Do desporto aos aviões… “tento aproveitar o que a ilha me dá”

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Do desporto ao controlo de tráfego aéreo… Como foi esse percurso?
O desporto sempre foi a minha grande paixão. Sempre sonhei ser professor de Educação Física. Por isso, licenciei-me em ciências do desporto e tirei o mestrado em ensino da Educação Física. Após o términus do curso, dei aulas em colégios privados, sempre conciliando o ensino com o futebol pois fazia parte da equipa técnica do escalão de benjamins do Sport Lisboa e Benfica e jogava num clube da distrital de Lisboa. Mas, como sabe, o acesso à carreira docente no ensino público e, mesmo no privado, com horário completo, não está fácil; concorria e mandava currículos para tudo o que aparecia, mas só havia sobras. E numa dessas procuras online, deparei-me com a abertura de um concurso para Controlador de Tráfego Aéreo na NAV. Preenchi um formulário, realizei diversas provas de acesso ao curso, e fui um dos selecionados para o frequentar. Após a conclusão do mesmo, em Lisboa, abriu uma vaga para a torre da Horta e cá estou.
São profissões completamente diferentes. A de Controlador dá-me imensa satisfação e prazer e sinto-me plenamente realizado. Mas não esqueço a de docente e os momentos únicos e especiais de aprendizagem, relacionamento e afetividade que tive com os meus alunos.

Como a maior parte dos jovens do Faial o ir para fora estudar não te afastou da tua ilha. Porque decidiste voltar?
Desde que fui para Lisboa nunca tive muita vontade em regressar. Como professor de Educação Física e técnico de desporto, a capital tem mais oportunidades de trabalho do que a nossa ilha, o que, aliado ao facto de estar ambientado e gostar de viver em Lisboa, tornava o regresso muito mais improvável.
Mas, após a conclusão do curso de Controlador, e devido à limitada opção de escolha para começar a trabalhar (ou Santa Maria ou Faial), o regresso quase que se tornou inevitável. Já cá estou desde 2014 e estou a gostar muito. Vejo a ilha de outra forma e tento aproveitar cada vez mais as coisas boas que ela nos dá.

O que te atrai na profissão que abraçaste?
Ser Controlador de Tráfego Aéreo é uma profissão com bastante responsabilidade, uma vez que temos nas nossas mãos aviões que transportam muitas pessoas. É exigente e obriga-nos a ter um nível alto de atenção e concentração. O facto de ter de resolver situações de tráfego, ter de apresentar soluções numa questão de minutos ou segundos traz bastante adrenalina mas ao mesmo tempo satisfação e gosto naquilo que se faz.

Como é o dia a dia dentro da Torre?
A Torre da Horta encontra-se fechada durante a noite, excepto em casos especiais como evacuações médicas. Abre todos os dias às 07h e fecha às 20h. Estão três controladores na escala todos os dias, havendo alturas em que se encontram dois ao mesmo tempo, nas horas de maior tráfego. Somos responsáveis pelo tráfego que opera nos aeródromos de São Jorge, Pico, Faial e outros sobrevoos que passam por cima destas ilhas até 24 mil pés. Desta forma, há alturas do dia em que o tráfego é significativo, devido à grande proximidade dos aeródromos das ilhas do triângulo.

É fácil “controlar” os “carros do ar”?
O nosso objectivo é tornar o tráfego aéreo seguro, ordenado e expedito. Conseguir estas três coisas nem sempre é fácil, uma vez que os aviões não podem parar no ar e o espaço aéreo é limitado. Há situações com alguma complexidade, e temos de estar sempre preparados para enfrentá-las garantindo a segurança das aeronaves. No processo de selecção para iniciar o curso, realizamos várias provas que testam a nossa capacidade de lidar com situações de pressão e resolução de problemas, e durante a longa formação que fazemos, somos preparados para enfrentar o dia a dia desta nossa profissão.

Qual a situação mais caricata com a qual tiveste de lidar?
No relativamente pouco tempo que tenho da profissão felizmente ainda não tive nenhuma.

O desporto ainda é algo que te corre nas veias. Agora estás ligado ao Clube de Ténis do Faial mas o Fayal Sport Club foi/é o teu clube de coração… Como foi esse passar do futebol ao ténis?
O Fayal Sport Club foi o clube onde me formei e um local onde passei grande parte da minha infância e adolescência. Fiz grandes amigos e passei muito bons momentos no clube. Quando voltei, fiz uma época lá, mas entretanto surgiu uma proposta para reactivar o Clube de Ténis do Faial, desempenhando eu funções técnicas e não de atleta. Foi um desafio que aceitei no ano passado e ao qual me dedico com empenho para conseguir atingir os objetivos que acordei com a direção. Não fiquei triste por abandonar o futebol, até porque gosto muito de ténis e dar aulas é algo que faço com grande satisfação. No entanto, o futebol é a minha modalidade de eleição e nunca se pode dizer que se a deixa para sempre.

O desporto no Faial perdeu o brilho. O que gostavas de ver acontecer?
A grande diferença que eu noto desde a altura em que fui estudar para Lisboa e o estado atual do desporto no Faial, é que existe mais modalidades, mas o número de equipas e praticantes, nas que existiam, diminuiu. O facto de se verificar uma cada vez maior tendência de as crianças ficarem em casa ocupando-se com jogos, consolas e nas redes sociais, e ainda terem mais trabalhos da escola para fazer, retira-lhes tempo para se dedicarem à prática desportiva. Por outro lado, há cada vez menos pessoas predispostas a abdicar de um pouco da sua vida pessoal para se dedicar aos clubes, fazendo com que estes fiquem sem ninguém para os gerir. Tudo isto, entre outros fatores, contribuiu para a realidade que vivemos hoje em dia no Faial e que é uma certa sensação de que, pelo menos nalgumas modalidades, vivemos um tempo de menor brilho. Tentar contrariar isso não se antevê fácil, mas é meu desejo que isso aconteça e que possamos ver o desporto na nossa ilha singrar de outa forma.

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