CURRÍCULO REGIONAL E ESCOLAS PRIVADAS

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 1. Na passada semana a Assembleia Regional aprovou o chamado Currículo Regional. Infelizmente, aquele que podia ter sido um diploma tendencialmente consensual, capaz de agregar, pela sua importância e significado, não só as várias forças partidárias mas também toda a comunidade educativa, acabou por se transformar num diploma de ruptura e que acabou por ser aprovado apenas com os votos do partido maioritário e sem ter em conta a maioria dos pareceres das nossas escolas. Depois de ter positivamente andado a dormir sobre o assunto, à última da hora o governo deu-lhe um ataque de pressa e tudo passou a ser urgente: pediram-se pareceres às escolas para "ontem" e eles foram chegando, mesmo depois do diploma já aprovado, numa clara e lamentável desconsideração pela comunidade educativa. Avançou-se com um "currículo regional" que se assume como integrado no nacional, mas que desprezou, neste passo em frente, a circunstância de que o currículo nacional vai ser alterado. Quando em muitas escolas e junto de muitos docentes é cada vez mais consensual que os actuais blocos de 45 e 90 minutos necessitam de ser repensados e até mesmo alterados, não se aproveitou esta ocasião para essa reflexão. Finalmente, à última hora, e face às críticas generalizadas e à própria incongruência do diploma, foi decidido aumentar a carga horária nalgumas disciplinas, em clara contradição com o objectivo anunciado do currículo regional e que era reduzir a carga horária dos alunos. Enfim, o governo e o partido que o suportam continuam incapazes de promover políticas educativas que resultem do envolvimento da comunidade educativa e, apesar das boas expectativas iniciais da nova equipa de educação, a verdade é que depressa ela está à regressar aos tiques do tempo anterior, agravados com um autoritarismo imaturo e  deslocado!

E continua sem perceber que não há mudanças efectivas e duradouras em educação sem que os professores as compreendam e nelas se envolvam.

2. Já aqui por diversas vezes deixei expressa a minha preocupação com a  descredibilização que está a vitimar o ensino público. E o melhor exemplo disso é ver-se que em todo o sítio onde há ensino privado, os pais que tem meios económicos, optam cada vez mais por retirar os seus filhos das escolas públicas e inscrevem-nos nas escolas privadas. De acordo com testemunhos prestados, esses pais procuram nas escolas privadas um ambiente seguro, regras de disciplina, exigência e hábitos de trabalho, rigor no ensino e qualidade na aprendizagem, tudo atributos que a nossa escola pública vem perdendo a um ritmo galopante. Por alguma razão são escolas privadas aquelas que lideram, ano atrás de ano,  os rankings dos exames nacionais do 12.º ano! Por alguma razão, a escola privada que está a ser construída em Ponta Delgada e que deverá abrir no próximo ano lectivo, tem uma longa lista de pré-inscritos!

A comprovar a diferença que se aprofunda entre escolas públicas e privadas, aqui fica um testemunho que há dias ouvi a João Duque, no programa da SIC-Notícias "Plano Inclinado". No contexto das acções de sensibilização e de motivação aos alunos das escolas para a continuação dos seus estudos no ensino superior, que aquele professor realiza por todo País, ele partilhava a sua experiência: "Vou a escolas públicas e privadas. E nota-se infelizmente uma diferença abissal na atitude dos alunos nas escolas privadas e nas escolas públicas. Os alunos das escolas privadas estão sentados, silenciosos, ouvem e perguntam. Na escola pública há um ambiente de burburinho, de confusão, de difícil diálogo que, imagino eu, se é aquele o ambiente da sala de aula, de facto só prejudica os interessados".

O problema é que aquele é que é mesmo o ambiente da maioria das salas de aula do ensino público. Que o digam os professores que se gastam a tentar criar condições mínimas para poderem cumprir aquilo para que são pagos: ensinar! A impunidade campeia na maioria das nossas escolas públicas porque não se conseguiu um ponto de equilíbrio entre a inclusão/ensino obrigatório e a defesa de um ambiente de escola onde impere a disciplina, o rigor e os hábitos de trabalho. A qualidade do ensino na maioria das nossas escolas públicas afundou-se porque se preferiram as estatísticas e os resultados imediatos e impôs-se um facilitismo desresponsabilizador que tudo submerge numa mediocridade contagiante.

O resultado deste estado de coisas é absolutamente intolerável: acentuou-se uma nova e injusta forma de diferenciação social entre, por um lado, quem pode garantir aos seus filhos um ensino privado, recorrendo às escolas privadas pagas a peso de ouro, ou, no mínimo, a um sistema oneroso de explicações que sejam supletivo da qualidade e das eventuais deficiências da escola pública ou do próprio educando, e, por outro lado, aqueles outros todos que, sem esses meios económicos, não têm outra solução a não ser deixar os seus filhos entregues à escola pública, prisioneira, na maior parte dos casos, de um sistema medíocre e desqualificante, o "eduquês" no seu melhor!


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