Lajes: foram-se os BENS ficaram os males

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A minha geração foi beneficiada com a instalação da Base das Lajes que trouxe, durante várias décadas, um nível de vida superior ao que os terceirenses estavam habituados. Muitos jovens da minha idade e uma grande parte dos meus colegas da escola primária, ali arranjaram emprego, depois de terem passado pelo Campo do Golfe, na qualidade de caddies. Ali aprenderam a língua inglesa que lhes facilitou a entrada no Posto Um, com um trabalho nos mais variados serviços que proliferavam naquela pequena amostra do que era a sociedade americana. O pesadelo de ter que trabalhar “nas vacas” afastou-se da mente de muitos deles, arranjando um emprego de mãos limpas, abrigado da chuva e salário certo no fim da quinzena.

Foi assim durante muitos anos, para milhares de terceirenses mas também para milhares de açorianos de outras ilhas que aqui se instalaram. À lista das coisas boas resultantes da presença americana, também se pode acrescentar outras que marcaram negativamente a sociedade terceirense: a degradação social, consequência de aglomerações repentinas de populações vindas de fora, os chamados bairros de lata, a que não estávamos habituados, e a proliferação da prostituição, foram o preço que alguns tiveram que pagar. 

Enquanto os Açores serviram os interesses estratégicos americanos, o número de funcionários cresceu, tornando a economia da ilha muito dependente da vida que girava em torno da Base. Mas quando esses interesses estratégicos se alteraram, a Terceira deu uma cambalhota e não se vislumbra que as alternativas sugeridas sejam uma resposta às nossas necessidades.

Aquando da visita dos empresários americanos, houve quem acalentasse esperanças. Essa organização conhecida por BENS tiraria o coelho da cartola, com propostas compensadoras pela saída massiva de militares e civis americanos. Pelo que se leu e ouviu, não havia coelho (para além do Passos) nem cartola. Do mesmo modo, figuras de relevo da estrutura política americana fizeram afirmações contraditórias quanto ao número de americanos a manter e da respetiva proporção de portugueses a conservar na Base. Para cúmulo desta desgraça, o Governo da República não tem mostrado o empenho que se exige num caso com esta gravidade. 

Na qualidade de deputado pelo Partido Socialista, tenho tomado várias iniciativas, juntamente com o deputado Ricardo Rodrigues, com o objetivo de lembrar ao Governo da República as suas responsabilidades e chamar a atenção para a defesa dos trabalhadores da Base.

Recentemente, no início do mês de maio, voltamos a manifestar a nossa preocupação com o andamento das negociações no âmbito da reestruturação que está em curso, depois de já termos censurado o Governo por andar de braços cruzados, sem vontade de se opor às propostas vindas dos Estados Unidos. 

A evolução dos acontecimentos veio mostrar que tínhamos razão, quando foi divulgado recentemente um comunicado da Comissão de Trabalhadores denunciando a passividade referida.

Aconselha o bom senso que, na impossibilidade de evitar despedimentos, se proponha que sejam abrangidos, em primeiro lugar, os trabalhadores mais antigos. Como é do conhecimento geral, muitos destes trabalhadores estão na disposição de negociar a rescisão do contrato de trabalho. De acordo com o mesmo comunicado, o Governo americano prefere e pretende despedir os trabalhadores mais novos, com todas as consequências sociais daí decorrentes, não tendo havido da parte dos representantes do Governo português na Comissão Bilateral qualquer reação oposta.

Esta medida é bem reveladora da intenção de aniquilar o emprego na Base das Lajes: despede-se primeiro os mais novos, de modo a que os mais velhos, quando atingirem a idade da reforma, não sejam substituídos. 

Perante os factos divulgados, os deputados do Partido Socialista, eleitos pelos Açores, perguntaram aos Ministros dos Negócios Estrangeiros e ao da Defesa se confirmavam a proposta norte-americana de despedimento dos trabalhadores mais novos na Base das Lajes; se concordavam com esta proposta, e, caso contrário, que medidas pretendem propor para, na inevitabilidades dos despedimentos, minorar as consequências sociais e económicas que pesam sobre a ilha Terceira.

Aguardamos as respostas, mas se forem tão evasivas como as anteriores, é de prever que os males tenham vindo para ficar. 

 

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