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Retalhos da nossa história – CCLXII – A histórica deslocação à Horta da equipa de futebol do Casa Pia

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Faz hoje precisamente 95 anos que chegou à Horta a poderosa equipa do Casa Pia Atlético Clube, então um dos baluartes do futebol em Portugal. A demonstrá-lo está o facto de ter vencido em 1920-21, sem qualquer derrota, o campeonato distrital de Lisboa, à frente de outras equipas de nomeada como o Benfica e o Sporting.

Em 1922, o clube de Alvalade conquistaria o campeonato nacional e foi ele o primeiro a ser convidado pelo Fayal Sport Club (FSC) a deslocar-se à Horta, a fim de realizar três jogos com esta equipa, na altura a única cá existente. Ainda em Maio, a imprensa local registava o grande entusiasmo que rodeava a vinda dos campeões de Portugal e a acelerada preparação física e técnica a que estavam submetidos os jogadores faialenses orientados pelo técnico inglês (naturalmente funcionário da companhia inglesa do cabo submarino) senhor R. A. Peck.

Em telegrama de 3 de Junho, o delegado do FSC em Lisboa, Manuel de Medeiros Tânger – um dos fundadores e primeiro presidente da direcção deste clube – comunicava que, por falta de data disponível o Sporting Club de Portugal declinara o convite, vindo em sua substituição “a primeira categoria do Casa Pia Atlético Clube, campeão de 1921”1 . Não arrefeceu o entusiasmo, os treinos prosseguiram com intensidade e a promoção dos jogos intensificou-se, mesmo na imprensa que, por várias vezes inseriu este curioso anúncio: “Casa Pia Atlético Club no Faial / Três grandes desafios contra o Fayal Sport Club / Quem ganhará?”

A comitiva casapiana, viajando no navio “Roma” chegou à Horta no dia 23 de Junho. Era dirigida pelo Dr. Olívio do Carmo Assunção e integrava os seguintes desportistas: Clemente Guerra, António Pinho, José Gomes dos Santos, Henrique Gouveia, José Maria Gralha, Silvestre Rosmaninho, Alberto Loureiro, Aníbal Santos, Aníbal Cordeiro, Pinto de Magalhães, Manuel Cruz, Carlos Melo, Augusto Luís Gomes e Cândido de Oliveira, capitão de equipa e que viria a ser uma das figuras mais marcantes da história do futebol português. 

Voltemos, porém, à permanência no Faial da briosa equipa do Casa Pia, que decorreu de 23 de Junho a 1 de Julho. Ela não só permitiu um extraordinário intercâmbio desportivo como constituiu um grande acontecimento social. Era a primeira vez que um grupo desportivo continental vinha aos Açores. Temos de recuar 95 anos e situarmo-nos no que era a vida social dessa época, para tentarmos perceber o singular cometimento a que se abalançou o clube faialense. A paixão pelo futebol, ainda emergente, explica que os três encontros que opuseram o Casa Pia ao jovem Fayal Sport hajam sido presenciados por milhares de pessoas, (não só da cidade da Horta, mas também das freguesias rurais e das ilhas Pico e S. Jorge) e que as festas e as recepções dispensadas nesta ilha e na do Pico aos ilustres visitantes tenham mobilizado multidões. É isso que nos transmite a imprensa da época e os arquivos dos verdes da Alagoa que José Bettencourt Brum utilizou na feitura do seu livro “Fayal Sport Club – subsídios para a sua história”.

Aí se nota que a mobilização popular para esses nove dias de festa começou logo à chegada do vapor que transportou o Casa Pia de Lisboa até à Horta. Ainda a bordo foi cumprimentado pela direcção do clube anfitrião – na ocasião “o menino Thiers de Lemos Jr. filho do presidente da direcção do F.S.C., equipado à Fayal, ofereceu aos visitantes uma corbeille de flores naturais” – e pelos directores do Amor da Pátria, do Grémio Literário Artista Faialense, dos jornais locais e outras entidades. Seguiu-se o desembarque e a apoteose. Foram “saudados pela enorme multidão que os aguardava no Cais de Santa Cruz e acompanhados ao ‘Faial Hotel’ onde ficaram hospedados”2.  Na noite desse dia houve recepção no ‘Amor da Pátria’ sendo-lhes oferecida “uma taça de champanhe”, tendo discursado Artur Leandro, pelo F.S.C., Manuel Joaquim da Silva Menezes, pelo Amor da Pátria, Dr. Luís Saraiva e Cândido de Oliveira, pelo Casa Pia.

