Burnout nos professores – há dúvidas?

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A educação não vai bem de saúde, nem vai bem a saúde dos professores. O assunto não é novo, mas voltou aos títulos dos jornais e a situação parece preocupante. A palavra burnout de origem inglesa, mas de uso corrente em Portugal, traduz a ideia que algo parou de funcionar devido à absoluta falta de energia, ou seja, e em traços muito gerais, uma exaustão emocional, com repercussões físicas, que são decorrentes de um descontentamento face ao trabalho.
É certo que qualquer profissão poderá desencadear um processo de burnout, no entanto, algumas ocupações têm sido apontadas como mais predisponentes, nomeadamente, as que visam um contacto próximo com pessoas. Nestas inserem-se os professores.
As causas do burnout são multifatoriais e no caso dos docentes, são apontadas como principais: as turmas numerosas e barulhentas, a carga-horária, as extensas horas de trabalho não contabilizado, a precarização do vínculo laboral e a falta de perspetivas de progressão na carreira, a acumulação de tarefas burocráticas, a falta de segurança e ainda o sentimento de derrota.
No geral, o profissional sente-se como encurralado numa situação de trabalho que não pode suportar, mas também que não pode recusar, e inconscientemente faz uma retirada psicológica, apesar de continuar a exercer a função.
Em outubro de 2018 foi apresentado pela FENPROF, um estudo liderado por Raquel Varela da Universidade Nova, sobre as condições de vida e trabalho na educação em Portugal, onde concluíram que 28,5% dos professores apresentam alguns sinais de exaustão emocional, 20,6% apresentam sinais preocupantes, 15,6% têm sinais críticos e 11,6% dos professores estão em exaustão emocional muito definido. Fazendo as contas 76,3% dos professores detém sintomas, em maior ou menor grau, de extenuação.
Ainda dentro das conclusões do referido estudo, a quase totalidade dos professores avalia a burocracia como fator negativo ou extremamente negativo na sua profissão; 57% dos professores sentem um stress laboral elevado; 62% estão preocupados ou extremamente preocupados com a indisciplina e 84% dos professores anseia pela reforma antecipada. Através destas, também podemos concluir que assim não vamos num bom caminho.
Para os professores açorianos a situação não é muito diferente, contudo, a dimensão mais pequena das comunidades que resulta numa maior proximidade com os alunos, acresce como fator de risco. Quem o afirma é o psicólogo Francisco Simões, coautor de um estudo sobre burnout entre professores nos Açores, desenvolvido pelo ISCTE.
Segundo o mesmo, 40 a 60% sofre desta síndrome de esgotamento profissional, apesar da maioria não se aperceber, e de os professores desvalorizarem os sintomas, realizando os pedidos de ajuda já numa fase muito adiantada. Acrescenta que as pessoas normalizaram muito a ideia de que a relação pedagógica é uma componente essencial do trabalho, mas que desconsideraram o desgaste que pode provocar. Contudo, também esclarece, que este envolvimento produz melhores resultados, só que estes são produzidos muitas vezes às custas de relações muito exigentes para os professores. Dá que pensar.
O que já não dá muito que pensar, pois são evidentes as consequências, é o resultado desta questão somada a outras igualmente baladas por estes dias. Mesmo não sendo bom a matemática, as contas não são difíceis de fazer. Basta adicionar professores exaustos + alunos indisciplinados + burocracia crescente + ausência de reprovações + (…)
Quem é que ainda tem dúvidas?

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