DR.ª MARIA JOSÉ VENTURA ANACLETO (1956-….) Professora do ensino secundário

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Nasceu na vila e concelho da ilha do Corvo em 26 de Junho de 1956, filha de José Anacleto e de Maria Ermelinda Anacleto, ele agricultor e ela doméstica, o que para a ilha significa possuírem meios precários de subsistência, como referiu o escritor Raul Brandão.

            Na sua terra natal concluiu a Instrução Primária, com bom aproveitamento, demonstrando, desde logo, capacidade e desejo para continuar os estudos. Assim, no Externato da Imaculada Conceição de Santa Cruz das Flores fez o exame de admissão ao Liceu.

            Seguidamente, com a idade de 10 anos, em 1966 rumou à cidade da Horta onde foi aluna interna do Colégio de Santo António, tendo concluído o Curso Geral dos Liceus, com exames realizados no Liceu Nacional da Horta. Para além de ser muito dedicada, era extremamente inteligente, pelo que foi sempre estimulada pelos professores para continuar os seus estudos.

            Assim, fez o Curso Complementar do Liceu, mas agora já como aluna externa, concluindo-o com notas tão altas na prova escrita que ficou dispensada de ir às provas orais. Deste modo, pôde regressar logo ao Corvo, portanto antes de acabarem os exames para os que tinham de fazer essas provas nesse ano. Estava-se em 1973.

            No Corvo, poucos dias depois, era dia de “Dia de S. Vapor”. Passava rumo às Flores o navio “Carvalho Araújo” e a ilha era visitada pelo Ministro – Adjunto do Conselho de Ministros, Dr. Mota Campos. Estava ela a arrumar a sua colecção de selos, quando a mãe quase a obrigou a ir para aquela “folia”. Na ocasião em que ela chegou ao porto, como o Ministro estava a tentar saber se na ilha havia jovens a estudar, o Presidente da Câmara Municipal do Corvo — que no tempo era, por sinal, o seu padrinho, Prof. Alfredo Lopes — apresentou-a ao Dr. Mota Campos, como uma estudante distinta. Este ficou muito admirado por ouvir dizer que ela acabara de concluir na Horta o Curso Complementar dos Liceus, quando todo o País ainda andava em exames, como ele sabia. Então o Prof. Lopes apressou-se a informá-lo de que ela era muito inteligente e que havia dispensado das provas orais. O Ministro imediatamente se ofereceu para lhe arranjar uma bolsa de estudos em Lisboa — a que aliás tinha direito em função da sua boa classificação e da situação precária da economia dos pais — para ela poder avançar para os estudos universitários. Era um direito que ele conhecia ser possível. Assim, aí ficou logo garantida a bolsa de estudos, pelo que só faltavam as questões burocráticas que todos prometeram resolver.

            Hoje ela ainda se surpreende como um facto — o seu encontro com o Ministro na ilha do Corvo — que lhe parecia não ter importância, acabou por influenciar toda a sua vida futura.

            Assim, foi tudo arranjado como estava previsto e a Maria José seguiu, em 1973, para Lisboa a fim de iniciar estudos universitários. Até o boletim de passagem no navio “Carvalho Araújo” foi-lhe oferecido, como prémio, pela “dona do barco” ou gerente da Empresa Insulana de Navegação desse tempo. Em Lisboa matriculou-se na Faculdade de Letras, tendo-se licenciado em Filologia Germânica, cujo curso viria a concluir no ano lectivo de 1979/80, apesar de ter suspendido os estudos durante cerca de dois anos por motivos de saúde.

            Aí chegou a recusar emprego que lhe queriam oferecer, já que desejava ter a maior disponibilidade possível para concluir o respectivo curso, decisão essa que contou com o apoio dos próprios pais que, apesar da sua pobreza, desejavam que ela fizesse o que achasse ser melhor para si. O curso era um desejo e uma riqueza que tinha para ela imenso e nobre significado, quer como princípio de realização profissional, quer certamente o facto de corresponder à sua própria vocação.

            Mas não se julgue que tudo foram rosas para a Maria José, garantida que estava a bolsa de estudos, uma vez que, entretanto, o regime foi substituído em “25 de Abril” de 1974 e surgindo novas normas e exigências diferentes. Por outro lado, a garantia da bolsa não era tudo. Surgiram imensos problemas que só ela sabe as dificuldades por que passou, agravadas com o seu débil estado de saúde.

            Como pretendia regressar aos Açores, acabou por aceitar e comprometer-se a prestar serviços por três anos no Ensino Secundário açoriano. Assim, voltou para a cidade de Ponta Delgada, onde fez estágios e começou a ensinar na Escola Secundária Roberto Ivens, depois de ter feito um documento notarial no qual ela se comprometia a aceitar aquele acordo com a Região.

            Hoje ainda se encontra a leccionar nessa Escola, realizando-se profissionalmente no ensino a crianças, preferindo-as aos adolescentes indisciplinados e desrespeitadores.   

             Visita a ilha do Corvo com frequência, matando saudades dos familiares, amigos e lugares que lá deixou. E foi precisamente aí que nos conhecemos, pela ocasião das festas de homenagem a Nossa Senhora dos Milagres de 2011, onde, para além falarmos, estivesse sentado lado a lado a conversar com o pai no banco da tertúlia corvina, sem inicialmente eu adivinhar que era ele o pai da Dr.ª Maria José Anacleto, que no dia seguinte lá chegou para as suas férias habituais.

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            Fontes: Elementos curriculares fornecidos telefonicamente pela própria e arquivados nos meus documentos em 28-6-2009.     

Foto 1. A Dr.ª Maria José Anacleto, distinguiu-se pela sua dedicação e inteligência

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