O primeiro jogo realizou-se no campo do F.S.C., na Doca, no domingo, dia 25, e deve ter sido um grandioso espectáculo. Assistiram à partida cerca de 5.000 pessoas, que também foi abrilhantada pelas filarmónicas Artista Faialense, União Faialense e União e Progresso, da Madalena do Pico. Os visitantes venceram por 2-0.

Passados dois dias, novo encontro e nova vitória dos casapianos, desta vez por 4-1. Finalmente, na 5.ª feira, dia 27, disputou-se o terceiro e último jogo. Acabou empatado a zero, decorreu perante “numerosíssima assistência, cujo entusiasmo foi, por vezes, enorme, frenético, aplaudindo as boas fases do jogo e essas constituíram quase toda a partida”3. No cômputo dos três jogos, o Casa Pia marcou seis golos e sofreu apenas um. Assinale-se que o tento do Fayal Sport foi obtido por Júlio Andrade, mais tarde conhecido jornalista e escritor. Esse feito é assim relatado por um espectador: “Júlio Andrade apodera-se da bola, foge pela esquerda numa corrida vertiginosa, e sempre em linha recta sem se desviar de ninguém, passa além das defesas do Casa Pia, e com um pontapé soberbo, cola a bola às redes casapianas. A assistência, de pé, electrizada, delira de entusiasmo, e até que a bola volte ao centro, as palmas parece não terem fim” 4.

Da valiosa equipa do Casa Pia faziam parte excelentes jogadores, quatro deles internacionais, entre os quais o seu capitão Cândido de Oliveira. Este viria a ser treinador e seleccionador nacional, além de destacado jornalista, tendo sido, com Vicente de Melo e Ribeiro dos Reis, fundador do conhecido jornal “A Bola”. Em extenso depoimento que concedeu a “O Telégrafo”, Cândido de Oliveira disse a determinado passo: “O futebol no Faial, pelo que me foi dado observar nestas três agradáveis partidas, adquiriu já um desenvolvimento que muito deve lisonjear os faialenses. E levo, até, desta visita, a impressão que dentro em alguns anos o futebol faialense não representará só um valor que não devemos desprezar no Continente, mas, também, um dos mais vigorosos esteios deste belo desporto no nosso País”. E afirmava isto baseado em três condições que considerava essenciais para o sucesso do desporto-rei e que encontrara no Faial: “um bom núcleo de jogadores, um público numeroso e assaz educado e a simpatia das damas faialenses”5.  Não é possível, neste espaço registar o que foram, além dos jogos, as recepções, as visitas turísticas à Caldeira, a volta à ilha, o passeio ao Pico e as demais homenagens dispensadas à caravana do Casa Pia. A cordialidade e as inúmeras manifestações de estima deixaram encantados os nossos visitantes. De tal modo que Cândido de Oliveira, em postal enviado ao “Meu Caro Luiz” [Morisson] – pai de Fernando Morisson actual possuidor desse documento, que o jornalista Luís Rosa divulgou – diz a certa altura, a bordo do vapor Lima, no regresso a Lisboa, que, “passamos bons bocados a recordar-vos e à vossa terra (…) Todos eles têm muitas saudades daí e comigo sucede outro tanto. Muito gostaria que em vez de 9 dias aí pudéssemos passar um ou dois meses”6 . Esta visita do Casa Pia constituiu mais uma prova de que a Horta era, e foi durante muitos anos, a “Capital dos Desportos Açorianos”, por nela se praticarem, em nível superior às outras cidades do arquipélago, as mais diversas modalidades desportivas. Essa importância seria de imediato potenciada, pois um dos resultados da visita do Casa Pia foi o aparecimento em Janeiro de 1923 do Angústias Atlético Club – com equipamento igual àquela formação lisboeta – e, em 28 de Maio do mesmo ano, do Sporting Clube da Horta, ainda hoje os três clubes mais antigos e com mais palmarés no desporto faialense e açoriano.

1O Telégrafo, 7 Junho 1922

2“O Telégrafo”, 1922, Junho 30 (8.169), p. 1

3  Idem, Ibidem

 4“A Democracia”, 1922, Junho 30 (2.ª série, n.º 1.577), p. 1

  5“O Telégrafo”, 1922, Julho 3 (8.170), p. 1

 5 Idem, 2003, Março 17, p. 1

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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