A sede da nova empresa regional de transporte de passageiros

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1. Andam alguns plumitivos muito preocupados com a possibilidade da empresa que resultar da fusão da Atlânticoline com a Transmaçor vir a ter a sua sede na cidade da Horta.
Que não, dizem eles, isso não pode ser. E não se coíbem de escrever pérolas como estas: quem defende que a sede deve ser na Horta “está a lutar pela sua sobrevivência política e não pelos interesses económicos e políticos dos Açores.” Mais: se a sede da nova empresa vier para a Horta, então “porque é que a sede da ANA não vai para o Porto, a sede da TAP para Faro e a da CP para Trás-os-Montes?” 
 
2. Estes plumitivos que não querem que a sede da nova empresa de transporte marítimo de passageiros seja na Horta, o que defendem, em alternativa?
Obviamente, mais do mesmo. Isto é, entendem que a sede da nova empresa deve continuar em S. Miguel, onde está a da Atlânticoline (que, aliás, foi retirada à socapa da Horta!…).
E que razões apresentam para que a sede da nova empresa a constituir permaneça em Ponta Delgada?
Essencialmente, as razões apresentadas são as seguintes: a) Ponta Delgada é o principal porto comercial dos Açores e movimenta cerca de 60% da carga marítima que vem para a Região; b) a Transmaçor está em situação de falência técnica; c) a nova empresa deve assumir-se como uma autêntica empresa regional, com recursos técnicos e humanos capazes de cumprir com esse objetivo; d) os interesses políticos não se devem sobrepor aos interesses económicos e aos critérios racionais.
 
3. Como se verifica, a argumentação atrás apresentada é verdadeiramente confrangedora e até nem vale a pena perder muitas energias em desmontá-la. Mas impõe-se, pelo menos, dizer o seguinte: 
a) A nova empresa irá dedicar-se, maioritariamente, ao transporte marítimo de passageiros, o que é uma coisa bem diversa do transporte de mercadorias. E nada mais natural do que ela ter a sua sede (até pelo mesmo tipo de raciocínio de quem invoca a dominância de Ponta Delgada no movimento de cargas) na cidade da zona da Região (as ilhas do Triângulo) que movimenta cerca 450 mil dos 500 mil passageiros por ano que circulam nos Açores. Ora, movimentar 90% do total dos passageiros dos Açores, parece ser uma razão bem melhor, bem mais fundamentada e bem mais racional para o fim em causa, do que movimentar 60% das cargas dos Açores!
b) Bem vistas as coisas, e reportando-nos a 2012, a Transmaçor até teve resultados positivos, que foram, depois, diluídos, na consolidação de contas com a Atlânticoline. Mas, invocar-se a situação financeira da Transmaçor neste contexto (fazendo subliminarmente passar uma ideia de contraposição com a situação da Atlânticoline), faz lembrar aquele provérbio “Diz o roto ao nu: porque não te vestes tu?”: então a Transmaçor, sedeada na Horta, está em situação de falência técnica? E como está a Atlânticoline, sedeada em Ponta Delgada, que nem factura o suficiente para pagar o combustível que consome?
c) Ficamos a saber que, de acordo com o pressuposto defendido, só é possível ter-se empresas com dimensão regional em S. Miguel. E também ficamos a saber que só lá é que há recursos técnicos e humanos capazes para esse fim. Discordamos. Porque se assim fosse, estava bem na hora de fechar as outras oito ilhas destes Açores.
d) A política é o governo dos Estados. E os “interesses políticos” devem ser os interesses coletivos. Que são mais largos e mais amplos que os “interesses económicos”. E são, pelo menos, tão racionais, como quaisquer outros. No dia em que a governação dos Açores se fizer de calculadora numa mão e de rácios noutra, estamos prontos para encomendar o funeral desta Autonomia Regional.
 
4. Que seja do meu conhecimento, a primeira vez que publicamente se defendeu que a Horta devia ser a sede da nova empresa, remonta ao dia 1 de fevereiro, no “Jornal do Pico”, onde o deputado Lizuarte Machado referiu, e bem, que “é a Transmaçor quem tem movimento real e permanente de passageiros, enquanto a Atlânticoline tem, embora importante, um movimento residual e sazonal, limitado à gestão de dois contratos anuais, pelo que seria um erro histórico imperdoável que a nova empresa, resultante da fusão destas duas, não ficasse sediada na Horta.”
No dia 8 desse mesmo mês, nestas páginas, apoiei a proposta de Lizuarte Machado e defendi que “a questão da localização da sede da nova empresa (…) não é uma questão irrelevante. Deve ser uma reivindicação destas ilhas e dos seus dirigentes. (…) Escolher a Horta para sede da nova empresa a constituir pode ser um promissor sinal de mudança do novo governo regional, que contará com o nosso total apoio.”
Depois disso, no final desse mesmo mês, a Assembleia Municipal da Horta aprovou, por unanimidade, um voto proposto pelo PSD no sentido de recomendar “que o Governo Regional dos Açores determine que a nova empresa a constituir, resultante da fusão da Atlânticoline com a Transmaçor tenha a sua sede e centro operacional na cidade da Horta.”
Esta é, pois, já uma causa transversal que une todas as forças políticas e instituições desta cidade e desta zona da Região. E muito bem esteve o Secretário Regional da Economia, Vítor Fraga, quando no âmbito da discussão do Plano e Orçamento da Região para 2014, clarificou que “não há razões objetivas para que a sede da empresa que vai resultar da fusão da Transmaçor e da Atlânticoline não fique no Faial”
Falta agora passar das palavras às decisões! 

 

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