De férias na ilha de S. Jorge

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TI

Na última semana de férias redescubro a beleza magistral da ilha de S. Jorge. Tenho vontade de ver e exprimir o sentimento do belo; de ver claro, de ver bem, de ver com um olhar penetrante. Contemplo. As férias proporcionam tempo ao silêncio e à contemplação. A consciência de ver clara e penetrantemente, é consciência e admiração que as correrias alienantes do dia-a-dia obscurecem. Coisas simples, quotidianas: o brilho do sol refletido no mar, ao crepúsculo; a brisa, o murmúrio das ondas que embatem contra as rochas.
Há uma energia e um magnetismo intensos nas falésias abruptas que se precipitam no mar. Os azuis límpidos das enseadas, o verde e o azul-turquesa da poça Simão Dias convidam à imersão, à comunhão plena com a natureza: a água, a luz, a terra, o verde das árvores e dos musgos, os ocres do chão, os vestígios negros do fogo antigo; o dinamismo da paisagem, as escoadas negras e abruptas que se abatem sobre o mar; o movimento dos homens e dos animais que habitam as profundezas da ilha.
A materialização do sublime nas fajãs do Ouvidor, das Almas e do S. Cristo. A norte, paraliso com a visão deslumbrante da Fajã do Além, após ter calcorreado um pequeno trilho. Avista-se do alto da arriba, que cai a pique sobre o mar. Parece inacessível. Mas há quem tenha ousado construir a sua casa nesse lugar íngreme e ermo, demonstrando que é possível realizar o impossível, enfrentando, compreendendo e superando as dificuldades impostas pela natureza. Observo o enorme cabo de aço esticado, quase na vertical, por onde deslizam os bens necessários a quem aí vive. Fisicamente, a descida e a subida são de uma exigência extrema. Reina aí uma ordem ou, antes, a ordem faz da natureza o seu reino. A ordem integra-se na história dos homens, das mulheres e das famílias, as quais integram a história do lugar. O Belo configura aí o sacrifício extremo. A terra respira com os homens. Os homens respiram com a terra a vertigem; enraízam nas vertentes rochosas. Permanecem. Adaptam-se. Sofrem transmutações. Como as urzes, os cedros dos matos, as infestantes que ameaçam as plantas autóctones. A ilha respira a plenos pulmões o ar carregado de musgos e maresias; respira o fogo das suas origens cósmicas.
Penso que o ser humano que habita estes lugares isolados, necessariamente recebe o sentimento do isolamento, fecha-se sobre si mesmo. Sabe intimamente, instintivamente, que o espaço interior é moldável na interação com o espaço exterior. O espaço interior não se abre à toa. E as palavras obrigam. Dizer uma coisa qualquer de qualquer maneira, a um qualquer desconhecido, marca uma brecha na função do habitar. Traduz uma espécie de desordem no espaço. Há lugares assim: imprimem o seu ser ao ser das coisas. 

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