Das boas tardes

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“Boa tarde, senhora!”, atirou ele, descendo do passeio para a estrada, para me dar passagem, num ato de cortesia típico das pessoas mais velhas. Rosto enrugado, cabelo de neve debaixo do boné, sorriso alagado por detrás dos óculos de lentes grossas. “Boa tarde, senhora!”. E eu, passo apressado, giro a cabeça no ângulo máximo que a minha falta de articulação permite, à procura da senhora. “Boa tarde, senhora!”. A senhora sou eu. Nunca me tinham atacado assim com um “Boa tarde, senhora!” na rua. Normalmente apanho um “Boa tarde!” sem vírgula, ou o tão apreciado mimo “Boa tarde, menina!”. No trabalho, ao telefone, no dia a dia, algumas vezes, “Boa tarde, senhora!”. Aí há sempre um momento para atirar uma gargalhada ao ar e desfazer o engano. “Senhora, não! Que horror!”. Mas entre dois estranhos que se cruzam na rua, não há margem de manobra para inverter a situação. Desconcertada, desacelero o passo e penso na possibilidade de cortar o caminho do meu interlocutor e dizer “Senhora, não! Que horror!”.

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