CORVINO QUE SE DISTINGUIU – PADRE FRANCISCO LOURENÇO JORGE (1882-1918) Sacerdote e cronista

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Nasceu na ilha do Corvo em 4 de Outubro de 1882, filho de Carlos Lourenço Jorge e de Maria de Jesus Nascimento. Era neto paterno de Jorge José Lourenço e de Rosa Mariana e materno de Manuel do Nascimento e de Maria de Jesus. Dos dez irmãos que teve, sabe-se que o irmão, Manuel Carlos George Nascimento (1885-1966) emigrou para os Estados Unidos da América e depois para o Chile, onde foi figura importante nas letras e na cultura, tendo tido uma livraria e uma editorial onde foram editados livros dos mais distintos escritures e poetas chilenos, entre os quais Pablo Neruda e Gabriela Mistral.  

Em 1896 Francisco Jorge ingressou no Seminário da Angra, cujo curso de Teologia concluía em Junho de 1904. Depois de adequados estudos e estágios, exigidos nesse tempo, foi ordenado presbítero em 23 de Setembro de 1905 na igreja do Seminário Diocesano de Angra, onde deverá ter concluído o curso.

E foi na Igreja da sua terra natal, dedicada a Nossa Senhora dos Milagres, que celebrou a sua primeira Missa em 22 de Outubro desse ano, denominada “Missa Nova”. 

Foi nomeado cura na freguesia da Piedade do Pico, na qual foi empossado em 18 de Novembro de 1905. Aí permaneceu algum tempo, de onde viria a ser transferido para igual cargo na sua terra natal, a ilha do Corvo, cujo cargo terá assumido em 23 de Janeiro de 1909. 

Seguindo o rumo açorianos, particularmente de muitos corvinos, na sequência das perseguições à Igreja Católica promovidas pela I República após a queda da Monarquia — mesmo nos meios mais pequenos do País — emigrou em Setembro de 1912 para os Estados Unidos da América. Aí, em 7 de Fevereiro de 1913 foi colocado na Igreja de Nossa Senhora do Carmo de New Bedford. Com a sua dedicação e simpatia, conquistou a admiração e a amizade de muitos paroquianos, nomeadamente de luso-americanos. Inesperadamente, em 19 de Outubro de 1918 adoeceu gravemente, tendo acabado por falecer em 27 do mesmo mês, “confortado com todos os Sacramentos da Igreja”, como escreveram os seus amigos e admiradores.

O seu funeral, que se realizou no dia 30 desse mês, foi presidido pelo “Bispo da Diocese estando presente para cima de quarenta sacerdotes, muitos portugueses e de outras nacionalidades”, referiram aqueles seus amigos e admiradores. O vasto templo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo estava cheio, segundo dizem eles. Os seus restos mortais foram sepultados no Cemitério de S. João Baptista, no lote central, que se destinava aos padres, na cidade de New Bedford.

Apesar de ter apenas 36 anos de idade, quando faleceu já gozava de grande credibilidade e simpatia, tendo alguns dos seus amigos de New Bedford publicado várias artigos com referências elogiosas, os quais vieram a ser editados na brochura mencionada à margem, intitulada «“In Memoriam” do Padre Francisco Lourenço Jorge» (1).   

No arquivo dessa igreja esteve guardada a cópia das “Visitas Pastorais feitas à Ilha do Corvo desde 1660 a 1896, crónicas históricas elaboradas pelo Padre Lourenço Jorge, e cujo original, bem como todo o arquivo paroquial foi destruído pelo incêndio que deflagrou em 1932 na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, da ilha do Corvo. Esta informação é-nos dada pelo o investigador e historiador florentino Francisco António Gomes no seu livro “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, na sua edição de 2003 (2).

Assim, organizado pelo Dr. João Saramago em 2001, a Câmara Municipal do Corvo mandou editar um excelente livro, com o título de “Notas do Corvo”, baseado naquela cópia trazida da referida igreja americana pelo Padre Manuel Francisco Escobar, da ilha do Faial. Nele, o seu organizador descreveu excelente passado histórico da ilha do Corvo, ao qual foram anexadas fotografias e desenhos artisticamente elaborados, respectivamente, por Jorge de Barros e João Machado. Na investigação que fez para esse trabalho, o seu organizador serviu-se dos elementos da autoria do Padre Lourenço Jorge, onde se encontram variadíssimos temas, desde o descobrimento (1452) e povoamento do Corvo até 1912, designadamente os seguintes: “Dinheiro, Naufrágio, Bailes e Festas, Igreja, Atafonas, Moinhos de água e Moinhos de vento, Pão, Vestuário, Água, Estudo por Jerónimo, Construções, Escola Primária, Correio e Telegrafo, Contribuições, Exportação, Importação e República” (3).

Trata-se de uma obra com elevada qualidade, com excelente apresentação, que descreve factos muito importantes para a História da ilha do Corvo. Por ela se pode imaginar a aptidão e a cultura histórica que o Padre Francisco Lourenço Jorge ostentava, apesar de ser ainda muito jovem quando lançou mãos àquele trabalho. Igual elogio merece o organizador do livro, Dr. João Saramago, face à aptidão e interesse que demonstrou para preservar os temas históricos relativos à sua terra natal, no qual se vislumbra a sua elevada cultura.

Bibl: Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, (2003), “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, p. 248, 2.ª Edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; fotocópia do registo paroquial de nascimento arquivada nos meus documentos em 23-9-2008; Jorge, Padre Lourenço “Notas do Corvo”, Organização de João Saramago, Fotografia de Jorge de Barros e Design de João Manchado (2001), edição da Câmara Municipal do Corvo; “Memórias Corvinas” (fotos da comitiva do Príncipe Alberto I do Mónaco e de outras figuras ilustres), 2001, edição de Câmara Municipal do Corvo; Brochura do Padre Francisco Lourenço Jorge, “In Memoriam” , New Bedford, Mass, contendo artigos de Dezembro de 1918, fornecida pelo corvino Rafael Mendonça Nascimento, residente na cidade de Ponta Delgada, e arquivada nos meus documentos em 12-4-2010; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Histórias e Gentes da Ilha do Corvo”, 2011, pp. 154 a 156, ed. da Câmara Municipal do Corvo.   

(1). Brochura do Padre Francisco Lourenço Jorge, “In Memoriam” , New Bedford, Mass, contendo artigos de Dezembro de 1918, fornecida pelo corvino Rafael Mendonça Nascimento, residente na cidade de Ponta Delgada, e arquivada nos meus documentos em 12-4-2010;

(2). Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, (2003), “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, p. 248, 2.ª Edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores;

(3). Jorge, Padre Lourenço  “Notas do Corvo”, Organização de João Saramago, Fotografia de Jorge de Barros e Design de João Manchado (2001), edição da Câmara Municipal do Corvo.

 

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