido 365”, afirma.

Por norma o autor reconhece que pensa num acontecimento e depois pesquisa toda a informação que existe sobre o assunto. Exemplo mais concreto é a sua obra sobre o centenário da República que publicou em 2010. Peguei nesse tema genérico e fui publicando o que foi a República no Faial, no Pico e nos Açores, as pessoas que nela estiveram envolvidas, desde o 1º Presidente da República. Fiz vários artigos sobre o Dr. Manuel de Arriaga, até aos primeiros deputados, primeiros governadores civis, toda essa envolvência e como é que foi a vida e as esperanças que a República trouxe e depois as desilusões que ela provocou”, clarifica.

Também o tema dos governadores civis nos Açores, surgiu da mesma forma. “Publiquei todos os governadores civis que existiram aqui no ex-distrito da Horta, os principais acontecimentos que houve nos seus mandatos”. Segundo o nosso interlocutor “poderá dar um livro, sobre a vida deles; são algumas dezenas, se calhar mais de cem”.

Outros temas relacionam-se, segundo o historiador, sobre “pessoas que eu conheço e conheci os seus antepassados e faço uma espécie de genealogia de algumas famílias que considero que foram importantes na vida destas duas ilhas, desta comunidade do canal. Porque o Faial e Pico sempre estiveram muito ligados, estiveram e estão”, defende.

Durante vários anos o faialense exerceu as funções de diretor do diário Correio da Horta. Esta atividade enraizou ainda mais nele o gosto pela escrita e influenciou o seu modo de escrever.

Para Fernando Faria, “um jornalista/diretor tem de escrever artigos de opinião na altura. Hoje há muitos artigos de opinião que escrevi e me arrependo de os ter escrito porque foram fruto da época”.

Recorrendo a um filósofo famoso espanhol, “o homem é ele e a sua circunstância”, o jornalista justifica ainda que “o ambiente molda-nos, e naquela altura havia problemas muito graves e, claro, os escritos revelam todos esses problemas. E nós tínhamos de lutar por ideias”.

Quanto aos projetos e à publicação de novas obras, Fernando Faria revela que vai continuar com as publicações quinzenais neste semanário e que tem um novo livro preparado no qual não está a trabalhar “porque faltam uns elementos”, mas é possível que venha a publicar mais alguma coisa “se tiver vida e saúde”, salienta.

Relativamente a apoios o escritor avança que o seu primeiro livro surgiu por iniciativa do NCH pelo que “não ganhei nada, mas também não gastei”, o único investimento “foi o tempo na investigação e depois na revisão e paginação, mas as despesas da edição foram por conta do NCH que também se teve algum lucro com o livro, ele está esgotado, até porque é um livro fácil de ler”.

Esta sua nova edição foi da responsabilidade da “Gráfica O Telegrapho”. Também o livro da filarmónica esteve a cargo daquela instituição. “Eu não tenho edições publicadas por mim, se o faço é porque alguém sugere ou pede”, frisa.

Questionado sobre como se considera enquanto escritor/historiador, Fernando Faria, afirma: “considero-me um amante do passado e da minha terra e daquilo que acho que é importante o que a história nos traz, que é conhecendo o que foi e o que aconteceu, mais facilmente percebo o que é e prevejo ou pelo menos tento antecipar algumas coisas futuras. Porque a história é isso, é passado, ajuda-nos muito bem a perceber o presente e a perspetivar o que vem a seguir, embora a história não se repita”, diz.

Entretitulo: A realidade da escrita na atualidade e nos Açores

O Tribuna das Ilhas instou Fernando Faria a pronunciar-se sobre a realidade da escrita na atualidade e nos Açores.

O autor vê com alguma preocupação o futuro dos livros. Para o escritor “hoje em dia existem muitas edições”. No seu entender com as “novas tecnologias a escrita está a ficar muito digitalizada e o papel está a desaparecer. Os jornais vão morrendo e os livros vão-se editando mas desconfio que sejam lidos, ou seja, não sei se toda a gente que adquire um livro depois o lê integralmente”. Segundo o autor esta situação até “parece um paradoxo”, se por um lado há mais livros, por outro lado não se lê tanto, considera. “Antigamente era muito difícil editar um livro, não havia possibilidades técnicas e financeiras. Hoje tudo é mais fácil e portanto há muitas edições e muito bons escritores nos Açores”, entende.

Por outro lado o investigador defende que os jovens deviam ler mais e que a leitura faz muita falta a esta faixa etária.

De acordo com o professor os jovens “tecnicamente são umas máquinas, trabalham com todos os aparelhos informáticos disponíveis mas não gostam de ler”. E isto porque “as motivações dos jovens são diferentes, talvez o ensino e a escolaridade também precisem de ser alterados nalgumas coisas”, salienta, reforçando que “não vou estar a julgar os jovens até porque há jovens com grandes capacidades”.

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