Mare Nostrum

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Açores

Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
(…)
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores 
(…)
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
Sophia de Mello Breyner, 
(O Nome das Coisas, Morais Editores, Lisboa, 1977).
A Grande Festa do Mar está quase aí. Há algumas décadas atrás, a receção a uma regata internacional  entre   Porthsmouth ,  na Inglaterra,  e o porto da Horta  deu  origem  à ideia da festa do mar . Pretendiam os organizadores, com esta celebração, unir as ilhas ao resto do mundo e celebrar o encontro com outros homens do mar, num meio ecologicamente distinto do “continental”. 
É um facto que a cidade da Horta tem uma história marcada pelo iatismo, que decorre da sua excecional  situação geográfica. Este fator colocou-a, historicamente, na confluência das rotas do Oriente e das Américas e as condições abrigadas do seu porto terão estimula também as atividades ligadas às escalas de navios, desde o século XVII.
E é o Mar que nos continua a unir por estes dias de verão, A Semana do Mar, marcada por múltiplos eventos náuticos, integra regatas que trazem à Horta dezenas de iatistas e organiza dezenas de provas, participadas por largas centenas de atletas em muitas modalidades (regatas de vela ligeira, de cruzeiro e de botes baleeiros, provas de remo, canoagem, entre tantas outras). As provas são organizadas pelo Clube Naval da Horta, com o apoio da Câmara Municipal da Horta e de outras instituições. 
Se o objetivo desta coluna é escrever sobre educação, compete-me reforçar a importância de Educar para a memória e para a preservação do conhecimento e da história do mar. Porque conhecer o passado permite-nos projetar o futuro. Daí a importância do conhecimento das primeiras narrativas míticas, da poética associada à obscuridade e ao desconhecimento do mar, da(s) história(s)  sobre a descoberta e povoamento das ilhas, da diáspora, da luta tenaz dos homens que se fixaram nestas terras isoladas. A Escola do Mar garantir-nos-á, decerto, a formação científica dos jovens, já no próximo ano letivo, quer ao nível do conhecimento dos recursos ecossistémicos, quer geológicos, quer dos recursos tecnológicos ligados a uma economia do mar.
Mas a Semana do Mar poderá propiciar conhecimento da nossa história, dos nossos ecossistemas marinhos, entre outros aspetos relevantes, aos inúmeros turistas que visitam a ilha nestes dias, de uma forma natural e envolvendo ativamente a comunidade e as instituições, nomeadamente os departamentos de Biologia, Geologia, de História e Literatura da Universidade dos Açores. 
A Festa do Mar é, seguramente, a Celebração desta ilha. Uma celebração da Vida, da Cultura, da Alma desta cidade. Não deveria ser apenas mais “uma festa” entre tantas outras, todas semelhantes, nos circuitos das festas de Verão. Celebrar a Semana do Mar poderia trazer para as praças, jardins, ruas, cafés, museus, recantos de toda a ilha, a voz dos poetas das ilhas, a criatividade dos artistas, dos que cantaram e continuam a cantar o mar, pinturas, esculturas, instalações, filmes, entrevistas feitas pela RTP Açores projetadas  nos ecrãs gigantes,  ou em qualquer canto  desta cidade.  
Para que este MARE NOSTRUM seja efetivamente genuíno e constitua um ponto de encontro de homens e mulheres neste “convés lavrado”, de “bruma e clareza”. Aqui fica a sugestão.
 

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