CORVINO QUE SE DISTINGUIRAM – MANUEL HILÁRIO (1882-1974) Secretário municipal e lavrador

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Nasceu na freguesia e concelho da ilha do Corvo em 30 de Outubro de 1882, filho de José Francisco Hilário e de Maria de Jesus Machado, que seriam ele agricultor e ela doméstica, conforme verificámos no seu registo paroquial de nascimento, tal como acontecia nesse tempo com a grande maioria dos corvinos. Era pai de João Emílio Pombo, que durante vários anos exerceu lá a chefia da Câmara Municipal, e avô de Hélio Pombo, nosso colaborador neste trabalho, que foi funcionário público regional e também deputado regional durante vários mandatos e de Lídia Maria Pombo Ângelo Rodrigues, que é professora aposentada em Painho, Cadaval.  

Embora se desconheça se frequentou estabelecimentos oficiais de ensino, sabia ler e escrever acima do que era normal nos habitantes da ilha, pelo que se cultivava e possuía uma cultura bastante acima da média da sociedade onde estava inserido.

Talvez por possuir essa instrução, já que se desconhece se frequentou qualquer estabelecimento de ensino secundário, ocupou o cargo de secretário da Câmara Municipal de Ilha do Corvo, no tempo em que as licenciaturas são estavam ao alcance de alguns beneficiados. Para além disso, era lavrador ou agricultor, como geralmente o eram todos os corvinos do seu tempo, cuidando ele próprio da sua lavoura, até porque na ilha não existiam empregados agrícolas. 

Por tudo isto, lembra-se que o escritor Raul Brandão quando visitou a ilha do Corvo, em 1924, evidenciou que lá “Não há ricos nem há pobres, e neste mundo isolado tanto faz ser rico como pobre: o homem mais rico do Corvo anda descalço como os outros e lavra a terra com os filhos. O Pedreiro é pedreiro e lavrador, o ferreiro é ferreiro e lavrador”. E mais à frente escreve ainda que “Ninguém se sujeita a servir — […] (1)”.Na ilha das Flores também era semelhante, sobretudo durante a minha juventude (1940/50), em que o baleeiro era pescador, lavrador e pedreiro. As actividades complementavam-se umas às outras com imensa frequência, pelo que eram poucos os florentinos que se militassem a possuir apenas uma. 

Entretanto, em 24 de Setembro de 1905, Manuel Hilário casou com Filomena Emília, filha de João Francisco Inocêncio e de Mariana de Jesus Ana, ambos proprietários.  Era pai de João Emílio Pombo, que se distinguiu como Chefe da Secretaria Municipal do Corvo e de outros serviços públicos da ilha, bem como avô da professora Lídia Maria Pombo Ângelo Rodrigues, e de Hélio João Pombo que se distinguiu como funcionário e como deputado regional.  

Uma das actividade que Manuel Hilário mantinha com gosto e que lhe permitia alargar os seus contactos e a sua cultura era o facto de ser o correspondente de vários jornais de língua portuguesa a nível Açores e Continente Português, bem como a nível das comunidades portuguesas designadamente nos Estados Unidos da América.

Muitos desses seus trabalhos eram abrangentes, servindo para levar aos leitores, em mais de um desses periódicos, notícias, comentários e crónicas da ilha do Corvo. Desses jornais destaca-se o “Jornal-Rádio”, “O Florentino” e “As Flores”, todos de Santa Cruz das Flores.

Manuel Hilário teve a felicidade de ter nascido no tempo da Monarquia, de ter vivido nos regimes da 1.ª República e do Estado Novo, tendo falecido em 22 de Abril de 1974, portanto três dias antes da queda do “Salazarismo”, resultante do Golpe de Estado do “25 de Abril de 1974” que veio instituir a democracia. Quando faleceu tinha a bonita idade de 92 anos. 

Era uma figura pública muito conhecida e popular, quer na ilha que o viu nascer, quer fora dela, designadamente na ilha das Flores, onde tinha muitos amigos e conhecidos. Apesar da sua limitada instrução, distinguiu-se como orador e como articulista de razoável mérito para o meio em que vivia.

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Fonte: Trigueiro, José Arlindo Armas, “A Ilha do Corvo e as suas Gentes”, (2011), edição das Câmara Municipal do Corvo; Elementos curriculares fornecidos pelo seu neto, Hélio Pombo, arquivados nos meus documentos em 5-9-2008; Brandão, Raul (1926), “Ilhas Desconhecidas”, 2002, p. 27, edição, P&R - perspectivas & realidades.   
(1). Brandão, Raul, (1926), “Ilhas Desconhecidas”, 2002, p. 27, edição, P&R - perspectivas & realidades
 

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