
O cancro é uma das doenças mais faladas na atualidade e apresenta-se como uma experiência marcante na vida dos doentes, familiares e amigos.
O choque do diagnóstico, os tratamentos e a incerteza quanto ao futuro, fazem parte do quotidiano do doente oncológico.
Ana Paula Garcia, acabou de passar por uma experiência que muitas mulheres temem, um cancro de mama, mas ao invés de se fechar nos seus sentimentos, aceitou o desafio lançado pelo Tribuna das Ilhas e nesta singela entrevista, ela partilha sua a história e torna público o seu “cancro”.
Como descobriu que tinha cancro?
Em 30 de agosto de 2014, fiz o rastreio do “Cancro da Mama”. Em setembro foi-me comunicado que tinha um nódulo e teria que fazer uns exames no Hospital da Horta. O que aconteceu. Depois fiquei a aguardar que me chamassem para realizar uma “biópsia”, que só se veio a verificar em meados de junho de 2015 (parece impossível mas é verdade só me chamaram passado quase um ano!). A 2 de julho de 2015, na “Maternidade Alfredo da Costa”, finalmente realizei a “biópsia guiada” e dos três nódulos que entretanto me foram detetados, um era maligno…
Que tipo de cancro lhe foi diagnosticado?
Carcinoma invasivo da mama. Fui operada no dia 28 de julho (5 dias antes de completar os 60 anos de idade) tendo sido efetuada a mastectomia total da mama esquerda.
Lembra-se o que sentiu nesse momento? Que sentimentos a invadiram e como encarou a situação?
Sinceramente, quando me disseram que tinha cancro fiquei sem reação. Parecia que não era nada comigo. Depois, passados alguns instantes, caí em mim e interroguei: “porquê eu?” Mas confesso que de imediato e quem me conhece sabe que sou assim, “decidi” que havia de lutar … e vencer. É verdade que nunca pensei que ia ou poderia morrer, apesar de ter passado pela experiência do meu marido, José Manuel Évora Garcia, que depois de uma “luta” de mais de um ano veio a falecer.
Na verdade, sinto que ainda tenho muitas “coisas” para realizar …
E a família como lidou com a notícia?
Como é natural com enorme preocupação. Em certas alturas até fui eu que os tive que animar … Há uns anos atrás, como já disse, tinha passado por uma situação idêntica quando foi detetado um cancro no sistema linfático ao meu marido e que de alguma maneira me “preparou” para a minha situação atual… Sinto que a minha “luta” também é a “luta” dele…
E depois… Como lidou com o tratamento?
Tive dias… A “quimioterapia” como é do conhecimento geral não é um tratamento fácil e portanto também no meu caso houve uns dias melhores que outros… Digamos que não gostaria, se possível, de repetir.
No entanto sempre me obriguei a pensar que “se hoje me senti mal, amanhã vai ser um dia muito melhor”… Atualmente faço exames e consultas regulares no departamento de oncologia do HH e durante pelo menos cinco anos faço medicação oral.
O que considera ter feito a diferença no seu tratamento?
Acreditar sempre, não desistir, mas acima de tudo ter uma enorme vontade de viver.
O que mais a marcou neste momento da sua vida?
Principalmente, “o meu cancro”, como costumo dizer, tem-me ensinado a aproveitar melhor cada momento da minha vida.
Onde foi buscar “força” para lutar e enfrentar este problema?
Essa “força” vem de todos aqueles que nos rodeiam e que nos apoiam. Família e amigos. Mas a atitude da pessoa é muito importante, sabendo eu que cada caso é um caso…
Alguma vez pensou que um dia poderia vir a ter cancro?
Acho que a generalidade das pessoas não pensa no assunto, a não ser que alguém próximo padeça da doença. É sempre um problema dos outros…, mas a doença do meu marido e seu desfecho tornou-me consciente de que qualquer um de nós de um momento para o outro pode ficar sujeito a uma situação dessas…
Qual foi o seu principal receio? Teve algum medo em especial? Qual?
