Da Horta a Lisboa: a primeira grande deslocação desportiva

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O que hoje não passaria de uma trivialidade, constituiu, para algumas dezenas de jovens do Faial e do Pico, um acontecimento singular – e inédito mesmo para muitos deles – em Setembro de 1962. Referimo-nos aos cerca de 60 atletas e dirigentes que, pela primeira vez na história destas ilhas, foram a Lisboa participar nos I Jogos Desportivos do Trabalho.
Tratou-se de uma organização da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) que, apesar de criada em 13 de Junho de 1935, só chegou aos Açores em 1954, precisamente à cidade da Horta, quando aqui foi instituída uma sua Delegação Distrital. Foi com prazer – diz o presidente da direcção da FNAT, Quirino dos Santos Mealha, em ofício de 10 de Novembro de 1954 dirigido ao Delegado na Horta do Instituto Nacional de Trabalho e Previdência, António Rebelo Frutuoso de Melo – que se resolveu “a criação desta Delegação dando satisfação aos desejos dos trabalhadores desse distrito” o que permitia “o alargamento e difusão do espírito corporativo”. E, na volta do correio, o delegado do INTP, (ofício n. 817, de 17-12-1954) dizendo-se arauto dos trabalhadores distritais, salientava “a grande satisfação e alegria” que a notícia neles provocou, já que viam “transformar-se em realidade aquilo que há alguns anos era apenas um sonho”. E, atendendo ao grande benefício que a criação da Delegação representava para o distrito da Horta, “pelo muito que poderá proporcionar aos seus associados, no que respeita a um maior desenvolvimento físico, moral e intelectual” afirmava que ela constituiria “um óptimo meio para difusão dos princípios” nacionalistas e corporativos preconizados pela doutrina do Estado Novo.
À semelhança do que se passava um pouco por todo o país, também o distrito da Horta, despolitizado e falho de recursos, acolheu e participou nas iniciativas da FNAT, fossem elas lúdicas ou recreativas, fossem desportivas ou culturais. Pouco depois da sua instituição, a FNAT do distrito da Horta revelava já assinalável actividade, promovendo os campeonatos de desporto corporativo em várias modalidades, os serões para trabalhadores e as sessões de cinema em comunidades rurais, incentivando a constituição de agrupamentos musicais e de ranchos folclóricos. É claro que nestas ilhas de reduzida dimensão populacional o seu campo de recrutamento de atletas e de artistas amadores ia frequentemente desembocar nas agremiações desportivas e recreativas já existentes, facto que, naturalmente, desagradava aos dirigentes destas instituições.
De qualquer modo a FNAT do distrito da Horta foi desenvolvendo iniciativas interessantes, ainda por cima num meio carenciado de tantas delas. Apenas no campo desportivo – que é, afinal, o assunto que aqui se destaca – promoveu, desde meados da década de 50, campeonatos corporativos de futebol e de ténis de mesa, e, chegada a época estival, os de andebol, de basquetebol, de voleibol, de hóquei em patins e de atletismo, ocupando o lugar de uma inexistente Associação de Desportos que só surgiu em 1963. Assim, os chamados “desportos pobres” – só praticáveis no Verão, pois ainda não havia pavilhões gimno-desportivos – integravam muitos jogadores de futebol federado que, à época, revelavam uma polivalência assinalável sendo praticantes de várias modalidades, incluindo o atletismo. As equipas da FNAT, apesar de incluírem jogadores dos clubes tradicionais (nomeadamente Fayal Sport, Atlético e Sporting), tomavam o nome dos Centros de Recreio Popular (CRP) que abrangiam as Casas do Povo e dos Pescadores e os chamados Sindicatos Nacionais. Lembro, apenas como exemplos, a Casa do Povo dos Cedros ou a da Candelária, os CRP’s da Conceição, da JAE, da Lombega, do Farrobim, dos Flamengos, da Praia do Almoxarife, de Pedro Miguel, de São Roque e das Lajes do Pico ou o Sindicato dos Carregadores e a Casa de Pescadores da Horta.
