D. Frei Alexandre da Sagrada Família: faialense que foi Bispo de Angra

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Criada em 3 de Novembro de 1534 pelo Papa Paulo III a Diocese de Angra foi até ao presente governada por 39 prelados, sendo apenas dois deles naturais dos Açores: o faialense D. Frei Alexandre da Sagrada Família (1816-1818) e o mariense D. António de Sousa Braga (1996-2016).
D. Frei Alexandre da Sagrada Família nasceu na cidade da Horta a 23 de Maio de 1737, filho do alferes de ordenanças e proprietário José Ferreira da Silva e de sua mulher Antónia Margarida Garrett, natural de Madrid. Muitos dos seus biógrafos assinalam que nasceu a 22 daquele mês e ano, mas a fazer fé na data que está no seu assento de baptismo, o mesmo terá ocorrido no dia imediato. É isso que resulta de uma leitura atenta desse assento que, em parte, se transcreve: “Alexandre, filho legítimo de José Ferreira da Silva, natural da paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai da cidade de Lisboa e de sua mulher Dona Antónia Margarida, natural da paroquial de São Martinho da Corte de Madrid, nasceu em os vinte e três dias do mês de Maio do ano de mil setecentos e trinta e sete e foi baptizado nesta Matriz do Salvador pelo reverendo ouvidor Domingos Pereira Cardoso em os dois dias do mês de Junho do dito ano (…)”1.

Era o primogénito de 10 filhos, entre os quais se encontravam António Bernardo da Silva, pai do escritor Almeida Garrett, Manuel Inácio da Silva, que foi arcediago da Sé de Angra, e Inácio da Silva Garrett, cónego da mesma Sé. Pouco se sabe da sua infância ou adolescência vividas no Faial. Certo é que em 1758, portanto com 21 anos de idade, era já clérigo de prima tonsura, ainda estava no Faial, embora nesse mesmo ano se tenha matriculado na Faculdade de Medicina de Coimbra, talvez decidido – como acentua a sua biógrafa Ofélia M. Caldas Paiva Monteiro – a deixar a vida religiosa “para mais intensamente responder ao vivo interesse que a ciência lhe despertara”2. Mas, o seu fervor eclesiástico foi mais forte e, abandonando a formatura, tomou o hábito de noviço no convento franciscano de Brancanes (próximo de Setúbal) onde professou a 13 de Junho de 1762 com o nome religioso de Frei Alexandre da Sagrada Família. Homem de intensa vida apostólica, nunca deixou de cultivar os seus indesmentíveis talentos literários. Está provado ter sido director espiritual da escritora Marquesa de Alorna (D.ª Leonor de Almeida), a Alcipe da Arcádia Lusitana, que o mesmo Frei Alexandre integrou com o nome de Sílvio. Considerado pela sua vasta erudição e comprovada humildade foi nomeado, a 24 de Outubro de 1781, para o Bispado de Malaca e Timor, sendo sagrado na igreja da Trindade, em Lisboa, a 24 de Fevereiro de 1783.

Não tendo seguido para Malaca, foi transferido para Luanda, a 3 de Junho de 1784, para a diocese de Angola e Congo como governador e administrador daquele bispado onde trabalhou cerca de três anos. Estava ele em Angola quando, em15 de Junho de 1791 foi eleito sócio-correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, enfileirando ao lado de um Abade Correia da Serra, de um Fr. Manuel do Cenáculo, ou de um Padre Teotónio de Almeida, que Garrett afirmou terem sido íntimos amigos e admiradores de seu tio. Permaneceu quatro anos em Angola (1784-1788). Ali desenvolveu uma actividade apostólica prodigiosa que esteve na origem dos inevitáveis conflitos que o opuseram às autoridades civis, primeiro ao governador de Benguela e, depois, ao governador-geral de Angola. Dotado “de excepcional inteireza de carácter, mas temperalmente violento e incapaz de se amoldar a uma diplomática dobrez de atitudes que interferisse com o Evangelho”, D. Frei Alexandre demitiu-se do governo da Diocese e regressou à Metrópole, retirando-se para o convento de Brancanes, onde ao seu fervor religioso associou intensa actividade literária, repartida entre a poesia, o constante estudo da língua e dos nossos clássicos e a elaboração de alguns ensaios espantosamente lúcidos sobre problemas urgentes da vida nacional.

Por ocasião das invasões francesas, ele que era opositor tenaz da ideologia que parecia submergir Portugal, resolveu buscar refúgio na ilha Terceira, onde vivia o irmão cónego Inácio da Silva Garret, residindo numa casa da rua de S. João, em Angra. Foi “neste período que leccionou o sobrinho”3, o futuro e imortal Almeida Garrett. Apesar da sua avançada idade, D. Frei Alexandre foi por duas vezes dos Açores ao Brasil, a fim de requerer ao Príncipe Regente auxílios para os seus familiares. Na última dessas deslocações foi nomeado Bispo de Angra (17.12.1812). Por haver à época um conflito entre o Núncio Apostólico e o Cabido de Angra, e porque D. Frei Alexandre se mostrou favorável à opinião do Cabido, a sua confirmação episcopal só veio em 1816. Com 81 anos de idade, faleceu em Angra, a 23 de Abril de 1818. Foi sepultado na capela de Santo António dos Capuchos, hoje igreja de Nossa Senhora do Livramento, na sede da diocese. Está perpetuado na toponímia da cidade da Horta, desde 4 de Novembro de 1863 quando a Câmara Municipal deliberou que o largo do Paúl se passasse a chamar Largo do Bispo D. Alexandre4.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 B.P.A.R.H. Livro n.º 4 de Baptismos da paróquia da Matriz, de 29.3.1735 a 6.7.1753, fl. 169-v.
2 Ofélia M. Caldas Paiva Monteiro, “D. Frei Alexandre da Sagrada Família e a sua espiritualidade e poética”, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1974
3 Cónego Pereira, “A Diocese de Angra na História dos seus Prelados”, Angra do Heroísmo, 1950, p. 200
4 B.P.A.R.H. Livro de Vereações n.º 32, fls. 229 e ss.

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