Foi apresentada na semana passada, em Lisboa, a base de dados Invent.arq, no seguimento do projecto Arquivos de Família. Este projecto, do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa, tem como objectivos inventariar e dar a conhecer os arquivos de família existentes no nosso país, assim como a sua importância e os meios para a sua salvaguarda e estudo. Esta base de dados, em construção mas já acessível para consulta em linha, inventaria os arquivos conhecidos, registando as suas características, entidades detentoras, local onde se encontram e formas de acesso. Pretende com isto não só registar os fundos existentes mas também incentivar o seu conhecimento e estudo, tanto do ponto de vista arquivístico como histórico.
Este projecto, de âmbito nacional, pode servir-nos de exemplo e incentivo para continuarmos a preservar o património arquivístico da nossa ilha, que durante a maior parte da sua história não esteve devidamente acautelado. Com a inauguração da nova Biblioteca e Arquivo João José da Graça deu-se um ponto de viragem fulcral. Por um lado garantiu-se a preservação do espólio já existente na instituição, parte do qual só agora pôde ser acondicionado e tratado com as condições ideais. Por outro, permitiu-se que novos fundos e documentos fossem lá depositados, ao mesmo tempo que tem sido feito um trabalho de sensibilização acerca da sua importância.
Mas, até chegar aos dias de hoje, passaram mais de cinco séculos de história faialense, para uma parte dos quais não existe documentação nenhuma, ou a que existe é muito pouca. No que toca a arquivos de família, em particular, a nossa Biblioteca tem apenas alguma documentação dispersa. Também não existe, que conheça, nenhum na posse de particulares. O que aconteceu então aos arquivos das “famílias faialenses”? Todas tinham o seu cartório, maior ou menor, mais ou menos importante, mas sempre essencial para garantir a administração das propriedades e legados da “Casa”. Marcelino Lima ainda consultou alguns destes arquivos, deixando referências dispersas nas suas obras. Mas conheceu-os já numa fase final, em fins de Oitocentos, em que a estrutura social do Antigo Regime tinha sido abalroada pelo Liberalismo e as famílias mais antigas se tinham desintegrado e, com elas, o seu património histórico, incluindo os arquivos. Tenho vindo a procurar documentos que possam ter sobrevivido, e registei já dois livros manuscritos, um do século XVI e outro do XIX, este em Lisboa e o outro de paradeiro desconhecido (há uns vinte anos existia no Porto), mas com cópias em Lisboa, Horta e Angra. Há apenas um arquivo, ou a parte (considerável) que dele sobreviveu, actualmente em Ponta Delgada. O resto são histórias de bibliotecas e documentos queimados na fogueira, vendidos ao desbarato ou simplesmente deitados a lixo. E não foi há muitos anos a última vez que uma família faialense decidiu queimar o seu arquivo histórico numa fogueira ateada no quintal…
Estou, como referi, procurar o que ainda possa existir disperso e desconhecido. Deixo por isso aqui dois apelos. Primeiro, obviamente, que quem tenha documentação ou outro património sob a sua tutela pense sob o destino melhor a dar-lhe, com a cons-ciência de que o interesse do seu estudo o torna importante para toda a comunidade. Segundo, caso alguém tenha na sua posse documentação antiga e interesse em estudá-la e saber o seu significado e importância histórica podem contactar-me, fico à disposição, pois o interesse é mútuo.













