Poucas mulheres dedilham no mundo de homens

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“Na nossa aldeia, São Francisco da Serra, Santiago do Cacém, toda gente tocava, homens e mulheres”, conta o mestre António Parreira, que cresceu a tocar com o mestre António Chainho na tasca do Faúlha que pertencia à família do Chainho.

https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/viciados-na-guitarra-portuguesa

“Durante algum tempo, acreditei que as mãos das mulheres não eram para guitarra portuguesa”, lembra Luísa Amaro, a discípula e companheira do mestre Carlos Paredes e a primeira mulher a gravar disco de guitarra portuguesa.

https://www.noticiasmagazine.pt/2014/acreditei-que-as-maos-de-uma-mulher-nao-eram-para-a-guitarra-portuguesa/historias/8091/

Mesmo numa aldeia como São Francisco da Serra, Santiago do Cacém, onde se diz que todos tocavam a guitarra portuguesa, era quase uma missão impossível encontrar alguém que o fizesse sem esconder o seu estilo de dedilhar. Os segredos do dedilhar deste instrumento único no mundo, eram legados de pais para filhos, mas tirado isso nem o indicador contava ao polegar como se faziam os melhores arpejos nas 12 cordas da companheira do fado. Por isso, não admira que, mestre António Chainho, um dos 50 músicos mais influentes do mundo e fundador da sua primeira escola de guitarra portuguesa nesta aldeia alentejana, perto da tasca do Faúlha, relate alguns casos de maus tratos e de expulsões dos tascos de Lisboa.
E se para os homens era assim, para as mulheres era ainda muito mais difícil penetrar no mundo do fado vadio.
Atualmente, já existem várias escolas de guitarra portuguesa no Continente, mas foram encontradas apenas seis ou sete mulheres a acompanhar fado neste mundo masculino e secreto da guitarra portuguesa. Isto por várias razões sejam elas de foro social ou religioso. Em tempos não muito distantes, as mulheres fadistas, que eram muitas, eram vistas como mulheres da vida. Também havia a oposição de certas religiões que associavam este género de música à vadiagem e irresponsabilidade moral. Além disso, eram as mulheres tinham mais responsabilidades nas lides domiciliárias e no seio da família, dai que tinham menos tempo e liberdade para se dedicar à música ou outros “hobbies”. E até mesmo por restrições autoimpostas pelas mulheres.
A própria Luísa Amaro chegou a pensar que “as mãos das mulheres não eram para a guitarra portuguesa”. No entanto, acabou sendo a primeira a gravar um disco com a guitarra portuguesa a solo, mas sublinha que não toca fado e sim a Canção de Coimbra.
Mariana Martins é a primeira mulher a frequentar um curso de licenciatura em guitarra portuguesa, mas isto não tem nada a ver com acompanhar fadistas em qualquer tom.
O trio “As Mariquinhas” foi recentemente criado por Fernanda Maciel, na guitarra portuguesa, Marta Rosa na viola de fado e voz, Cláudia Leal, também na viola de fado e voz. Por isso, estas mulheres multifacetadas constituem, possivelmente, o primeiro trio de instrumentistas e fadistas completamente feminino a atuar nas casas de fado.
Através de Isaac Silveira, instrumentista e impulsionador do fado nesta região, descobrimos que em 2008, Raquel Tavares gravou um vídeo a cantar o fado “Ardinita”e a solar na guitarra portuguesa, mas tudo indica que isto tenha sido uma situação pontual.
Segundo revelaram os contactos da fadista e em breve guitarrista, Tânia Gonçalves, Inês Pais e Rita Costa são duas guitarristas residentes em Viseu que acompanham fado como amadoras, mas ainda pouco visíveis no mundo de guitarristas do fado.
Posto isso, Marta Pereira da Costa foi a primeira mulher guitarrista a acompanhar o fado como instrumentista profissional e ainda é a única no mundo a fazê-lo nessa qualidade. E a Rute Ortins Duarte, funcionária pública de 39 anos, é a primeira nos Açores e, por enquanto, a única na região a acompanhar fadistas na sua guitarra de Lisboa.
Os factos recolhidos indicam claramente que há poucas mulheres a acompanhar fado com a guitarra portuguesa, mas é importante referir que “Há gente que fica na história/ Da História da Gente/ E outras de que nem o nome/ Lembramos ouvir”. A citada quadra do fado “Chuva” contextualiza perfeitamente a presença de guitarristas femininos a acompanhar fado. Tendo em atenção a história do fado, verifica-se que grandes mulheres como Amália, Lucília do Carmo, Ana Moura, Mariza e muitas mais deram voz a este género de música, que é a essência do imaginário português, mas são conhecidas apenas seis ou sete senhoras a fazer trinar a guitarra ao lado de fadistas. É quase impossível ver uma guitarrista a atuar na Maria da Fé, Luso ou Forcado em Lisboa, na Casa da Guitarra no Porto, na Casa do Bacalhau em Ponta Delgada ou na Taberna do Fado na Terceira. Tanto é, que o guitarrista terceirense, Tiago Lima, disse mesmo que, até agora, nenhuma mulher guitarrista atuou na sua Taberna do Fado.
Aqui no Faial o fado virou moda e podemos ouvir uma das primeiras mulheres a dedilhar acordes na guitarra do fado. Na cidade mar temos cerca de uma dúzia de residentes a cantar fado, mais mulheres que homens, quase sempre acompanhados por uma mulher na guitarra portuguesa. O Encontro de Fadistas na Ilha do Faial já vai realizar-se pela 14ª no dia 2 de maio de 2020 e nas edições anteriores já se viu a guitarra na mão de uma mulher. Os músicos locais tem o seu calendário superpreenchido com três atuações por fim de semana durante o ano e é quase sempre uma mulher a tocar guitarra. Com esta forte procura por este género de música e a saída de cena dos outros dois guitarristas da terra, Rute Duarte viu-se obrigada a fazer noitadas a solar com a sua guitarra de Lisboa.