Foram, pois, atletas destas equipas – com destaque para os CRP’s da Conceição e da JAE e da Casa do Povo da Candelária (equipa de voleibol) – que, em Setembro de 1962, se deslocaram a Lisboa a fim de participarem nos Primeiros Jogos Desportivos do Trabalho, uma ideia do Ministro das Corporações e da Previdência Social que incumbiu a FNAT da sua realização. Na costumada propaganda apologética, esses Jogos – que à semelhança das Olimpíadas se realizariam de quatro em quatro anos! – tinham em vista “contribuir para o aperfeiçoamento moral e físico do trabalhador português, premiar os desportistas que participam regularmente nas actividades desportivas e que se distingam no esforço de valorização humana e social, proporcionando ainda um maior convívio e conhecimento mútuo aos trabalhadores de Portugal” . Os jogos comportavam as seguintes modalidades: Andebol, Futebol, Basquetebol, Voleibol e Atletismo, tendo os elementos que compunham as respectivas equipas representativas da FNAT da Horta, sido submetidos a intensa preparação, sob a direcção dos professores de Educação Física Henrique Barreiros e José Brum.
Os Jogos começaram a 23 de Setembro, no estádio da FNAT, em Lisboa, tiveram a duração de cinco dias e constituíram uma grande manifestação desportiva (e política!) que reuniu equipas de todo o País num total de mais de meio milhar de atletas.
A deputação do distrito da Horta viajou no paquete “Funchal” – ida a 5 e regresso a 29 de Setembro – e, de acordo com mensagens telegráficas enviadas de Lisboa para a imprensa faialense, os desportistas estavam encantados com o acolhimento, com as excelentes instalações e com os passeios que lhes haviam proporcionado. Os Jogos, iniciados a 23, decorreram durante cinco dias e como algumas provas aconteceram à mesma hora obrigaram à dispersão dos desportistas com prejuízo das formações previstas. Mesmo assim, os resultados finais foram bastante aceitáveis, sobretudo em andebol e basquetebol com a obtenção de dois terceiros lugares e em atletismo com três segundos lugares: Luís Oliveira no triplo salto, Guilherme Alexandre no lançamento de peso e Honorato Furtado, Fernando Faria, Armando Sousa e Antero Gonçalves na estafeta 4X100 metros, logo atrás da Madeira e à frente de Lisboa e do Porto.
Para quem, como eu, integrou a deputação da FNAT da Horta aos I Jogos Desportivos do Trabalho jamais pode esquecer esse acontecimento que, ultrapassando o aspecto meramente desportivo, possibilitou inesquecíveis momentos de convívio e de confraternização entre todos nos seus componentes, uns que eram mesmo trabalhadores e outros ainda jovens estudantes da Escola do Magistério e do Liceu da Horta.
Decorridos quatro anos, e tal como havia sido programado realizaram-se na cidade do Porto os II Jogos Desportivos do Trabalho que decorreram de 16 a 21 de Outubro de 1966, tendo a delegação da FNAT do distrito da Horta sido composta por 95 atletas das ilhas do Faial, Pico e Flores. A equipa de atletismo, composta por 10 participantes, ficou em 2º lugar na classificação geral, logo a seguir a Lisboa, destacando-se os seguintes atletas: Armando Sousa, vencedor das provas de 100 e 200 metros, obteve duas medalhas de ouro; João Castro, 2º classificado no salto em comprimento e no triplo salto conquistou duas medalhas de prata, ao passo que a equipa de estafeta 4×100 metros (Manuel Madruga, Fernando Faria, João Castro e Armando Sousa) foi medalha de bronze correspondente ao 3º lugar conquistado.
Contrariamente à ideia inicial, a FNAT já não realizou em 1970 os III Jogos Desportivos do Trabalho – era o início do fim do Estado Corporativo – e, a meados dessa década, ela própria mudaria de nome passando a ser o actual INATEL.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 O Telégrafo, 30 Agosto 1962

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