à Lúcia e ao Gui – Dois anos sem o Sérgio

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Horta, 11/09/2014

Sérgio Luís, meu irmão

Dois anos após a tua partida, nós por cá estamos todos pessimamente bem… Andamos para aqui, pachorrentos e insulados, pitorescos e digestivos, constitucionais e estatutários, com a boca a saber a lima azeda, e cansados de tanto ócio. Cá vamos cantando o Faial das faias, o Pico das canas e o picão do nosso destino picado… Só a montanha à nossa frente é que continua infinitamente bela.

De resto o nosso país continua pantanoso e transformou-se num fado triste de compadrio e corrupção – um país onde até a esperança paga imposto. Nada que já não tivesses previsto nas peças que escreveste para o nosso “Carrocel”.

Andamos para aqui, em nebulosa lembrança, carpindo saudades tuas. As coisas que deixaram de ser vistas pelos teus olhos e os objetos que as tuas mãos deixaram de tocar continuam, intactos, na tua casa. A tua guitarra está emudecida, e os teus livros, os teus discos, os teus filmes, os teus posters, as tuas músicas e as tuas letras aguardam o teu regresso.

Por isso fazes falta, fazes-nos falta. E era justo que estivesses aqui a zombar de tudo isto: a irritar o nosso comodismo, a denunciar a hipocrisia de alguns políticos, a sacanear os pequeno-burgueses, tu que sempre foste inteiro e insubmisso, controverso e arrebatado. Sentimos a falta da tua coragem, da tua irreverência, do teu pessimismo e do teu jeito de ser libertino. A falta das tuas crispações e das tuas heresias, da tua insolência e do teu desassossego, do teu cinismo perverso, da tua ousadia despudorada, do teu comportamento imprevisível, da tua cruel sinceridade, das tuas atitudes desconcertantes, da tua incorrigível obstinação, da tua risada profana, da tua satânica ternura, dos teus sonhos quixotescos, das tuas apoquentações, das tuas borbulhas em vésperas de estreia teatral, da tua generosa amizade, isto é, do teu insustentável talento. 

Chorámos-te em afluentes de mágoa quando nos deixaste agarrado a um poema de Brel, e por ti sentimos uma intensa dor que não morre. No silêncio denso das nossas vidas, vamos refazendo a teia dos dias incertos. E olhando as águas do mar que te acolheram, eu sei que para sempre guardarei o teu retrato no fundo do meu espelho. 

 

                         Um abraço de mar     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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