AINDA SOBRE O PORTO DA HORTA

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No mês de janeiro do corrente ano escrevi um artigo intitulado “Porto da Horta: Não esquecer o passado, observar o presente e pensar o futuro!” que foi publicado no Tribuna das Ilhas no dia 20/1. Nesse artigo procurei abordar aquilo que penso ser fundamental em relação ao porto da Horta e penso que as opiniões que então registei são atuais e rigorosas.
Não obstante isso sinto necessidade de voltar hoje ao tema, aprofundando uma questão que já referi, porque me preocupa muito, mas mesmo muito, o futuro deste porto, face a um problema novo que foi criado com a má orientação dada à nova doca norte. É hoje claro que o mar do norte persistente embatendo contra a muralha da nova doca provoca, dada a sua orientação, uma força de mar que se reflete para dentro da bacia sul e que torna a doca principal e o cais de controle da marina em locais onde se torna difícil que navios e embarcações de vários portes se mantenham atracados, enquanto perdura o mar dessa direção. Todos vimos o que se passou em maio de 2016, quando vários barcos foram ancorar para a Feteira e o que se esboçou há quinze dias, quando vários iates grandes adiaram reabastecimentos porque não se conseguiam manter atracados. Todos sabemos também as dificuldades que, em vários momentos do ano, passam as traineiras que descarregam na doca, com cabos a rebentar quando essa força refletida se manifesta.
Há quem diga, sem razão, que este fenómeno sempre se deu e para demonstrar isso invocam as situações de vento NE muito fresco a forte que sempre provocaram agitação dentro da doca e que prejudicam a operação no cais sul ao fundo da doca (cais da Lota). Esse fenómeno é popularmente conhecido por “carpinteiro da baía” e durante muitos anos levava a que os barcos de tráfego local ou de pesca que estavam atracados nesse cais, ou iam para amarrações no meio da doca ou iam para a doca atracar, pois ela não é afetada por esse fenómeno.
Agora não estamos perante uma agitação marítima superficial diretamente provocada por um vento forte de determinada direção, mas estamos perante uma força provocada por massas de mar que entram no Canal e que depois de embater na muralha da doca nova refletem, em parte e inevitavelmente, para dentro da doca principal. Essas forças de mar, chegando à doca criam uma enorme instabilidade nos navios e embarcações lá atracados, provocando em muitos casos o rebentamento de cabos de amarração, o mesmo sucedendo no agora longo cais de controle da Marina. De referir também a enorme agitação que este fenómeno provoca na bacia sul da Marina.
Há também quem diga que esta situação acontece poucos dias por ano e por isso não é um problema. Esse é um falso argumento, usado por uns para esconder o clamoroso erro feito com a orientação (NE/SW) imprimida à nova doca, muito embora os estudos originais apontassem noutra direção, e admito que seja usado por outros por mera ingenuidade. A verdade é que a existência desta situação por muito tempo provocará quebras de movimento marítimo, quebras que não existirão se este problema for resolvido.
Está mais ou menos na ordem do dia o lançamento da chamada 2ª fase do ordenamento do porto da Horta. Escrevi, deliberadamente, a expressão “mais ou menos”, pois até já houve um concurso para execução de um projecto cheio de pontões, plataforma dita de “dispersão” de forças, entradas estreitas e outros pormenores, concurso esse que ficou deserto. Olhando para esse projecto, que entulha uma parte da bacia da doca com boas cotas de profundidade, nasce desde logo a enorme duvida de qual será o efeito de tudo aquilo, mantendo-se esta situação de vir para a bacia da doca a força refletida pela muralha da doca norte.
Desta análise tiro uma conclusão que assumo com toda a convicção e frontalidade: fazer mais obras no mar, dentro da bacia da doca principal, construindo um emaranhado de pontões e plataformas, sem se saber qual é o resultado, não é aceitável. É essencial estudar com seriedade e profundidade, recorrendo a especialistas independentes e não apenas a quem projetou a doca norte, a forma de evitar esse encaminhamento de forças da doca nova para a bacia principal. Estudada a questão, os recursos existentes para obras no mar devem ser prioritariamente canalizados para a resolução desse problema, para depois se ordenar e aproveitar melhor a bacia sul. Esta opção não impede que algumas obras portuárias em terra, previstas ou necessárias, avancem desde já.
O porto da Horta foi muito prejudicado por essa decisão política de orientar o molhe norte tal como está. Não ampliem esse problema, continuando a prejudicar a doca sul, “fazendo experiências” irresponsáveis.
Não nos obriguem a pensar que há quem queira diminuir deliberada e acentuadamente asqualidades reconhecidas do porto da Horta, que levam, nomeadamente, a que seja o mais procurado pela Náutica Internacional de Recreio!
Horta, 3 de abril de 2017

 

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