Praia do Norte (1) O fatídico vulcão de 1672 e a perda da independência da freguesia

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Os primeiros anos de povoamento da ilha do Faial – que, na ausência de documentos, os historiadores presumem ter-se verificado na década de 60/70 do século XV – devem ter sido extremamente difíceis e árduos no desbravamento das matas, no cultivo das terras, no pastoreio do gado, na abertura de caminhos e na construção de precárias habitações. Paulatinamente, porém, a paisagem agreste foi-se humanizando. Pequenos aglomerados de população foram surgindo, começando com a vila da Horta e abrangendo as zonas vizinhas de Flamengos, Praia do Almoxarife, Feteira e Castelo Branco, que progressivamente se estenderam a toda a ilha.
Uma carta régia de D. Sebastião, de 30 de Julho de 1568, respeitante a um aumento de côngruas de vigários da diocese dos Açores, mostra-nos que na ilha do Faial existiam as paróquias de São Salvador da vila Horta, (Matriz), Feteira, Castelo Branco, Praia do Almoxarife e Praia do Norte1. Uns anos depois, o cronista açoriano Gaspar Frutuoso, no seu “Livro Sexto das Saudades da Terra”, concluído em 1589, já acrescenta àquelas as de Conceição, Pedro Miguel e Cedros. Em 1643, Frei Diogo das Chagas no “Espelho Cristalino”, refere mais duas: Capelo e Ribeirinha, sabendo-se que a das Angústias foi criada em 1684 e a do Salão em 1800.
Figurando na primeira série das povoações faialenses, a Praia do Norte, na descrição de Frutuoso, ficava localizada numa “baía grande, de quarto de légua de comprido, de areia, com uma fonte de água na entrada dela, que corre ao mar, onde algumas vezes no Verão varam barcos”, e era “freguesia da invocação da Trindade, de quarenta e dois fogos na Praia e na Fajã e cento e quarenta e nove almas de confissão, das quais são de comunhão cento e quinze e é nela vigário Fernão de Contreiras e tem tesoureiro”2. Não sendo então, em termos demográficos, a mais pequena freguesia do Faial, a Praia do Norte registava, em meados do século XVII, 77 fogos e 274 habitantes, quase o mesmo número da Praia do Almoxarife e mais do que Ribeirinha e Capelo. E, a fazer fé, no “auto de reunião da Câmara e mais autoridades da vila da Horta para se representar ao príncipe regente sobre a sorte dos povos das freguesias do Capelo e Praia do Norte” redigido em 10 de Dezembro de 1672, nesta última povoação moravam, nos 125 fogos lá existentes, “mais de 400 pessoas de confissão”3.
Naquele fatídico ano de 1672 rebentou o vulcão que destruiu quase totalmente as casas daquelas freguesias e fez com que, em termos eclesiásticos e administrativos, a Praia do Norte deixasse de existir. Foi integrada no Capelo e só recuperou a independência como paróquia em 1839 e como freguesia em 1845.
Da horrenda erupção vulcânica de Abril de 1672 (completam-se agora 445 anos) existem memórias e relações que, apesar de não serem coincidentes, apresentam um aceitável cunho de veracidade. De uma “Relação dos tremores de terra e fogo que arrebentou na ilha do Faial” compilam-se algumas passagens que descrevem o que se passou e mostram o sofrimento que atingiu centenas de pessoas reduzidas a um estado de extrema pobreza só minimizada com o recurso à emigração para o Brasil.
Escreve-se, naquele documento, que “em terça-feira da semana santa, 12 de Abril do ano de 1672, pelas quatro horas da manhã começou a tremer a terra, e como seja coisa ordinária nestas ilhas não nos causou assombro”. Mas o que inicialmente não assustou, foi tomando tais proporções que na sexta-feira santa, depois de “recolhida a procissão do enterro, foi tão grande o terramoto das oito para as nove da noite que nos persuadimos se subvertia a ilha, não se ouvindo em toda ela, mais que entre o confuso rumor da terra, os brados e os lamentos com que todos imploravam a misericórdia divina”. Esta violenta crise sísmica iria durar vários dias, ficando “a terra em um contínuo balanço” e obrigando a que “todos deixassem as suas casas, fugindo para os campos” e abrigando-se em improvisadas barracas. Na madrugada do “Domingo da Pascoela, arrebentou o fogo na freguesia que chamam do Capelo, distante desta Vila [da Horta] pouco mais de três léguas e meia”. Nesta descrição aponta-se o “Cabeço da Silva” como o local exacto onde “arrebentou este incêndio” que se caracterizou pelas “chamas que subiam tão altas”, pelas “cinzas” que “em menos de duas horas” cobriram os matos e as searas, pelo “cheiro a enxofre” e pela emissão de lava, as apelidadas “ribeiras de fogo” que abrasavam “tudo quanto topavam”. Continuaram os abalos sísmicos e, na manhã do dia seguinte, a erupção alastrou, pois “o fogo arrebentou em três partes mais e com mais força que a primeira”.
Só no Domingo, dia primeiro de Maio, é que “cessaram os tremores, pelas cinco horas da tarde, com um terramoto tão horrível que, como havia de ser o último, dava o final arranco”. Havia 20 dias que a terra tremia – tudo se complicara a partir de 12 de Abril – e oito dias que rebentara o vulcão. Entretanto, prosseguia a erupção e no dia do Corpo de Deus eram já 42 “as ribeiras de fogo” que, felizmente tomavam o rumo do mar, pois se viessem para “dentro da ilha, acabava-se o Faial”. Diz o anónimo cronista, cujo relato vimos seguindo, que “a perda que o fogo até agora tem feito é o isolamento total” do Capelo e da Praia do Norte, onde das 308 casas existentes, apenas se salvou uma, ficando “1.200 pessoas destruídas, sem fazendas, nem casas, nem cómodo na Ilha para poderem viver nela”4 .
Foi naquele Domingo, primeiro de Maio de 1672 que na vila da Horta “os devotos do Espírito Santo levantaram mastros com suas bandeiras nos lugares onde era costume fazerem suas arramadas e dar suas mesas de comer aos pobres”, tendo assumido o compromisso – de que foi lavrado auto na Câmara da Horta a 18 do mesmo mês – de “que em dia do Senhor Espírito Santo, todos os anos e enquanto o mundo durar sairá uma procissão solene, ordenada pelos oficiais da Câmara, da igreja Matriz desta vila e se recolherá na igreja da Misericórdia, onde se cantará missa com sermão a que assistirá o corpo da Câmara fazendo-se gasto e despesas à custa dela (…) tomando todos os moradores desta ilha por seu protector e padroeiro dela imemorável o mesmo Divino Espírito Santo, por meio de quem esperam alcançar vencer a força do dito fogo e que se consigam nesta ilha grandes felicidades, paz e concórdia entre os moradores dela” 5 . É este voto, “em memória do vulcão da Praia do Norte em 1672”, que ainda hoje se cumpre no Domingo de Pentecostes.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Arquivo dos Açores, vol. VI, pp.188 e 190
2 Cf. Frutuoso, Gaspar – Livro Sexto das Saudades da Terra, p. 270
3 Macedo, A. L. Silveira – História das Quatro Ilhas…I Vol. p. 425
4 “Vulcanismo nos Açores. Ano de 1672. Erupção na Ilha do Faial – Relação dos tremores de terra e fogo que arrebentou na ilha do Faial, que ali vai continuando”, in Arquivo dos Açores, vol. III, pp. 427 – 434
5 Macedo, A. L. Silveira – História das Quatro Ilhas …I Vol. p. 423

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