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Aviões da Lufthansa catapultados na Horta de 1936 a 1938 (1)

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A grande e decisiva importância dos Açores e, em especial da ilha do Faial, no estabelecimento das ligações comerciais aéreas entre a Europa e a América do Norte conheceu incremento assinável na década de 30 do século XX, após a viagem exploratória de Charles Lindbergh em 1933 e, sobretudo, com as experiências de voos catapultados que a companhia aérea alemã Lufthansa realizou no Atlântico Norte a partir de 1936. Ela utilizava, desde 1929, o sistema de hidroaviões catapultados da ponte de um navio realizando ligações aéreas para a América do Sul, nomeadamente Brasil e Argentina. 

Obtida a indispensável autorização dos governos português, inglês e americano, a Lufthansa iniciou a rota Lisboa-Horta- Nova Iorque (que, por vezes, também incluía as Bermudas) com o hidroavião “Zephir” que amarou na capital faialense a 7 de Setembro de 1936 proveniente de Lisboa sob o comando do capitão Blackenburg, trazendo a bordo o major Alfredo Sintra, “deputado da Nação e 2.º comandante da Escola Militar da Aviação da Granja do Marquês”. Logo no dia seguinte chegou o vapor alemão “Schwabenland”, de 8.188 toneladas, comandado por Alfred  Kottas e tendo 67 tripulantes. Além de equipamento aeronáutico, trazia a bordo o hidroavião “Aeolus” que se destinava às viagens experimentais que se iam iniciar entre a Horta e o Novo Mundo e que foi catapultado, defronte da Feteira ainda nesse dia 8 de Setembro com destino às Bermudas mas que, devido a uma avaria, seria forçado a voltar à Horta. Caberia, pois, ao “Zephir” o privilégio de realizar o primeiro voo comercial directo entre a Horta e Nova Iorque. Saiu da capital faialense – catapultado pelo navio “Schwabenland” – no dia 9 de Setembro de 1936 e, após uma viagem de 22 horas e 7 minutos amarou na grande metrópole americana “perante uma multidão de curiosos que o ovacionou com entusiasmo”. Assim que chegou a notícia do êxito desta primeira travessia do Faial à América, houve, na Horta, manifestações de regozijo com foguetes e morteiros lançados na Colónia Alemã, tendo a charanga do Angústias Atlético Club organizado uma marcha “aux flambeaux” na qual se incorporaram centenas de pessoas que foram felicitar o governo alemão na pessoa de Otto Schroeder (director da companhia cabográfica DAT e vice-cônsul), e que “vitoriaram entusiasticamente os bravos aviadores qua acabavam de atravessar o Atlântico Norte”1 . 

O hidroavião “Aeolus”, pilotado pelo famoso barão von Engel seria novamente catapultado a 11 de Setembro com destino a Nova Iorque, com escala pelas Bermudas. Imediatamente após aquela operação o “Schwabenland” rumou para aquelas paragens, a fim de catapultar aqueles dois hidroaviões de regresso à capital faialense. 

 

Tanto o “Zephir” como o “Aeolus” eram bimotores do tipo “Dornier-18”, com uma envergadura de 23 metros e 70 centímetros e um raio de acção de 4.450 quilómetros à velocidade de cruzeiro de 210 Km/hora. De construção sólida, estavam equipados com motores diesel de 600 cavalos cada, transportavam 150 quilos de correio, flutuavam pelo sistema de casco com estabilizadores laterais, tinham posto duplo de pilotagem e possuíam aparelhos de rádio e telegrafia. O vapor “Schwabenland” era uma mini-base aérea: além de campo de descolagem (que era rápida e não afectada pelo estado do mar), fazia a assistência mecânica aos hidroaviões, era hangar ambulante e tinha acomodações para a tripulação. 

Um navio catapulta funcionava, em princípio, do seguinte modo: aguardava a chegada do hidro que trazia o correio de um continente para o outro, tendo a bordo um segundo aparelho pronto a partir; o avião que chegava era içado para bordo, sendo imediatamente transportadas para o aparelho que se encontrava na catapulta as malas postais que aquele trouxera. Depois de reabastecido, dava-se a arriscada descolagem através de um sistema de propulsão hidráulico, sendo a catapulta movida a ar comprimido e operada pela tripulação. Com os motores em pleno, era accionada e fazia com que o hidroavião adquirisse uma velocidade de cerca de 150 Km/hora nos 36 metros de corrida pelo trilho. A manobra da catapulta era regulada por meio de telefones que ligavam directamente com o hidro, o qual era fixado ao berço por meio dum dispositivo na quilha2 .

