A SATA, A AUTONOMIA E O FUTURO

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1. Na minha última crónica apresentei um conjunto de preocupantes conclusões tiradas pelo Tribunal de Contas após a Auditoria que realizou às contas da SATA.
E, que eu saiba, aquele Tribunal não é um partido da Oposição. É uma instituição independente e isenta. As suas conclusões são, por isso, passíveis de todo crédito e atenção.
Quando aquele Tribunal diz coisas tão profundamente preocupantes como os membros do Conselho de Administração da SATA desconhecerem “o fundamento das decisões estratégicas tomadas entre 2009 e 2013”, pouco se pode dizer de mais grave sobre a sua competência. No fundo, o que o Tribunal de Contas afirma é que a SATA decidiu operar num conjunto de rotas altamente deficitárias e o seu Conselho de Administração não sabe porquê, nem sabe explicar porque tomou tal decisão.
2. O mistério foi, depois, esclarecido, imaginem por quem – Vasco Cordeiro, o Secretário Regional que tutelava a SATA.
Explicou o agora Presidente do Governo, que na altura foram dadas “instruções à SATA para efetuar ligações aéreas deficitárias com o objetivo de impedir que a crise no turismo açoriano tivesse maior dimensão”. “Foi por causa da SATA que há hotéis, restaurantes e empresas de rent-a-car abertos e foram salvos muitos postos de trabalho”, afirmou Vasco Cordeiro.
Em conclusão, e no fundo, o que Vasco Cordeiro quis explicar foi que colocou a SATA no precipício e no caos financeiro para salvar hotéis, restaurantes e rent-a-cars dos Açores, e respetivos funcionários…
3. A gravidade destas justificações praticamente passou sem comentário nem análise nesta nossa sociedade açoriana cada vez mais alheada e amorfa.
E a gravidade está, desde logo, no significado imediato das declarações de Vasco Cordeiro: a confissão de que a ingerência e as ordens diretas que o Governo dá à SATA atingem uma dimensão tal que nem os Administradores da empresa as sabem justificar nem explicar os seus fundamentos!
Depois, são afirmações graves porque, na prática, significam que Vasco Cordeiro escolheu afundar económica e financeiramente a SATA, uma empresa regional estratégica e essencial a todas as ilhas dos Açores, a troco da eventual sobrevivência de hotéis, restaurantes e rent-a-cars.
Mais: Vasco Cordeiro escolheu “salvar” emprego privado (do qual não é responsável direto) e “ameaçar” emprego público (do qual é diretamente responsável)!
4. Mas as justificações de Vasco Cordeiro são ainda profundamente preocupantes porque são bem reveladoras sobre o entendimento que existe hoje no poder político instituído sobre o que é essa realidade social e política que se chama Açores.
Com efeito, Vasco Cordeiro (e a grande maioria dos políticos atuais) teima em usar o coletivo “Açores” para servir de chapéu protetor a decisões que nada tem a ver com a realidade das nossas nove ilhas. Aliás, cada vez mais, e com tristeza, vemos esse coletivo que nos devia unir na diversidade, ser capturado por interesses particulares e por uma visão distorcida do que é a nossa realidade múltipla.
Com efeito, quando Vasco Cordeiro afirma que usou a SATA para salvar o Turismo nos Açores e que foi por causa da SATA que há hotéis, restaurantes e empresas de rent-a-car abertos e que foram salvos muitos postos de trabalho, naturalmente e com propriedade, ele não se refere aos Açores – refere-se quase exclusivamente a uma ilha e, se quisermos ser simpáticos, pontualmente, a duas ilhas das nove que compõem a nossa Região.
5. E a questão é mesmo essa: justifica-se, tem sentido, é aceitável, hipotecar-se uma empresa estratégica e essencial para a nossa Região, como a SATA, que é o garante das nossas ligações internas e externas, a troco da sobrevivência pontual de hotéis, restaurantes e rent-a-cars de quase só uma ilha dos Açores?
É que nem sequer preocupação houve do Governo em possibilitar que esse eventual fluxo que viria dessas novas rotas fosse distribuído pelas demais ilhas dos Açores.
Mais: não é a primeira vez que dinheiros públicos avantajadíssimos são usados em transportar turistas para encher hotéis numa ilha dos Açores, esquecendo-se sempre a possibilidade da sua redistribuição interna – quem não se recorda, no passado recente, das operações “charter” com os países nórdicos?
6. A minha leitura desta e de muitas outras opções governativas destas últimas décadas, infelizmente, só me tem feito reforçar a ideia de que se desistiu de conciliar a realidade “ilha” com a realidade “região”, o crescimento rápido de uns com o direito ao crescimento dos outros, as realidades demográficas e estatísticas com a dimensão humana e social do desenvolvimento.
Também por causa disso, a nossa Autonomia está a perder a sua alma, está a perder as pessoas e é cada vez menos um desígnio que une todos os Açorianos. Porque esta Autonomia só terá futuro enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça e equidade.
Não nos esqueçamos nunca que a História nos ensina que houve ilhas dos Açores que, quando tiveram de escolher entre centralismos, não escolheram o mais próximo…

07.03.2016

 

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