O circo mediático a que a vida política tem estado sujeita nos últimos tempos limita-nos o acesso à informação e ao esclarecimento completo e isento de determinados temas da vida política. Já não é uma novidade, basta ver um noticiário num canal generalista. No entanto, paradoxalmente, a informação está, aparentemente, acessível a todos, através de um clique. Não nos tem servido de muito.
Às portas das eleições europeias de 9 de junho, tem-se observado um rol de notícias sobre os debates agendados pelas televisões, ou sobre este ou aquele candidato, mas não se discute o que, de facto, é o mais importante e que influenciará de forma marcante (e negativa) o futuro do nosso país: as novas regras orçamentais da União Europeia. Trata-se de um conjunto de regras pelas quais os países terão que se reger ao elaborar os respetivos orçamentos nacionais. Regras já conhecidas há algum tempo e aprovadas há duas semanas no Parlamento Europeu pelos deputados do PSD e do PS. Talvez resida aqui a razão do silêncio. Essas regras obrigarão o Governo a um corte (mais um) de 2,8 mil milhões na despesa pública. Era importante que, quer PSD, quer PS, explicassem: primeiro, por que razão aprovaram essas regras; segundo: onde pensam realizar esses cortes. Obviamente que cortar na despesa pública é traduzido por cortar ainda mais nos serviços públicos e isso, por si só, é preocupante. Um assunto praticamente não falado, não escrutinado e que nos vai atingir a todos, nos mais diversos serviços que, atualmente, já enfrentam grandes fragilidades por falta de investimento. Mas há mais. Este conjunto de regras orçamentais impede também a maioria dos países de investir convenientemente na transição energética, não cumprindo, desta forma, os compromissos sociais e climáticos da União Europeia. Uma austeridade disfarçada, portanto. É que, mesmo com as “contas em dia”, os cortes vão ser enormes, afetando aquilo que é mais importante para a maioria dos portugueses, e que urge defender a todo o custo.
No Parlamento Europeu não precisamos de deputados que vão para lá “dizer sim” a tudo, inclusive aprovando medidas que vão prejudicar, e muito, os cidadãos do seu país. Precisamos de deputados que nos defendam, que denunciem as medidas tão gravosas que tantas vezes são aprovadas em Bruxelas e que afetam toda a nossa vida em comum. Aliás, as medidas impostas pela União Europeia aos seus membros afetam muito mais o nosso dia a dia que aquilo que possamos imaginar.
Precisamos de eleger deputados que nos abram os olhos para a falácia dos “fundos europeus”, aquele dinheiro todo que deslumbra governos. Pois, todo esse dinheiro representa a compensação dada aos países por tudo aquilo que perderam ao longo dos anos, com a integração europeia. E acreditem: foi muito mais aquilo que perdemos (em juros, lucros, dividendos e rendas que voaram para fora) que aquilo que nos deram em forma de fundos.
Mas disto ninguém fala.















