Da Amizade

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TI

“Viver feliz, meu irmão Galião, é o que todos nós queremos, mas ninguém sabe ao certo o que torna a vida feliz; e não é fácil conseguir a felicidade, uma vez que, quanto mais ardentemente cada um a procura, mais erra o caminho, mais dela se distancia”
SÉNECA
Escrever sobre a Amizade obrigou-me a revisitar Séneca, um filósofo que viveu na corte de Nero e fez parte da aristocracia romana. Num texto magnífico e intemporal, intitulado “Cartas a Lucílio”, escrito nos primeiros anos da era cristã, reflete sobre a natureza humana.
Apesar de ter sido tutor de Nero, não se manifestava politicamente, pois em relação aos poderosos e aos membros das classes dominantes dizia que bastava não os ter como inimigos, tendo acabado com a vida, dramaticamente, por imposição do imperador.
Nas cartas dirigidas a Lucílio, aconselhava: “Deves ser prudente. O homem sábio não deverá provocar a ira dos poderosos, antes se esquivará, tal como no mar o bom mareante se esquiva das tempestades”. A amizade pela metade é apenas conveniência, não é apenas amizade. É um erro não confiar em ninguém, mas é uma imprudência confiar em todos.
No entanto, a Amizade permite criar vínculos humanos profundos. O amigo é o que está presente; que ajuda o outro a ser mais sólido; que anuncia um caminho de futuro; que caminha lado a lado. O amigo é a pessoa com quem se pode ser sincero; diante dele pode pensar-se em voz alta. É quem nos acompanha no momento da morte. “Há um grande prazer não somente na posse da antiga amizade, mas também no início e na aquisição de uma nova. A diferença que há entre o agricultor que semeia e realiza a colheita é a mesma que existe entre aquele que já possui um amigo e aquele que faz uma nova amizade.”
Aconselha o jovem Lucílio: “Reflete por muito tempo antes de escolher alguém como amigo, mas uma vez tomada a decisão, ama-o do fundo do coração. Porque é mais agradável fazer um amigo do que já tê-lo, do mesmo modo que é mais agradável para o artista pintar do que já ter pintado”. E continua: “quem começa a ser amigo de outrem porque é vantajoso, também deixará de sê-lo quando deixar de o ser. Se alguma recompensa te seduzir em detrimento da Amizade, isso significa que a valorizas pouco em si mesma”.
Todos os homens, mesmo os que se bastam a si mesmos, desejam ter amigos, se não for por nenhuma outra razão, pelo valor da amizade. Para que tenha alguém a seu lado quando estiver enfermo; quem o liberte quando prisioneiro ou quando esteja oprimido pelo inimigo.
Séneca defendeu uma corrente filosófica designada de estoicismo. Esta filosofia foi da Grécia para Roma e a sua escola foi importante na sociedade romana. Constituía um conhecimento prático sobre como se deveria viver com simplicidade. Era uma filosofia da recuperação do caráter humano, em tempo de crise. O estoicismo deixou, historicamente, as marcas da integridade, da serenidade e da paz de espírito. Depois de Séneca, Epíteto, o escravo que inspirou e foi mestre do imperador Marco Aurélio, escrevia: “Não se trata de discutir se a amizade deve ser buscada em razão de si mesma. De que modo então se atinge? Do mesmo modo que se atinge a coisa mais bela, não sendo atraído pelo lucro nem atemorizado pela inconstância da fortuna. Trai a majestade da amizade, quem a procura em vista de circunstâncias favoráveis. Do mesmo modo que começa a ser amigo, assim deixa de sê-lo. Estas são as amizades temporárias; quem foi tido como amigo por causa da utilidade, sê-lo-á apenas enquanto for útil. Por isto, uma turba de amigos senta-se à volta dos prósperos; ao redor do arruinado há solidão, e fogem”.

E é aí que a amizade é testada. 

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