Se bem que temos mostras que a guitarra portuguesa de facto passava pelas mãos das mulheres, o mesmo raramente acontecia nas casas onde se cantava o fado. Baseado nos relatos de vários instrumentistas e fadistas e muitas pesquisas na Internet, podemos considerar Rute Duarte como das primeiras e poucas mulheres guitarrista no país a penetrar no mundo do fado vadio. E em breve podemos vir a ter mais uma mulher guitarrista no Faial, uma vez que a fadista Tânia Gonçalves está a fazer um curso de guitarra portuguesa. A Tânia até já se estreou este mês de novembro no Restaurante Genuíno, mas diz que isso foi algo inesperado e excecional como o guitarrista não apareceu e para as pessoas não ficarem sem ouvir o trinar da guitarra. Mediante esta realidade, a Rute Duarte continua a ser a única mulher guitarrista nos Açores e das poucas no país.
Algo que só acontece porque o pai, Ângelo Duarte, lhe quis oferecer um anel quando ela concluiu a sua licenciatura em economia na Universidade dos Açores, coisa que ela diz não apreciar. “É na queima das fitas que o pai queria oferecer-me um anel e eu disse que não queria. E ele então disse que comprava uma guitarra portuguesa para eu tocar”, relembrou Rute Duarte. “E eu tentei ainda convence-lo que não, que não tinha nada a ver com o meu percurso (musical) e que não ia saber tocar. E ele acaba por insistir e comparar a guitarra portuguesa. Pronto, eu regressei ao Faial com uma guitarra sem saber tocar.”
Na realidade, o referido percurso começa com a mãe da Rute, Judite Duarte, a fazer renda enquanto a menina de seis anos aprendia a tocar bandolim. E foram tantas horas de ensaio que a Judite Duarte acabou mesmo por completar uma toalha de renda de três metros. Foi assim a entrada da Rute na música tradicional, neste caso a chamarrita do Faial, e a estreia em palco com a Tuna e Grupo Folclórico dos Flamengos aconteceu durante a Semana do Mar de 1986 quando a Rute tinha apenas 7 anos. Depois deste primeiro passo, e já na década de 90, a Rute também fez formação no conservatório, mas no piano. Este apoio familiar, dedicação e gosto pela música tradicional permitiram que a Rute adquirisse muitos conhecimentos musicais até chegar a altura de ir para universidade, mas nada relacionado com o fado.
Durante a sua adolescência a Rute atuou em muitos bailes com o seu bandolim, pelo que não podia deixar de levar o instrumento consigo para a universidade. Ainda bem que assim foi. Pois pouco tempo depois de pousar as malas surgiu a oportunidade para integrar a Tuna Académica da Universidade dos Açores. E nas brincadeiras e copos com a tuna académica nasceu o “bichinho” pelo fado através de alguns colegas do Continente que gostavam de curtir a vida noturna a cantar fado.
Até aqui ela nunca tinha tido contacto com o fado, mas disse, com risada à mistura, que “o fado vem mesmo pela copofonia” desses anos e ainda com o bandolim. “Ao final do terceiro copo toda gente canta o fado e alguém tem que o tocar. Calhava-me a mim, caloira. E eu tinha que tocar, mesmo sem saber nada disso. Foi aprender à lei da bala. Até hoje, é aprender à lei da bala”, lembrou Rute Duarte no meio de mais gargalhadas.
Apos a conclusão da licenciatura em 2005, Rute Duarte regressou ao Faial com uma nova admiração pelo fado e uma guitarra portuguesa que nem sabia tocar. Os primeiros ensaios surgem em 2007 com o António Pimentel, Ilídio Amaral, Isauro Martins e José Alvernaz, mas só em 2008 é que tem as primeiras atuações com a guitarra portuguesa, embora, como ela própria diz “era ainda só o verbo encher com uns arpejos por trás, era uma segunda guitarra”.
O próximo passo surge depois de Américo Magalhães Leite, tio da Rute, fixar residência no Faial por volta de 2010 e se juntar ao grupo. Entretanto, o Ilídio Amaral deixou de tocar, ficando a Rute e o José Alvernaz até 2015. Em abril desse ano, o José Alvernaz fica impossibilitado de tocar por doença, da qual, felizmente, continua a recuperar. Assim a Rute Duarte passa a ser a única guitarrista na ilha e é neste altura que ela começa a solar e a tocar “tudo o que o meu tio canta”. “Ai é que começou o pontapé no rabo (gargalhadas)… foste logo lançada aos bichos. Até ali estavas encostada ao Ilídio (Amaral) e ao José (Alvernaz)”, disse Américo Leite, que canta os solos à sobrinha, porque não há partituras para a guitarra de fado.
É certo que esta guitarrista faialense reconhece o acolhimento e estimulo que lhe foi dado pelos guitarristas da terra, como também lembra que ainda assim houve altura em que eles viravam as costas para encobrir as suas técnicas de dedilhar. Agora que não tem a quem se virar, tem de aprender com as atuações e por si própria. Aqui ainda não há escolas de guitarra portuguesa e as coisas continuam como canta Ana Moura “Cada Dia é Um Bico de Obra”. Mesmo assim, enquanto a Rute tiver unhas “ninguém fica por cantar” por falta de guitarrista.

Datas de Fados a recordar
– Restaurante Bela Vista 30 de novembro
– Restaurante Genuíno 6 de novembro
– Pizzaria Atlantis 7 de dezembro
– XIV Encontro de Fadistas na Ilha do Faial 2 de maio 2020

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