As experiências da Lufthansa no Faial em 1936 foram de curta duração, pois terminaram em 18 de Outubro, dia em que o “Schwabenland” catapultou do Faial para Lisboa e Alemanha os hidroaviões “Aeolus” e “Zephir” que, na véspera, haviam chegado de Nova Iorque e de Sidney, respectivamente. 

Entretanto, numa entrevista concedida naquele mesmo mês à imprensa em Berlim, o aviador-director da Lufthansa, von Bunddenbrock anunciava que na Primavera de 1937 estariam prontos os aparelhos que aquela companhia estava fabricando para a carreira do Atlântico Norte, via Horta, bem como o navio catapulta de 8.000 toneladas que, provavelmente, estacionaria nos Açores. Adiantava que as carreiras iniciar-se-iam no próximo Outono 3. E, de facto, elas realizaram-se, mas com início em 15 de Agosto, utilizando aviões mais potentes e dois navios catapultas. Assim, os novos hidros eram quadrimotores, tinham maior porte, e pousavam sobre dois flutuadores e não directamente no mar. Chamavam-se “Nordmeer” e “Nordwind”, com 25 metros de envergadura e 18 de comprimento e pesavam 16 toneladas. Os quatro motores diesel tinham, cada um, 600 cavalos de potência, sendo a velocidade de 250 Km/hora, com um raio de acção de 5.000 quilómetros. 

 

As viagens de experiência do Velho com o Novo Mundo, a partir do Faial, foram efectuadas por aqueles dois quadrimotores e a ligação Lisboa/Horta/Lisboa pelo bimotor “Samum” e, salvo algum impedimento das aeronaves, obedeceram ao seguinte itinerário: aos domingos de manhã o “Samum” saía de Lisboa para a Horta e, após a sua chegada, o “Nordwind” era catapultado para Nova Iorque aí amarando na 2.ª feira; dali, naquele mesmo dia, o “Nordmeer” seguia para a Horta onde chegava na 3.ª feira, partindo então o “Samum” de regresso a Lisboa. Estes hidros eram catapultados pelos vapores “Schwabenland” e “Friesenland” que, alternaram de posições, estando o primeiro algum tempo em Nova Iorque enquanto o segundo começou na Horta as operações de catapultagem. De Agosto a Novembro os dois quadrimotores da Lufthansa realizaram 13 voos no percurso Horta/ Nova Iorque/Horta, ao passo que o “Samum” efectuou, de 29 de Agosto a 12 de Novembro, 10 voos Lisboa/Horta/Lisboa. No período em que decorreram as experiências de transporte de carga aérea entre a Europa e a América – ou seja de 15 de Agosto a 20 de Novembro – a Lufthansa, através das tripulações dos seus três aviões e dos dois vapores-catapultas, deixou profundas marcas na população faialense, das quais a imprensa local deu testemunho. Como exemplo, extraem-se de O Telégrafo de 26.11.1937 estas palavras de apreço e também de promoção das excelências do porto da Horta sempre minimizadas em outras áreas do arquipélago: “Nós que acompanhámos sempre com grande interesse o movimento aéreo dos elegantes aparelhos “Samum”, “Nordmeer” e “Nordwind” vemos com pesar a sua debandada, pois já nos havíamos habituado às suas regulares carreiras entre Lisboa e o nosso porto e entre este e Nova Iorque”. Adianta o articulista que essas carreiras decorreram normalmente e “o levantamento e a amarissagem dos lindos quadrimotores foi feita por vezes dentro do nosso porto artificial, de molde a deixar-nos a melhor impressão das facilidades que aos aparelhos oferece”. E termina afirmando que “tudo correu o melhor possível” e que “nos deixam saudades as asas que sobrevoaram por várias vezes a nossa cidade”. Quanto ao resto, isto é, “à parte científica que a guardem religiosamente os arrojados pilotos alemães, porque essa consiste segredo da Companhia que só o futuro deve desvendar quando os voos deixarem de ser experimentais”. Até lá, ficava “a garantia de franco acolhimento se cá voltarem”. E o certo é que no ano seguinte a Lufthansa regressou em força às suas viagens preparatórias de carreiras aéreas regulares no Atlântico Norte. 

Delas nos ocuparemos em próxima edição.

 

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