Por: Isabel Cogumbreiro
Ainda são muitas as pessoas nos Açores que se opõem ao feminismo, associando-o a posições partidárias, reacionárias ou extremistas. Mesmo quando desprovido dessas conotações, o feminismo continua a ser sistematicamente rejeitado em nome da igualdade de género. De facto, em conversas sobre a prevalência da violência contra as mulheres na região é comum encontrar um repúdio quase universal à violência de género, acompanhado do argumento de que o essencial é lutar pela igualdade entre homens e mulheres, como se o feminismo fosse algo inteiramente diferente.

É nesse sentido que se perde a verdadeira definição de feminismo. O feminismo é um movimento social e político que luta por uma igualdade plena entre homens e mulheres. Na sua essência, o feminismo é igualdade de género. A diferença entre ambos está no facto de o feminismo ser um movimento histórico, protagonizado e construído por mulheres, enquanto a expressão “igualdade de género” se tornou um termo mais abstrato e despolitizado, frequentemente usado para suavizar ou afastar o desconforto que o feminismo ainda provoca em alguns contextos.
Então, a que se deve o repúdio ao feminismo? Serão os estereótipos da mulher feminista que odeia homens e ameaça a família tradicional? Será a crença de que já atingimos uma plena igualdade de género? Ou será porque o feminismo expõe as dinâmicas de poder que continuam a moldar as nossas vidas quotidianas?
A história responde afirmativamente a todas estas perguntas. Desde que o termo “feminismo” surgiu, surgiu também o seu contrário: um discurso antifeminista, construído sobre medos e paternalismos com a mulher. Durante décadas, criou-se a imagem da feminista como uma mulher zangada, inimiga dos homens ou da família quando, na verdade, o feminismo sempre foi um movimento de justiça e liberdade. As mulheres que lutaram antes de nós não pediam apenas “igualdade de género”, lutavam como feministas, com orgulho na palavra e consciência do seu significado político.
Por isso, o repúdio atual ao feminismo acaba, muitas vezes, por esquecer ou desvalorizar o legado dessas lutas. Foi graças a mulheres feministas, e não apenas a um ideal abstrato de igualdade, que conquistamos direitos fundamentais como o voto, o acesso à educação, ao trabalho, à saúde e à vida pública. Rejeitar o feminismo é, de certa forma, perder de vista a história e o esforço de quem abriu caminho para que hoje possamos viver com mais liberdade e dignidade.
Essas conquistas também se mantêm vivas graças ao trabalho contínuo de organizações feministas, como a UMAR Açores, que têm estado na linha da frente da defesa dos direitos das mulheres em Portugal. O seu papel na sensibilização, na educação e no combate à violência de género é fundamental para que o feminismo não seja apenas uma memória histórica, mas uma força ativa e transformadora no presente.
Mais de um século e meio depois, esses falsos fundamentos continuam a circular, apenas com novas roupagens. Ainda se ouve que “já não precisamos do feminismo” ou que “as feministas são radicais”. E, de forma preocupante, este sentimento antifeminista tem vindo a ressurgir, alimentado por discursos populistas e por uma crescente resistência às políticas de igualdade. Nas redes sociais e em espaços públicos, o feminismo volta a ser caricaturado e ridicularizado, como se fosse uma ideologia de ódio, quando continua a ser, como sempre foi, um movimento de libertação coletiva, que beneficia toda a sociedade.
Biografia:
Licenciada em Comunicação e Política com especialidade em redes sociais, feminismo e a comunidade LGBTQIA +. Foi educadora não formal de educação LGBT+ para jovens em Portugal e trabalhou como ativista em 3 países europeus. Atualmente, trabalha na APF Açores.















