Manuel Tânger, como era conhecido entre os estudantes do Liceu da Horta, fez parte do grupo de jovens que, na década de trinta do século XX, se distinguiu no cultivo das Letras e do Teatro. Ainda recentemente se assinalou neste espaço – no esboço biográfico de seu irmão António da Cunha Correia Júnior – que a esses jovens se ficou a dever a criação do jornal “Mocidade Académica”, acontecimento que terá sido marcante nos respectivos percursos de vida.
Segundo filho de António da Cunha Correia – funcionário dos Correios e Telégrafos – e de D. Zélia Maria de Medeiros Tânger, dona de casa, Manuel Tânger Correia nasceu em Santa Cruz das Flores a 24 de Outubro de 1913 e, além do primogénito António, teve ainda mais três irmãos: Raul Tânger da Cunha Correia, oficial do Exército que, tal como seu tio materno Manuel de Medeiros Tânger foi presidente da direcção do Fayal Sport Club; Mário Tânger da Cunha Correia e Humberto Tânger da Cunha Correia.
Concluído o curso liceal, Manuel Tânger matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, que frequentou até ao 3.º ano e onde, segundo relata o seu grande amigo Dr. José da Silva Peixoto, terá sido “vítima da hostilidade manifesta do titular da cadeira de Direito Administrativo”, levando-o a optar pela Faculdade de Letras. Fez um curso brilhante, “licenciando-se com muito mérito, devido ao seu inegável talento e ao seu trabalho probo, eriçado de dificuldades”.
Trabalhador-estudante, Manuel Tânger trouxe consigo para Lisboa, dois irmãos mais novos, de “cuja educação se encarregou”. Para isso, não só “dava explicações aos filhos do hospedeiro, em troca do alojamento para si e para os irmãos” como mantinha “outros cursos com lições em casa dos explicandos” e só quando terminava esta estafante missão é que se entregava à sua preparação académica.
Apesar destas árduas tarefas, manteve sempre grande amor pelo Teatro, onde “esbanjou talento, saúde e os seus preciosos ócios de escolar em férias”1 .
Esse amor nasceu no Liceu e desabrochou no grupo cénico do Angústias Atlético Club criado em 1935, que teve como encenador o professor António Pinheiro de Faria e onde actuaram amadores de inegável mérito. Entre eles, estava, desde a primeira hora, Manuel Tânger Correia que, mesmo quando a família já residia em Lisboa, vinha “expressamente ao Faial para integrar o elenco do grupo”, ficando instalado “em casa de amigos mais próximos, mas com a construção da nova sede passou a dispor de um quarto que lhe era expressamente destinado, devidamente mobilado2” . A temporada teatral do Atlético, que atingia ponto alto nos meses de Agosto e Setembro, trazia Manuel Tânger até à Horta e, mesmo durante a sua estada, não deixava de dar explicações “do 1.º ao 6.º ano dos liceus” e de preparar “para exames de aptidão às faculdades de Letras e Direito” 3. Antes do seu regresso a Lisboa, era distinguido com uma festa de homenagem que, avaliar pelas notícias dos jornais locais, decorria sempre “com bastante entusiasmo, sendo grande a concorrência”4 , e que “coroava com infindáveis palmas o trabalho de Manuel Tânger tributando-lhe assim a seu mais vivo testemunho de simpatia e admiração” ele que já se destacava como “um valor seguro da nova geração, de que é um dos primeiros e um filho deste distrito de quem há muito a esperar na certeza inabalável que há-de honrar a terra que lhe foi berço”5 . Além de professor particular, Manuel Tânger dirigiu, enquanto estudante, o Grupo de Teatro Moderno da Faculdade de Letras de Lisboa, ao qual dedicou grande entusiasmo que se traduziu numa intensa actividade, assinalada de modo especial, pela representação de peças de autores consagrados como Raul Brandão, Miguel Torga, José Régio ou Garcia Lorca. Frequentou também o curso do Conservatório Nacional e concluiu a licenciatura em Filologia Românica em 1951, apresentando e defendendo a tese intitulada “António Patrício, poeta trágico”. Fez crítica literária na imprensa de Lisboa, foi professor liceal e, de 1952 a 1955, leitor de Português na Universidade de Poitiers e na Faculdade Católica de Paris.
Nos primórdios da Televisão em Portugal (1956) foi convidado para director de programas da RTP, “funções em que, conforme salientou o matutino ‘O Século’, a despeito do interesse e carinhoso apoio que dispensou ao Teatro e aos artistas, não deixou de sofrer – pelo seu espírito independente – contrariedades e perseguições que o abalaram profundamente”. Dedicou-se depois à carreira diplomática, tendo exercido durante alguns anos o cargo de adido cultural na embaixada de Portugal no Brasil, onde foi intensa a acção dispendida na promoção da nossa literatura. “Investigador inteligente e profundo, deixou publicados vários ensaios, assim como alguns estudos ainda inéditos, sendo de referir os que consagrou a António Patrício, Antero de Quental, Raúl Brandão e outros” 6.
Casara em 1948 com D. Maria Germana Dias da Silva Moreira, a conhecida e famosa Maria Germana Tânger, que foi actriz, encenadora, professora de dicção no Conservatório Nacional, colaboradora da RDP e RTP e grande divulgadora por todo o mundo dos principais poetas e prosadores portugueses. Tiveram um filho, o Dr. António Manuel Moreira Tânger Correia, que seguiu a carreira diplomática atingindo o cargo máximo de embaixador.
Vítima de um acidente de viação numa estrada espanhola próxima de Valladolid, o Dr. Manuel Tânger Correia, que à época desempenhava as funções de cônsul de Portugal em Gijón, faleceu aos 61 anos de idade e foi sepultado a 24 de Janeiro de 1975 no cemitério de Queluz, distrito de Lisboa.
1 Peixoto, José da Silva – O Telégrafo 13 Fevereiro 1975
2 Idem, in Lobão, Carlos M. Gomes – Angústias Atlético Club/Subsídios para a sua história, 1991, p. 129
3 Correio da Horta, 1 Agosto 1939
4 O Telégrafo 29 Setembro 1938
5 Correio da Horta, 29 Setembro 1939
6 O Século 24 Janeiro 1975 cit. em O Telegrafo 30 Janeiro 1975












