Ainda a Semana do Mar e o desafio da divulgação da cultura açoriana

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Questionei-me, mais tarde, sobre como seria estar geográfica e culturalmente no centro do mundo? Pensei no velho de longas barbas que viajara até à Horta não como um turista casual mas à procura de uma narrativa poética, de uma baía azul-turquesa, de águas mansas e mornas, de uma natureza intacta, de autenticidade.

Terminou a Semana do Mar, edição de 2017. Durante dez dias, a cidade da Horta fervilhou de gente, a avenida marginal encheu-se de turistas – olhos deslumbrados pousados na baía, em contacto com o Mar e a omnipresente montanha… bocas saboreando as iguarias; sensações múltiplas traduzidas em diferentes línguas.
Numa noite cumprimentei um homem de barbas longas e olhos fundos, que me fitava do lado de fora do balcão da tasquinha das alunas finalistas de Animação Sociocultural (cedida pelo município da Horta para angariação de fundos, visando a realização de uma viagem de estudo). Caía uma chuva miudinha e persistente e o nevoeiro adensara-se. Falámos longamente dos Açores e do magnetismo da montanha do Pico. Conversámos sobre baleação e literatura. Ele conhecera António Tabucchi e tinha vindo à Horta porque lera o livro “Mulher de Porto Pim”. É preciso ver a baía do alto, disse-lhe eu… Subir o Monte da Guia. Subir a pé… e contornar o monte. Fez bem em vir em agosto, no Verão, com os outros turistas… “Mas eu não sou turista – disse-me ele – venho à procura da natureza, de cultura, de autenticidade.”…
No último domingo da festa, logo após ter terminado o corso (ao qual não tive oportunidade de assistir), vi passar na avenida um grupo de jovens vestidas de odaliscas, espanholas e outras vestimentas coloridas. Estou a ver coisas!- pensei. Mas não foi o caso. As jovens integraram o corso da Semana do Mar, cujo tema era “O Faial no Centro do Mundo”.
Questionei-me, mais tarde, sobre como seria estar geográfica e culturalmente no centro do mundo? Pensei no velho de longas barbas que viajara até à Horta não como um turista casual mas à procura de uma narrativa poética, de uma baía azul-turquesa, de águas mansas e mornas, de uma natureza intacta, de autenticidade. Pensei em Raul Brandão que passou pelo Faial entre 16 e 26 de julho de 1924 e, deslumbrado, escreveu “As Ilhas Desconhecidas”. Pensei em Vitorino Nemésio e no “Mau Tempo no Canal”, transportando-nos para a história desta ilha e das suas gentes. Pensei em narrativas históricas, como a sangrenta batalha naval entre um brigue americano, o General Armstrong, e três vasos de guerra ingleses, mesmo em frente do Forte de Santa Cruz, em setembro de 1814. As narrativas ligadas aos cabos submarinos. A família Dabney. Todo o manancial histórico, poético, literário que coloca culturalmente esta ilha no centro do mundo. Então, porque razão não dar a conhecer os acontecimentos, os episódios, as narrativas, as obras literárias aos residentes e a quem nos visita? Porque não revisitar “As ilhas Desconhecidas” ou “A mulher de Porto Pim”, convidar os jovens a lerem em conjunto fragmentos, a recriarem e reviverem poeticamente os acontecimentos sejam da Família Dabney ou do “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio? Fica aqui o desafio. 

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