
Chegámos a essa altura do mandato em que de repente todo o município parece um estaleiro. Não há nada como um ano de eleições em que ficamos com a sensação que afinal tudo acontece.
É já celebre a expressão “devia haver eleições de 6 e 6 meses”! Pois eu acho que não. Cada vez mais me convenço que, pelo contrário, nem sequer devia haver eleições! Não, não sou apologista de um qualquer modelo totalitário ou de permanências hereditárias no poder. Estou é saturado destes ciclos eleitorais, de anos amorfos seguidos de hipervoluntarismo. Gostava de viver numa democracia!
Passo a explicar. Este modelo de democracia em que regularmente somos chamados a eleger uma equipa governativa é pervertido pelo facto de obrigar os políticos a trabalhar para a sondagem. A lógica é ser eleito e começar a trabalhar na re-eleição.
Eleições como sinónimo de democracia começa a estar cada vez mais obsoleto. E citando um autor Belga, David van Reybrouck, que escreveu “AgainstElections” (Contra as Eleições), “Pedimos às pessoas que nos digam o que pensam sem que se tenha assegurado que elas pensaram alguma coisa sobre o assunto — ainda que tenham sido bombardeadas com variadíssimas formas de manipulação nos meses anteriores à votação”.
A realidade é que somos chamados a eleições, recebemos uns quantos manifestos eleitorais que são meras cópias dos anteriores com o devido reajuste para incluir a última reivindicação da vox-pop – e que já ninguém tem paciência para ler – votamos, contam-se os votos, uns ganharam os outros perderam. Passamos a ser governados pelos que ganharam. Os que perderam, que por vezes representam praticamente a outra metade da população que se mobilizou para votar, não são chamados a contribuir para construir a melhor solução para a comunidade.
Grosso modo, somos sempre governados por minorias, se não vejamos: em 100 eleitores, 40 abstêm-se, 35 votam X e 25 votam Y. X assume o poder e tem a “legitimidade” para fazer o que quiser sem ouvir mais ninguém.
O Município da Horta é disso mais um exemplo. A Câmara Municipal da Horta (CMH) tem 7 vereadores, 4 executivos e 3 não executivos. As reuniões de Câmara servem para tomar as decisões estratégicas para o concelho, ora a maioria decidiu que só leva a reunião aquilo que lhes apetece, logo, aquilo que deveria ter consensos alargados fica no segredo dos seus gabinetes para ser decidido como bem entendem. Deixa de se fazer o que por vezes é tido como essencial em prol daquilo que lhes dá visibilidade.
A lógica do politico é ser eleito e começar a trabalhar na re-eleição.Tornam-se profissionais de marketing. Aparições públicas, reivindicações veementes de obras que já estavam planeadas, estaleiros em pontos cirúrgicos para mostrar trabalho em curso, bem, trinta por uma linha.
A realidade é que num mandato de 4 anos, os primeiros 3 são relativamente contidos para depois haver uma gigantesca demonstração pública de trabalho. Sejam estes projectos estruturantes e reflectidos, ou pior, absolutamente descabidos… Alguém compreende o sintético da torre do relógio (Largo D. Luís I)?
Estamos sempre numa lógica eleitoralista e de planeamento e calendarização refém dessa mesma lógica.
É por isso de extrema importância o envolvimento de todos. Estar informado, questionar o porquê das decisões, reivindicar a discussão pública de investimentos, olhar para trás e ver o que foi feito e como, não se deixar deslumbrar por aquilo que se vê nos meses antes de uma eleição, por um cartaz da feira agrícola, do São João da Caldeira ou da Semana do Mar.
A governação não é só isso. A acção governativa não se mede pelo número de arraiais patrocinados ou pelos cabeças de cartaz convidados. As decisões de hoje são sobre aquilo com que teremos que viver amanhã.
No fundo a política é demasiado importante para ser deixada aos políticos.