Como disse inicialmente não senti nada. Parecia que não era nada comigo. O meu receio/medo maior, até pela experiência que tive anteriormente, era saber como iria reagir à “quimioterapia”… depois, depois foi e (é) viver um dia de cada vez…
Como está ou se sente física e psicologicamente hoje em dia?
Sinto-me muito bem … Graças a Deus.
O que diria a alguém que esteja a passar pelo mesmo que a Paula?
Acima de tudo que nunca pensem que chegaram ao fim da linha. Nunca desistam de lutar. Ouçam os profissionais de saúde que os assistem. São eles que sabem… Definam objetivos a atingir (o meu passou muito pela atividade física e por me superar nos desafios a que me propunha…). Nunca se escondam (o cabelo se caiu volta a crescer, mesmo que encaracolado como o meu), e “tudo” o “resto” se há-de compor…
É verdade que somos muitas vezes amputados, ficamos fracos, perdemos cabelo… mas a vontade de viver tem que ser superior a tudo isso. Se sentirem que não estão a conseguir peçam apoio psicológico.
Pensem sempre que devemos isso a nós próprios, aos que nos amam e amamos e a todos aqueles que acreditam que é possível. Sintam-se um exemplo de tenacidade. Sejam uns verdadeiros guerreiros.
O que diria a alguém que nunca passou por uma situação destas e que passa a vida a reclamar de pequenos problemas da vida?
Acho que só passando por uma situação destas ou análoga é que chegamos à conclusão que os “grandes” problemas da nossa vida não são nada … ter saúde é o principal e a sua falta esse sim é um ENORME problema… porque nos afeta e a todos os que nos rodeiam.
O que mudou na sua vida após a doença? Ao que é que dá mais valor?
Essencialmente tento aproveitar melhor cada momento da vida… Tento manter-me o mais ativa possível, a todos os níveis … Sem dúvida nenhuma o nosso bem mais precioso é a saúde.
Recentemente no jantar de angariação de fundos da Liga Portuguesa Contra o Cancro/Delegação do Faial do Núcleo Regional dos Açores, foi-lhe feita uma pequena homenagem, que significado teve para si?
Na verdade o que se passou é que fui convidada para prestar o meu testemunho e foi o que fiz. Nada mais do que isso. O meu exemplo é o exemplo de milhares de Mulheres e Homens que passam por situações análogas e cada um à sua maneira são verdadeiros exemplos de sobrevivência e luta …
Aproveito para dizer que muito me honrou terem-se lembrado de mim. Por tal agradeço à Delegação do Faial do Núcleo Regional dos Açores da Liga Portuguesa contra o Cancro, na pessoa da sua Presidente Cristina Abrantes. Quero, igualmente, agradecer-lhe (Susana) por me ter ouvido. Obrigada.
Perfil

Ana Paula Azevedo Matos Flores Évora Garcia, tem 61 anos é natural da freguesia da Matriz Faial. A sua mãe era natural do Faial e o pai das Flores.
Em 1957, com dois anos de idade foi viver para o Brasil com a sua irmã e os dois irmãos, onde permaneceram até 1968, altura em que regressaram ao Faial.
Ana Paula Garcia é neta materna, de Alexandria Machado Soares de Azevedo Garcia de Matos, que foi a primeira presidente da direção do “Lar das Criancinhas da Horta” e a sua mãe, Maria Alexandrina Machado Soares de Azevedo Garcia Matos, foi durante muitos anos professora do ensino básico no Faial.
A nível profissional exerceu as funções de oficial Justiça durante 25 anos e atualmente está aposentada.
Na sua juventude jogou basquetebol durante alguns anos no FSC (1969 a 1976). Gosta de desporto em geral e até gostava de ter seguido a área de educação física.
Sempre gostou e ainda gosta muito de ler, de ouvir música e de cinema. E hoje em as caminhadas juntam-se à lista e fazem parte da sua rotina diária.
De 2014 para cá, desenvolveu o gosto pela corrida, nomeadamente pelo trail. Em 2015 e este ano participou nos 22 Km do “Azores Trail Run” e no próximo ano pretende participar na prova dos 48Km “Faial Costa a Costa.
















