Aníbal Raposo artesão de cantigas

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A música é coisa que hoje em dia toda a gente ouve, mas poucos escutam…

Em tempo de massificação musical e de banalização das palavras, é sempre bom escutar a música de alguém que, sendo poeta, músico e cantor (na boa tradição trovadoresca) seja capaz de marcar a diferença. É o caso de Aníbal Raposo, cujas canções eu não me canso de ouvir e às quais me rendo incondicionalmente. Em primeiro lugar, pela sua riqueza melódica, harmónica e rítmica e, em segundo, pela sua expressão lírica, com raízes fundas e profundas no nosso cancioneiro. 

Uma manifesta necessidade de comunicação e de expressão, a que não é alheia a nossa condição insular, fez de Aníbal Raposo um criador e um criativo. (Alguém ousará duvidar que os Açores são um espaço de criação?). Fazendo parte de uma geração de cantautores 1 que nas últimas três décadas têm dado novos rumos e novas sonoridades à música feita nos Açores, este micaelense sabe cantar com palavras o que pode escrever com notas, segundo a vontade que tem de nos dizer aquilo que nos quer dizer, nem mais, nem menos. O resultado é uma sintonia perfeita entre a palavra e a música – uma mais-valia para quem tem a capacidade de fazer ambas as coisas. Sobre esta matéria ocorrem-me, a propósito, os exemplos de Jacques Brel, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sérgio Godinho, Fausto, Bob Dylan, Leonard Cohen, entre outros.

 Cada canção de Aníbal Raposo possui uma espessura emocional rara, porque há neste autor o ouvido que escreve. Leia-se o seu livro de poesia Voos da minha Fajã (edição de autor, 2009) e encontre-se nele a apetecível musicalidade das palavras, estando ali um dos mais belos e pungentes poemas de amor que tenho lido nos últimos tempos: “Despedida”.

Dono de uma voz “cheia”, expressiva e bem calibrada, com modulações e inflexões muito agradáveis, Aníbal Raposo canta, de alma e coração, sem fazer concessões à facilidade e ao facilitismo musicais que hoje grassam por aí e ditam modas. Vivendo em constante desassossego criativo, este engenheiro trovador assume o ofício de artesão de palavras, esculpindo-as e lapidando-as até à suposta perfeição e “encaixando-as” na música, ou vice-versa. As suas cantigas estão impregnadas de insularidade e nelas sobressai a melodia – melodia que não é apenas o suporte da canção, mas a sua própria seiva. Por isso, algumas delas entraram definitivamente no nosso ouvido e desempenham já papel importante na nossa memória colectiva. Por exemplo: Nascer de novo, Poema destinado a haver domingo, Cantigas dos Açores, No mar (incluídas no disco Maré Cheia, 1999); E do verbo, Talvez, Maré e Natividade, Tema para Margarida, Saias (do disco A palavra e o canto (2006); Chamei-te linda, engraçada, Uma estrela no sul, Dança, Minha metade, Se és bom companheiro, Rema (do disco Rocha da Relva, 2013). Três discos gravados e muitos espectáculos realizados porque imperioso é quebrar silêncios e distâncias. Três discos em que não faltam músicos competentes (Eduardo Botelho e Paulo Andrade, por exemplo), boas sonoridades, bem conseguidos arranjos e excelentes gravações.

Em toda a obra musical de Aníbal Raposo encontramos uma variedade de registos, numa interessante viagem pelo imaginário açoriano, com paragem obrigatória na música portuguesa, e saborosas escalas na música africana, brasileira e norte-americana, havendo rotas traçadas a pensar em espaços do universal. Música que parte da ilha (mais propriamente da Relva, microcosmo de referência do autor) para o Mundo. Porque universalizar é precisamente crescer a partir das raízes. E assim tem sido desde o tempo em que Aníbal fez parte de três grupos musicais de boa colheita: Construção, Rimanço e Albatroz.

A soma das partes enriquece o todo, e Aníbal Raposo, através das suas cantigas de apetecível encanto e inegável qualidade, vai continuar a interpretar sentimentos, emoções e estados de alma. Os dele e os nossos.

 

Horta, 26 de Setembro de 2014

                                                        1 Mário Mareante, José Medeiros, Luís Alberto Bettencourt, Luís Gil Bettencourt, Manuel Medeiros Ferreira, Paulo Andrade, João Miguel Sousa, Maria Antónia Esteves, e, mais recentemente, Emiliano Toste, António Bulcão, Bruno Walter Ferreira, Bartolomeu Dutra, Antero Ávila, entre outros.

     

 

 

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