As escolas deverão trabalhar a condição humana

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No passado dia 14 de setembro tive o privilégio de assistir, on-line, a uma conferência proferida pelo ex-ministro da República para os Açores, Dr. Álvaro Laborinho Lúcio, no âmbito das comemorações do Dia ProSucesso. A questão que começou por colocar aos responsáveis pelas políticas educativas da Região e aos professores que assistiram à conferência, incidiu sobre a forma como deveremos agir, nas escolas e nas comunidades, para atribuir sentido ao conhecimento, em contexto pandémico, e no regresso aquilo que designou por uma “nova normalidade”? Como criar caminhos inovadores e não o vazio? – perguntou. Que direção tomar, a de uma educação meramente funcional ou uma educação que tenha valor em si mesma, que tenha presentes as diferentes dimensões da educabilidade humana e seja um elemento organizador e estruturante da condição humana?
Educar, afirmou, “é o confronto do eu com o valor do outro; a valorização da alteridade do outro”. Uma educação que nega a inclusão universal de todos e de cada um, é a negação do próprio ato de educar. É uma educação de morte. Compete aos educadores- pais, professores, comunidade alargada; instituições – ajudar os jovens a enfrentar o absurdo deste tempo e a saírem vitoriosos. O reconhecimento do outro como ser humano valoriza a imagem que este tem de si próprio; cria uma representação pessoal e sentimentos de autovalor necessários ao florescimento e à realização pessoal.
Não podemos ignorar a importância do professor na valorização de cada criança e jovem, sobretudo dos mais frágeis e na construção do conhecimento. Tenho ainda bem presente a experiência do confinamento e o esforço das escolas, professores, pais e da comunidade para garantir as condições instrumentais necessárias para que todos os alunos pudessem aceder à plataforma e assistir às aulas. Sabemos todos que a educação é um pilar fundamental no desenvolvimento dos indivíduos e das comunidades, – sobretudo, quando a base familiar é frágil. É um pilar sobre o qual se estrutura o humano.
Este tempo reclama a inclusão do outro; obriga-nos a olhá-lo nos olhos, diante da ocultação do rosto. A ação educativa verdadeiramente transformadora deverá confrontar-nos a todos com o respeito incondicional pelo humano. Os programas devem promover – e não apenas teoricamente – o respeito da dignidade humana e, por essa razão, é fulcral criar espaços vivenciais (no domínio da cidadania), que permitam equilibrar o crescimento individual com os direitos dos mais pobres entre os pobres (excluídos, migrantes, refugiados…)
Não temos ainda uma perceção clara das consequências, no futuro – a nível cognitivo e emocional- desta “nova normalidade”: a ocultação do rosto detrás da máscara, o medo face à proximidade do corpo do outro, o isolamento e fragmentação dos indivíduos. Questiono-me onde nos conduzirá esta atomização se não se promoverem as condições e os processos que potenciem o florescimento das pessoas e dos grupos, assim como as experiências e emoções positivas (bem-estar, esperança, alegria), e se não se valorizarem as forças individuais, ajudando a desenvolver respostas resilientes face aos obstáculos?
Por fim, julgo que temos de nos reencontrar humanamente na “Polis”, onde a própria natureza da educação tinha uma dimensão ética e política. E a ação do político era suportada por um sistema de valores. Se assim não for, a democracia e as bases civilizacionais da grande aventura humana poderão estar em risco.
Apesar da enorme incerteza que caracteriza este tempo, somos interpelados a olhar o futuro do humano com otimismo e esperança; com coragem. Sabendo que as emoções e as atitudes humanas positivas nos ajudarão a ultrapassar os obstáculos; que urge construir pontes em vez de muros; que o otimismo nos dará forças para lidar com as adversidades, assumir compromissos e realizar, heroicamente, a condição humana. Porque “nada acontece ao Homem que não seja próprio do Homem”.

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