Caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais; caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar – António Machado

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A estrada é uma visão consoladora, nas peripécias do destino aconteceu o meu compadre Alípio estar de passagem de carro por Luanda com a família para o fim de semana prolongado com o feriado e fiz assim o regresso às terras altas da Chela no mesmo veículo velho e firme, com a mesma família que à nossa também e que nos trouxe aqui na partida há dois anos atrás. Faltam os meus para ser o reencontro perfeito. Na brincadeira com os miúdos, com direito a paragem na Canjala para comprar inhames e gelado em Benguela, a viagem decorreu serena e sem grandes sobressaltos até quase sentirmos o cheiro das montanhas.

Depois de passarmos o Chongoroi a caminho de Quilengues, porta de entrada da província da Huíla para quem vem do norte pela costa, rebenta um pneu. Valeu a perícia do compadre e a velocidade ser moderada mas eis que o problema se adensa quando ambos os pneus de socorro, tendo a jante a furação certa, eram de estilo “balão” e não serviam. A salvação foi o mano Bigó lá no Lubango que já de noite operou o milagre de encontrar a jante certa no pneu adequado e fez trezentos quilómetros para nos socorrer. Senti que cheguei. As horas de espera na estrada, no mato, proporcionaram rezas e indizíveis céus.

A chegada aos lugares a que pertencemos e que julgamos nossos rodeia-se frequentemente de sinais a reter e rituais que devem ser cumpridos. Passou um longo período seco, a aridez dos tempos é visível em tudo ao redor, a terra sem água. Os espíritos foram perturbados, terá sido a morte do mais velho boi, patriarca da montanha, o Tchipiala também morreu. Algo perturbou o ciclo natural das coisas. Os mais velhos trouxeram um galo e dizem que a chuva veio comigo, ela que representa um novo começo, a esperança do pasto que alimenta o gado, um rasgo de verde. De facto chove, abundantemente. A noticia espalha-se e do ventre da montanha vem a Senhora do Monte. Ninguém sabe exactamente onde ela fica mas dali se põe a caminho ao raiar da aurora, o sol ia já alto quando me encontrou, sentámos a conversar na sombra das vissapas, falamos línguas diferentes mas estranhamente entendemo-nos. Quis saber dos meninos, da senhora, das novas do mundo de lá. Falou-me dos que morreram na minha ausência, abraçou-me e chamou-me filho. A Senhora do Monte é real e palpável, acreditem, não é fruto da imaginação e os encontros com ela acontecem sem plano mas nunca ao acaso, nada acontece ao acaso. Vi-a agora despida das suas tranças, colares e adereços de mumuíla, vem coberta num trapo sujo com os olhos perdidos no espaço e as marcas da seca passada no rosto. No corpo outras marcas, da chuva dizem. O trovão também vem com ela, com a chuva, e foi o seu raio que atingiu a velha mumuíla um dia deixando o seu corpo em chagas e a alma com um brilho diferente, como que acesa por energias cósmicas. E sobreviveu, a electricidade não a matou. Mas marcou o destino da pessoa, brutal e efémero, trágico e belo. Para a maioria de nós, mesmo em Angola, é uma realidade distante, folclórica, quase estranha e alienígena. Esta ruralidade como espaço humano, de vivências e complexo sistema de crenças, vai desaparecendo a troco das periferias urbanas e decadentes. Mas quem pode condenar o ser por procurar um pouco mais de conforto e abundância? De não ter na água, no sal ou no óleo alimentar a sua principal luta diária. Quem não se deixa seduzir pelo admirável mundo novo da luz elétrica, da água canalizada, de abrigos sólidos e permanentes, de igrejas e super-mercados? Mesmo que seja só a ilusão de estar mais perto. Em geral o fascínio por todas as facilidades e brilhos prometidos na cidade grande supera as belezas da vida no campo e, particularmente, as suas agruras. Os dias sucedem-se na luta pela água, pela luz. Ainda assim prefiro este mundo sem muros, grades ou arame farpado, regido por outros códigos, naturais, ecológicos e da cultura, com princípios e valores que parecem condenados lá nas babilónias do susto. Mesmo miseráveis as periferias da cidade grande oferecem maior acesso ao consumo, a oportunidades e mecanismos de sobrevivência que aqui não existem. Aqui não há nada dizem os jovens que ainda restam. E se há riqueza espiritual e de valores o mundo material das pessoas apresenta de facto uma miséria endémica que vai corroendo e alterando tudo o resto. Não é fácil estar aqui, sobreviver aqui. É preciso teimosia e uma certa dose de loucura para sobreviver ao esquecimento. Se este não é um lugar esquecido as pessoas que o habitam, em geral, vivem o mais absoluto esquecimento. Por vezes vagueiam os caminhos de pedra das montanhas em êxtase, alienados pelos fermentos do massango e o toque do tambor. Dançam, riem, amam. E morrem, muito e cedo.            Na morte celebram ainda, mortos e vivos, em comunhão universal. O território comum, este, incendeia-se e o fogo lavra a terra, queima o passado, abre espaço ao futuro, à chuva, ao pasto. Como a sucessão das estações e ciclos da natureza também as nossas vidas são feitas de incêndios e monções, de partidas e retornos, principalmente do que é no meio o caminho e do que nos faz nele caminhar.

 

 

 

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